{"id":26237,"date":"2024-01-29T19:29:17","date_gmt":"2024-01-29T19:29:17","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=26237"},"modified":"2024-01-29T19:38:53","modified_gmt":"2024-01-29T19:38:53","slug":"o-sonho-de-nove-anos-de-dom-bosco-nucleos-teologico-espirituais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/sonhos-de-dom-bosco\/o-sonho-de-nove-anos-de-dom-bosco-nucleos-teologico-espirituais\/","title":{"rendered":"O sonho de nove anos de Dom Bosco. N\u00facleos teol\u00f3gico-espirituais"},"content":{"rendered":"\n<p><em><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um coment\u00e1rio sobre os temas teol\u00f3gico-espirituais presentes no sonho dos nove anos poderia ter desdobramentos t\u00e3o amplos que incluiria um tratado completo da \u201csalesianidade\u201d. Lido, de fato, a partir de sua hist\u00f3ria dos efeitos, o sonho abre in\u00fameros caminhos para aprofundar os tra\u00e7os pedag\u00f3gicos e apost\u00f3licos que caracterizaram a vida de S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco e a experi\u00eancia carism\u00e1tica que dele se originou. Optamos por nos concentrar em cinco caminhos de reflex\u00e3o espiritual que dizem respeito, respectivamente, (1) \u00e0 miss\u00e3o oratoriana, (2) ao chamado ao imposs\u00edvel, (3) ao mist\u00e9rio do Nome, (4) \u00e0 media\u00e7\u00e3o materna e, finalmente, (5) ao poder da mansid\u00e3o.<br><\/em><\/em><br><br><strong>1. A miss\u00e3o oratoriana<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sonho de nove anos est\u00e1 repleto de meninos. Eles est\u00e3o presentes desde a primeira cena at\u00e9 a \u00faltima e s\u00e3o os benefici\u00e1rios de tudo o que acontece. Sua presen\u00e7a \u00e9 caracterizada pela alegria e pela brincadeira, t\u00edpicas de sua idade, mas tamb\u00e9m pela desordem e pelo comportamento negativo. As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o, portanto, no sonho de nove anos, a imagem rom\u00e2ntica de uma idade encantada, intocada pelos males do mundo, nem correspondem ao mito p\u00f3s-moderno da condi\u00e7\u00e3o da juventude como uma \u00e9poca de a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e disposi\u00e7\u00e3o perene para mudan\u00e7as, que deve ser preservada em uma adolesc\u00eancia eterna. Os meninos do sonho s\u00e3o extraordinariamente \u201creais\u201d, tanto quando aparecem com sua fisionomia como quando s\u00e3o representados simbolicamente na forma de animais. Eles brincam e brigam, divertem-se rindo e se arru\u00ednam dizendo palavr\u00f5es, exatamente como fazem na realidade. Eles n\u00e3o parecem ser inocentes, como uma pedagogia espontane\u00edsta os imagina, nem capazes de ensinar a si mesmos, como Rousseau pensava sobre eles. Desde o momento em que aparecem, em um \u201cp\u00e1tio muito espa\u00e7oso\u201d, que pressagia os grandes p\u00e1tios dos futuros orat\u00f3rios salesianos, eles <em>invocam a presen\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m<\/em>. O gesto impulsivo do sonhador, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o correta; \u00e9 necess\u00e1ria a presen\u00e7a de um Outro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entrela\u00e7ada \u00e0 vis\u00e3o das crian\u00e7as est\u00e1 a apari\u00e7\u00e3o da figura de Cristo, como agora podemos cham\u00e1-lo abertamente. Aquele que disse no Evangelho: \u201cDeixai vir a mim as crian\u00e7as\u201d (<em>Mc <\/em>10,14), vem indicar ao sonhador a atitude com a qual as crian\u00e7as devem ser abordadas e acompanhadas. Ele aparece majestoso, viril, forte, com tra\u00e7os que destacam claramente seu car\u00e1ter divino e transcendente; seu modo de agir \u00e9 marcado pela confian\u00e7a e pelo poder e manifesta um senhorio total sobre as coisas que acontecem. O senhor vener\u00e1vel, no entanto, n\u00e3o instila medo, mas traz paz onde antes havia confus\u00e3o e agita\u00e7\u00e3o; ele manifesta compreens\u00e3o benevolente para com Jo\u00e3o e o direciona para um caminho de mansid\u00e3o e caridade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A <em>reciprocidade <\/em>entre essas figuras \u2013 os meninos, de um lado, e o Senhor (mais tarde acompanhado pela M\u00e3e), de outro \u2013 define os contornos do sonho. As emo\u00e7\u00f5es que Jo\u00e3o sente na experi\u00eancia do sonho, as perguntas que ele faz, a tarefa que ele \u00e9 chamado a realizar, o futuro que se abre diante dele est\u00e3o totalmente ligados \u00e0 dial\u00e9tica entre esses dois polos. Talvez a mensagem mais importante que o sonho transmite a ele, aquela que ele provavelmente entendeu primeiro porque ficou presa em sua imagina\u00e7\u00e3o, mesmo antes de entend\u00ea-la de forma reflexiva, \u00e9 que essas figuras se referem umas \u00e0s outras e que ele <em>n\u00e3o poder\u00e1 mais dissoci\u00e1-las pelo resto da vida<\/em>. O encontro entre a vulnerabilidade do jovem e o poder do Senhor, entre sua necessidade de salva\u00e7\u00e3o e sua oferta de gra\u00e7a, entre seu desejo de alegria e sua d\u00e1diva de vida deve agora se tornar o centro de seus pensamentos, o espa\u00e7o de sua identidade. A partitura de sua vida ser\u00e1 toda escrita na tonalidade que esse tema gerador lhe d\u00e1: modul\u00e1-la em todo o seu potencial harm\u00f4nico ser\u00e1 sua miss\u00e3o, na qual ele deve derramar todos os seus dons de natureza e gra\u00e7a.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O dinamismo da vida de Jo\u00e3o aparece, portanto, na vis\u00e3o do sonho como um movimento cont\u00ednuo, uma esp\u00e9cie de ir e vir espiritual, entre os meninos e o Senhor. Do grupo de meninos em cujo meio ele se lan\u00e7ou impetuosamente, Jo\u00e3o deve se permitir ser atra\u00eddo pelo Senhor que o chama pelo nome e, em seguida, afastar-se d\u2019Aquele que o envia e ir liderar seus companheiros de uma maneira muito diferente. Mesmo que ele receba socos t\u00e3o fortes dos meninos em seus sonhos que ainda sinta a dor deles quando acorda, e que ou\u00e7a as palavras do Senhor vener\u00e1vel que o deixam sem palavras, seu ir e vir n\u00e3o \u00e9 uma agita\u00e7\u00e3o inconclusiva, mas um caminho que gradualmente o transforma e traz aos jovens uma energia de vida e amor.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O fato de tudo isso acontecer em um <em>p\u00e1tio <\/em>\u00e9 altamente significativo e tem um claro valor prol\u00e9ptico, j\u00e1 que o p\u00e1tio oratoriano se tornar\u00e1 o lugar privilegiado e o s\u00edmbolo exemplar da miss\u00e3o de Dom Bosco. Toda a cena se passa nesse ambiente, ao mesmo tempo vasto (p\u00e1tio muito espa\u00e7oso) e familiar (perto de casa). O fato de a vis\u00e3o vocacional n\u00e3o ter como pano de fundo um lugar sagrado ou um espa\u00e7o celestial, mas o ambiente em que os meninos vivem e brincam, indica claramente que <em>a iniciativa divina assume o mundo deles como o lugar do encontro<\/em>. A miss\u00e3o confiada a Jo\u00e3o, mesmo que seja claramente direcionada em um sentido catequ\u00e9tico e religioso (\u201cpara instru\u00ed-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude\u201d), tem como <em>habitat <\/em>o universo da educa\u00e7\u00e3o. A associa\u00e7\u00e3o da figura cristol\u00f3gica com o espa\u00e7o do p\u00e1tio e a din\u00e2mica da brincadeira, que um menino de nove anos certamente n\u00e3o pode ter \u201cconstru\u00eddo\u201d, constitui uma transgress\u00e3o do imagin\u00e1rio religioso mais comum, cuja for\u00e7a inspiradora \u00e9 igual \u00e0 profundidade de seu mist\u00e9rio. De fato, ela sintetiza em si toda a din\u00e2mica do mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o, por meio da qual o Filho assume nossa forma para nos oferecer a Sua, e destaca como n\u00e3o h\u00e1 nada humano que deva ser sacrificado para dar lugar a Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O p\u00e1tio fala, portanto, da <em>proximidade da gra\u00e7a divina ao \u201csentimento\u201d dos jovens<\/em>: para acolh\u00ea-la n\u00e3o \u00e9 preciso sair da pr\u00f3pria idade, negligenciar suas necessidades, for\u00e7ar seus ritmos. Quando Dom Bosco, j\u00e1 adulto, escrevia no <em>Jovem Instru\u00eddo <\/em>que um dos truques do diabo \u00e9 fazer com que os jovens pensem que a santidade \u00e9 incompat\u00edvel com o seu desejo de alegria e com o frescor exuberante da sua vitalidade, ele estava apenas devolvendo em forma madura a li\u00e7\u00e3o intu\u00edda no seu sonho e que depois se tornou um elemento central do seu magist\u00e9rio espiritual. Ao mesmo tempo, o p\u00e1tio fala da necessidade de <em>entender a educa\u00e7\u00e3o a partir de seu n\u00facleo mais profundo<\/em>, que diz respeito \u00e0 atitude do cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Ali, ensina o sonho, n\u00e3o est\u00e1 apenas o espa\u00e7o de uma abertura original \u00e0 gra\u00e7a, mas tamb\u00e9m o abismo da resist\u00eancia, no qual se escondem a fealdade do mal e a viol\u00eancia do pecado. \u00c9 por isso que o horizonte educacional do sonho \u00e9 francamente religioso, e n\u00e3o apenas filantr\u00f3pico, e encena o simbolismo da convers\u00e3o, e n\u00e3o apenas o do autodesenvolvimento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No p\u00e1tio do sonho, cheio de crian\u00e7as e habitado pelo Senhor, \u00e9 revelado a Jo\u00e3o o que ser\u00e1 a futura din\u00e2mica pedag\u00f3gica e espiritual dos p\u00e1tios oratorianos. Gostar\u00edamos ainda de enfatizar dois tra\u00e7os, claramente evocados nas a\u00e7\u00f5es realizadas no sonho, primeiro pelas crian\u00e7as e depois pelos cordeiros mansos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A primeira caracter\u00edstica \u00e9 encontrada no fato de que os meninos \u201cdeixando de brigar, de gritar e de blasfemar, reuniram-se todos em torno daquele que falava\u201d. Esse tema do \u201c<em>reunir-se<\/em>\u201d \u00e9 uma das matrizes teol\u00f3gicas e pedag\u00f3gicas mais importantes da vis\u00e3o educacional de Dom Bosco. Em uma famosa p\u00e1gina escrita em 1854, a <em>Introdu\u00e7\u00e3o <\/em>ao <em>Plano de Regulamento do Orat\u00f3rio Masculino de S\u00e3o Francisco de Sales em Turim, na regi\u00e3o de Valdocco<\/em>, ele apresenta a natureza eclesial e o sentido teol\u00f3gico da institui\u00e7\u00e3o oratoriana citando as palavras do evangelista Jo\u00e3o: \u201c<em>Ut filios Dei, qui erant dispersi, congregaret in unum\u201d [para reunir os filhos de Deus dispersos]<\/em> (<em>Jo <\/em>11,52). A atividade do Orat\u00f3rio \u00e9, portanto, colocada sob o signo da reuni\u00e3o escatol\u00f3gica dos filhos de Deus, que constituiu o centro da miss\u00e3o do Filho de Deus:<br><br><em>As palavras do santo Evangelho que nos revelam que o divino Salvador veio do c\u00e9u \u00e0 terra para reunir todos os filhos de Deus, dispersos nas v\u00e1rias partes da terra, parecem-me se aplicar literalmente aos jovens de nossos dias.<br><\/em><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A juventude, \u201cessa por\u00e7\u00e3o mais delicada e preciosa da sociedade humana\u201d, muitas vezes se encontra dispersa e desgarrada devido ao desinteresse educacional dos pais ou \u00e0 influ\u00eancia de maus companheiros. A primeira coisa a ser feita para proporcionar a educa\u00e7\u00e3o desses jovens \u00e9 justamente \u201creuni-los, deix\u00e1-los falar, moraliz\u00e1-los\u201d. Nessas palavras da <em>Introdu\u00e7\u00e3o <\/em>ao <em>Plano de Regulamento, <\/em>o eco do sonho, amadurecido na consci\u00eancia do educador j\u00e1 adulto, est\u00e1 presente de forma clara e reconhec\u00edvel. O orat\u00f3rio \u00e9 apresentado ali como uma alegre \u201creuni\u00e3o\u201d de jovens em torno da \u00fanica for\u00e7a tranquilizadora capaz de salv\u00e1-los e transform\u00e1-los, a do Senhor: \u201cEsses orat\u00f3rios s\u00e3o certas reuni\u00f5es nas quais os jovens s\u00e3o mantidos em uma recrea\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel e honesta, depois de terem participado das fun\u00e7\u00f5es sagradas da igreja\u201d. Desde a inf\u00e2ncia, de fato, Dom Bosco compreendeu que \u201cessa era a miss\u00e3o do filho de Deus; isso \u00e9 o que s\u00f3 sua santa religi\u00e3o s\u00f3 pode fazer\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O segundo elemento que se tornar\u00e1 um tra\u00e7o identificador da espiritualidade oratoriana \u00e9 aquele que no sonho se revela atrav\u00e9s da imagem dos cordeiros correndo \u201cpara fazer festa \u00e0quele homem e \u00e0quela senhora\u201d. A <em>pedagogia da festa <\/em>ser\u00e1 uma dimens\u00e3o fundamental do sistema preventivo de Dom Bosco, que ver\u00e1 nas numerosas festas religiosas do ano a oportunidade de oferecer aos meninos a chance de respirar profundamente a alegria da f\u00e9. Dom Bosco saber\u00e1 envolver com entusiasmo a comunidade juvenil do Orat\u00f3rio na prepara\u00e7\u00e3o de eventos, pe\u00e7as teatrais, recep\u00e7\u00f5es que proporcionariam uma distra\u00e7\u00e3o a respeito do trabalho enfadonho do dia a dia, para valorizar os talentos dos meninos para a m\u00fasica, a representa\u00e7\u00e3o, a gin\u00e1stica, para dirigir a imagina\u00e7\u00e3o deles na dire\u00e7\u00e3o de uma criatividade positiva. Se levarmos em conta que a educa\u00e7\u00e3o proposta nos c\u00edrculos religiosos do s\u00e9culo XIX geralmente tinha um teor bastante austero, que parecia apresentar o ideal pedag\u00f3gico a ser alcan\u00e7ado como o da compostura devota, a saud\u00e1vel alegria festiva do orat\u00f3rio se destaca como uma express\u00e3o de um humanismo aberto para compreender as necessidades psicol\u00f3gicas do menino e capaz de satisfazer seu protagonismo. A alegria festiva que se segue \u00e0 metamorfose dos animais do sonho \u00e9, portanto, o que a pedagogia salesiana deve buscar.<br><br><strong>2. O chamado ao imposs\u00edvel<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto para os meninos o sonho termina em comemora\u00e7\u00e3o, para Jo\u00e3o termina em des\u00e2nimo e at\u00e9 em l\u00e1grimas. Esse \u00e9 um resultado que n\u00e3o pode deixar de ser surpreendente. \u00c9 comum pensar, de fato, com alguma simplifica\u00e7\u00e3o, que as visitas de Deus s\u00e3o exclusivamente portadoras de alegria e consolo. \u00c9 paradoxal, portanto, que para um ap\u00f3stolo da alegria, para aquele que, como seminarista, fundar\u00e1 a \u201csociedade da alegria\u201d e que, como sacerdote, ensinar\u00e1 a seus filhos que a santidade consiste em \u201cser muito alegre\u201d, a cena vocacional termine em choro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso certamente pode indicar que a alegria de que se fala n\u00e3o \u00e9 puro lazer e simples despreocupa\u00e7\u00e3o, mas uma resson\u00e2ncia interior da beleza da gra\u00e7a. Como tal, ela s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada por meio de exigentes batalhas espirituais, cujo pre\u00e7o Dom Bosco ter\u00e1 de pagar em grande parte para o benef\u00edcio de seus meninos. Assim, ele reviver\u00e1 em si mesmo aquela troca de pap\u00e9is que se enra\u00edza no mist\u00e9rio pascal de Jesus e que se prolonga na condi\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos: \u201cn\u00f3s, insensatos por causa de Cristo, v\u00f3s, s\u00e1bios em Cristo; n\u00f3s, fracos, v\u00f3s, fortes; v\u00f3s, honrados, n\u00f3s, desprezados\u201d (<em>1Cor <\/em>4,10), mas, ao mesmo tempo, \u201ccolaboradores da vossa alegria\u201d (<em>2Cor <\/em>1,24).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O tumulto com o qual o sonho se encerra, por\u00e9m, lembra sobretudo a vertigem que os grandes personagens b\u00edblicos sentem diante da voca\u00e7\u00e3o divina que se manifesta em suas vidas, direcionando-as para um rumo totalmente imprevis\u00edvel e desconcertante. O Evangelho de Lucas afirma que at\u00e9 mesmo Maria, diante das palavras do anjo, teve uma sensa\u00e7\u00e3o de profunda agita\u00e7\u00e3o interior (\u201cdiante dessas palavras, ela ficou muito perturbada\u201d \u2013 <em>Lc <\/em>1,29). Isa\u00edas havia se sentido perdido diante da manifesta\u00e7\u00e3o da santidade de Deus no templo (<em>Is <\/em>6). Am\u00f3s havia comparado ao rugido de um le\u00e3o (<em>Am <\/em>3,8) o poder da Palavra divina pela qual ele havia sido tomado, enquanto Paulo experimentaria na estrada para Damasco a reviravolta existencial que vem do encontro com o Ressuscitado. Embora testemunhando o fasc\u00ednio de um encontro com Deus que seduz para sempre, no momento do chamado, os homens b\u00edblicos parecem mais hesitar temerosos diante de algo que os ultrapassa do que se lan\u00e7ar de cabe\u00e7a na aventura da miss\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A perturba\u00e7\u00e3o que Jo\u00e3o experimenta no sonho parece ser uma experi\u00eancia semelhante. Ela se origina da natureza paradoxal da miss\u00e3o que lhe foi designada, que ele n\u00e3o hesita em descrever como \u201cimposs\u00edvel\u201d (\u201cQuem \u00e9 o Senhor que me ordena o que \u00e9 imposs\u00edvel?\u201d). O adjetivo pode parecer \u201cexagerado\u201d, como \u00e0s vezes s\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as, especialmente quando expressam um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o diante de uma tarefa desafiadora. Mas esse elemento da psicologia infantil n\u00e3o parece ser suficiente para iluminar o conte\u00fado do di\u00e1logo do sonho e a profundidade da experi\u00eancia espiritual que ele comunica. Tanto mais que Jo\u00e3o tem uma verdadeira qualidade de <em>lideran\u00e7a <\/em>e uma excelente mem\u00f3ria, o que lhe permitir\u00e1, nos meses seguintes ao sonho, come\u00e7ar imediatamente a fazer um pouco de orat\u00f3rio, entretendo seus amigos com jogos de acrobacia e repetindo o serm\u00e3o do p\u00e1roco para eles na \u00edntegra. Por essa raz\u00e3o, nas palavras com as quais ele declara sem rodeios que \u00e9 \u201cincapaz de falar sobre religi\u00e3o\u201d com seus companheiros, \u00e9 bom ouvir o eco distante da obje\u00e7\u00e3o de Jeremias \u00e0 voca\u00e7\u00e3o divina: \u201cN\u00e3o sei falar, porque sou jovem\u201d (<em>Jr <\/em>1,6).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o \u00e9 no n\u00edvel das aptid\u00f5es naturais que a demanda pelo imposs\u00edvel se desenrola aqui, mas sim no n\u00edvel do que pode ser inclu\u00eddo no horizonte do real, do que pode ser esperado com base na pr\u00f3pria imagem do mundo, do que est\u00e1 dentro dos limites da experi\u00eancia. <em>Al\u00e9m dessa fronteira, <\/em>abre-se <em>a regi\u00e3o do imposs\u00edvel, <\/em>que \u00e9, no entanto, biblicamente, <em>o espa\u00e7o da a\u00e7\u00e3o de Deus<\/em>. \u00c9 \u201cimposs\u00edvel\u201d para Abra\u00e3o ter um filho de uma mulher est\u00e9ril e idosa como Sara; \u201cimposs\u00edvel\u201d para a Virgem conceber e dar ao mundo o Filho de Deus feito homem; aos disc\u00edpulos parece que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cimposs\u00edvel\u201d, se \u00e9 mais f\u00e1cil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos c\u00e9us. No entanto, ouve-se Abra\u00e3o responder: \u201cExiste alguma coisa imposs\u00edvel para o Senhor?\u201d (<em>Gn <\/em>18,14); o anjo diz a Maria que \u201cpara Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel\u201d (<em>Lc <\/em>1,37); e Jesus responde aos disc\u00edpulos incr\u00e9dulos que \u201co que \u00e9 imposs\u00edvel aos homens \u00e9 poss\u00edvel a Deus\u201d (<em>Lc <\/em>18,27).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O lugar supremo em que surge a quest\u00e3o teol\u00f3gica do imposs\u00edvel, por\u00e9m, \u00e9 o momento decisivo da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, ou seja, o drama pascal, no qual a fronteira do imposs\u00edvel a ser superada \u00e9 o pr\u00f3prio abismo tenebroso do mal e da morte. \u00c9 nesse <em>espa\u00e7o gerado pela ressurrei\u00e7\u00e3o <\/em>que o<em> <\/em>imposs\u00edvel se torna realidade efetiva, \u00e9 nele que o vener\u00e1vel homem do sonho, resplandecente de luz pascal, pede a Jo\u00e3o que torne poss\u00edvel o imposs\u00edvel. E ele o faz com uma f\u00f3rmula surpreendente: \u201cComo essas coisas te parecem imposs\u00edveis, tu deves torn\u00e1-las poss\u00edveis pela obedi\u00eancia\u201d. Isso soa como as palavras com as quais os pais pedem aos filhos, quando eles est\u00e3o relutantes, que fa\u00e7am algo que n\u00e3o se sentem capazes de fazer ou que n\u00e3o t\u00eam vontade de fazer.<br>\u201cObedece e ver\u00e1s que ser\u00e1s bem-sucedido\u201d, dizem a m\u00e3e ou o pai: a psicologia do mundo infantil \u00e9 perfeitamente respeitada. Mas elas s\u00e3o tamb\u00e9m, e muito mais, as palavras com as quais o Filho revela <em>o segredo do imposs\u00edvel, um segredo que est\u00e1 todo escondido em sua obedi\u00eancia<\/em>. O vener\u00e1vel homem que manda uma coisa imposs\u00edvel sabe, por meio de sua experi\u00eancia humana, que a impossibilidade \u00e9 o lugar onde o Pai trabalha com seu Esp\u00edrito, desde que abra a porta para ele com sua obedi\u00eancia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jo\u00e3o, \u00e9 claro, permanece perturbado e at\u00f4nito, mas essa \u00e9 a atitude que o homem experimenta quando se depara com o imposs\u00edvel pascal, quando se depara com o milagre dos milagres, do qual todos os outros eventos salv\u00edficos s\u00e3o sinais. Portanto, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que, no sonho, a dial\u00e9tica do poss\u00edvel-imposs\u00edvel esteja entrela\u00e7ada com a outra dial\u00e9tica, a da clareza e da obscuridade. Ela caracteriza, em primeiro lugar, a pr\u00f3pria imagem do Senhor, cujo rosto \u00e9 t\u00e3o brilhante que Jo\u00e3o n\u00e3o consegue fit\u00e1-lo. Nessa face brilha, de fato, uma luz divina que, paradoxalmente, produz escurid\u00e3o. Depois, h\u00e1 as palavras do homem e da mulher que, embora expliquem claramente o que Jo\u00e3o deve fazer, ainda assim o deixam confuso e assustado. Por fim, h\u00e1 uma ilustra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, por meio da metamorfose de animais, que, no entanto, leva a uma incompreens\u00e3o ainda maior. Jo\u00e3o s\u00f3 pode pedir mais esclarecimentos: \u201cEu implorei \u00e0quele homem que falasse de modo que eu pudesse entender, pois eu n\u00e3o sabia o que queria dizer\u201d. Mas a resposta que ele recebe da mulher de apar\u00eancia majestosa adia ainda mais o momento da compreens\u00e3o: \u201cNo devido tempo tudo compreender\u00e1s\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso certamente significa que somente por meio da execu\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 \u00e9 apreens\u00edvel do sonho, ou seja, por meio da poss\u00edvel obedi\u00eancia, o espa\u00e7o para esclarecer sua mensagem ser\u00e1 aberto mais amplamente. De fato, ele n\u00e3o consiste simplesmente em uma ideia a ser explicada, mas em uma palavra performativa, uma locu\u00e7\u00e3o eficaz, que justamente ao realizar seu poder operativo manifesta seu significado mais profundo.<br><br><strong>3. O mist\u00e9rio do Nome<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tendo chegado a esse ponto de reflex\u00e3o, estamos mais aptos a interpretar melhor outro elemento importante da experi\u00eancia do sonho. \u00c9 o fato de que no centro da dupla tens\u00e3o entre poss\u00edvel e imposs\u00edvel e entre conhecido e desconhecido, e tamb\u00e9m, materialmente, no centro da narrativa do sonho, est\u00e1 o tema do misterioso Nome do homem vener\u00e1vel. O denso di\u00e1logo da se\u00e7\u00e3o III \u00e9, de fato, entrela\u00e7ado com perguntas que reiteram o mesmo tema: \u201cQuem sois v\u00f3s que me ordenais coisas imposs\u00edveis?\u201d; \u201cQuem sois v\u00f3s que falais dessa maneira?\u201d; e, finalmente: \u201cMinha m\u00e3e me diz para n\u00e3o me associar com os que n\u00e3o conhe\u00e7o, sem a permiss\u00e3o dela; portanto, dizei-me o vosso nome\u201d. O Senhor vener\u00e1vel diz a Jo\u00e3o para perguntar o nome \u00e0 sua m\u00e3e, mas, na verdade, ela n\u00e3o lhe dir\u00e1. Ele permanece envolto em mist\u00e9rio at\u00e9 o fim.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; J\u00e1 mencionamos, na parte dedicada \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do contexto b\u00edblico do sonho, que o tema do Nome est\u00e1 intimamente relacionado ao epis\u00f3dio da voca\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s na sar\u00e7a ardente (<em>Ex <\/em>3). Essa p\u00e1gina constitui um dos textos centrais da revela\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento e estabelece as bases para todo o pensamento religioso de Israel. Andr\u00e9 LaCoque prop\u00f4s cham\u00e1-la de \u201crevela\u00e7\u00e3o das revela\u00e7\u00f5es\u201d, porque constitui o princ\u00edpio de unidade da estrutura narrativa e prescritiva que qualifica a narrativa do \u00caxodo, a c\u00e9lula-m\u00e3e de toda a Escritura.<a href=\"#_edn1\" id=\"_ednref1\"><sup>[i]<\/sup><\/a> \u00c9 importante notar como o texto b\u00edblico articula em estreita unidade a condi\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o do povo no Egito, a voca\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s e a revela\u00e7\u00e3o teof\u00e2nica. A revela\u00e7\u00e3o do Nome de Deus a Mois\u00e9s n\u00e3o se d\u00e1 como a transmiss\u00e3o de uma informa\u00e7\u00e3o a ser conhecida ou de um dado a ser adquirido, mas como a manifesta\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a pessoal, que pretende suscitar uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e gerar um processo de liberta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, <em>a revela\u00e7\u00e3o do Nome divino \u00e9 orientada na dire\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a e da miss\u00e3o<\/em>. \u201cO Nome \u00e9 ao mesmo tempo teof\u00e2nico e performativo, uma vez que aqueles que o recebem n\u00e3o s\u00e3o simplesmente introduzidos no segredo divino, mas s\u00e3o os destinat\u00e1rios de um ato de salva\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_edn2\" id=\"_ednref2\"><sup>[ii]<\/sup><\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Nome, de fato, diferentemente do conceito, n\u00e3o designa apenas uma ess\u00eancia a ser pensada, mas uma alteridade a ser referida, uma presen\u00e7a a ser invocada, um sujeito que se prop\u00f5e como verdadeiro interlocutor da exist\u00eancia. Ao mesmo tempo em que implica a proclama\u00e7\u00e3o de uma riqueza ontol\u00f3gica incompar\u00e1vel, a do pr\u00f3prio Ser, que nunca pode ser adequadamente definida, o fato de Deus se revelar como um \u201cEu\u201d indica que somente por meio de um relacionamento pessoal com Ele ser\u00e1 poss\u00edvel acessar Sua identidade, o Mist\u00e9rio do Ser que Ele \u00e9. A revela\u00e7\u00e3o do Nome pessoal \u00e9, portanto, um ato de fala que desafia o receptor, pedindo que ele se situe em rela\u00e7\u00e3o ao falante. Somente assim \u00e9 poss\u00edvel compreender seu significado. Al\u00e9m disso, essa revela\u00e7\u00e3o se estabelece explicitamente como o fundamento da miss\u00e3o libertadora que Mois\u00e9s deve cumprir: \u201cEu sou me enviou a v\u00f3s\u201d (<em>Ex <\/em>3,14). Ao se apresentar como um Deus pessoal, e n\u00e3o como um Deus vinculado a um territ\u00f3rio, e como o Deus da promessa, e n\u00e3o apenas como o Senhor da repeti\u00e7\u00e3o imut\u00e1vel, Jav\u00e9 ser\u00e1 capaz de sustentar a jornada do povo, sua jornada rumo \u00e0 liberdade. Ele tem, portanto, um Nome que se torna conhecido na medida em que suscita alian\u00e7a e move a hist\u00f3ria.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cDizei-me vosso nome\u201d: essa pergunta de Jo\u00e3o n\u00e3o pode ser respondida simplesmente por uma f\u00f3rmula, um nome entendido como um r\u00f3tulo externo da pessoa. Para saber o nome daquele que fala no sonho, n\u00e3o basta receber uma informa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 preciso se posicionar diante de seu ato de falar. Ou seja, \u00e9 necess\u00e1rio entrar naquele relacionamento de intimidade e entrega que os Evangelhos descrevem como uma \u201cperman\u00eancia\u201d com Ele. \u00c9 por isso que, quando os primeiros disc\u00edpulos questionam Jesus sobre sua identidade \u2013 \u201cMestre, onde moras?\u201d ou, literalmente, \u201conde ficas?\u201d \u2013 ele responde: \u201cVinde e vede\u201d (<em>Jo <\/em>1,38s). Somente \u201cpermanecendo\u201d com ele, habitando em seu mist\u00e9rio, entrando em seu relacionamento com o Pai, \u00e9 que se pode realmente saber quem ele \u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O fato de o personagem do sonho n\u00e3o responder a Jo\u00e3o com um nome, como n\u00f3s far\u00edamos ao apresentar o que est\u00e1 escrito em nossa carteira de identidade, indica que seu Nome n\u00e3o pode ser conhecido como uma designa\u00e7\u00e3o puramente externa, mas s\u00f3 mostra sua verdade quando sela uma experi\u00eancia de alian\u00e7a e miss\u00e3o. Jo\u00e3o, portanto, conhecer\u00e1 esse mesmo Nome atravessando a dial\u00e9tica do poss\u00edvel e do imposs\u00edvel, da clareza e da obscuridade; ele o conhecer\u00e1 realizando a miss\u00e3o oratoriana que lhe foi confiada. Ele o conhecer\u00e1, portanto, carregando-o dentro de si, gra\u00e7as a uma hist\u00f3ria vivida como uma hist\u00f3ria habitada por ele. Um dia Cagliero testemunhar\u00e1 de Dom Bosco que o seu modo de amar era \u201cterno, grande, forte, mas todo espiritual, puro, verdadeiramente casto\u201d, tanto que \u201cdava uma ideia perfeita do amor que o Salvador tinha pelas crian\u00e7as\u201d (Cagliero 1146r). Isso indica que o Nome do homem vener\u00e1vel, cujo rosto era t\u00e3o brilhante que cegava a vis\u00e3o do sonhador, realmente entrou na vida de Dom Bosco como um <em>selo. <\/em>Ele teve a <em>experientia cordis [experi\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o] <\/em>por meio da jornada da f\u00e9 e do seguimento. Essa \u00e9 a \u00fanica forma pela qual a pergunta do sonho poderia ser respondida.<br><br><strong>4. Media\u00e7\u00e3o materna<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na incerteza sobre Aquele que o envia, o \u00fanico ponto firme ao qual Jo\u00e3o pode se apegar no sonho \u00e9 a refer\u00eancia a uma m\u00e3e, na verdade, a duas: a do senhor vener\u00e1vel e da sua pr\u00f3pria. As respostas \u00e0s suas perguntas, de fato, soam assim: \u201cEu sou o filho daquela que tua m\u00e3e te ensinou a saudar tr\u00eas vezes ao dia\u201d e, em seguida, \u201cmeu nome pergunta-o a Minha M\u00e3e\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O fato de <em>o espa\u00e7o do esclarecimento poss\u00edvel ser mariano e materno<\/em> \u00e9, sem d\u00favida, algo que merece reflex\u00e3o. Maria \u00e9 o lugar no qual a humanidade percebe a mais alta correspond\u00eancia com a luz que vem de Deus e o espa\u00e7o da criatura no qual Deus entregou ao mundo sua Palavra feita carne. Tamb\u00e9m \u00e9 indicativo que, ao despertar do sonho, quem melhor entende seu significado e escopo \u00e9 Margarida, a m\u00e3e de Jo\u00e3o. Em n\u00edveis diferentes, mas de acordo com uma analogia real, a M\u00e3e do Senhor e a m\u00e3e de Jo\u00e3o representam a face feminina da Igreja, que se mostra capaz de intui\u00e7\u00e3o espiritual e constitui o ventre no qual as grandes miss\u00f5es s\u00e3o gestadas e dadas \u00e0 luz.<br>Portanto, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que as duas m\u00e3es estejam justapostas uma \u00e0 outra e exatamente no ponto em que se trata de chegar ao fundo da quest\u00e3o que o sonho apresenta, ou seja, o conhecimento Daquele que confia a Jo\u00e3o a miss\u00e3o de uma vida inteira. Assim como no p\u00e1tio perto da casa, assim tamb\u00e9m com a m\u00e3e, na intui\u00e7\u00e3o do sonho os espa\u00e7os da experi\u00eancia mais familiar e cotidiana se abrem e mostram uma profundidade insond\u00e1vel em suas dobras. Os gestos comuns de ora\u00e7\u00e3o, a sauda\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica que era habitual tr\u00eas vezes ao dia em todas as fam\u00edlias, de repente aparecem pelo que s\u00e3o: di\u00e1logo com o Mist\u00e9rio. Jo\u00e3o descobre, assim, que na escola de sua m\u00e3e ele j\u00e1 havia estabelecido um v\u00ednculo com a majestosa Mulher, que pode lhe explicar tudo. Assim, j\u00e1 existe uma esp\u00e9cie de canal feminino que permite superar a aparente dist\u00e2ncia entre \u201cuma crian\u00e7a pobre e ignorante\u201d e o homem \u201cnobremente vestido\u201d. Essa media\u00e7\u00e3o feminina, mariana e materna, acompanhar\u00e1 Jo\u00e3o por toda a sua vida e desenvolver\u00e1 nele uma disposi\u00e7\u00e3o especial para venerar a Virgem com o t\u00edtulo de Aux\u00edlio dos Crist\u00e3os, tornando-se seu ap\u00f3stolo para seus filhos e para toda a Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A primeira ajuda que Nossa Senhora lhe oferece \u00e9 a que uma crian\u00e7a naturalmente precisa: a de uma mestra. O que ela tem a lhe ensinar \u00e9 uma disciplina que torna a pessoa verdadeiramente s\u00e1bia, sem a qual \u201ctoda sabedoria se torna tolice\u201d. Essa \u00e9 a disciplina da f\u00e9, que consiste em dar cr\u00e9dito a Deus e obedecer mesmo diante do imposs\u00edvel e do obscuro. Maria a transmite como a mais alta express\u00e3o de liberdade e como a mais rica fonte de fecundidade espiritual e educacional. Levar dentro de si o imposs\u00edvel de Deus e caminhar na escurid\u00e3o da f\u00e9 \u00e9, de fato, a arte na qual a Virgem se sobressai acima de toda criatura.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela fez disso um \u00e1rduo aprendizado em sua <em>peregrinatio fidei [peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9], <\/em>marcado n\u00e3o raramente por escurid\u00e3o e mal-entendidos. Basta pensarmos no epis\u00f3dio do encontro de Jesus, aos doze anos, no Templo (<em>Lc <\/em>2,41-50). \u00c0 pergunta de sua m\u00e3e: \u201cFilho, por que fizeste isso conosco? Eis que teu pai e eu, angustiados, est\u00e1vamos te procurando\u201d, Jesus responde de forma surpreendente: \u201cPor que est\u00e1veis procurando por mim? N\u00e3o sab\u00edeis que eu devia cuidar das coisas de meu Pai?\u201d E o evangelista observa: \u201cMas eles n\u00e3o entenderam o que ele lhes havia dito\u201d. \u00c9 muito menos prov\u00e1vel que Maria tenha entendido quando sua maternidade, solenemente anunciada do alto, foi, por assim dizer, expropriada dela para que se tornasse a heran\u00e7a comum da comunidade dos disc\u00edpulos: \u201cTodo aquele que faz a vontade de meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us, esse \u00e9 meu irm\u00e3o, irm\u00e3 e m\u00e3e\u201d (<em>Mt <\/em>12,50). Depois, aos p\u00e9s da cruz, quando a escurid\u00e3o se abateu sobre toda a terra, o \u201ceis-me aqui\u201d pronunciado no momento do chamado assumiu os contornos de uma ren\u00fancia extrema, de uma separa\u00e7\u00e3o do Filho em cujo lugar deveria receber os filhos pecadores, pelos quais deixaria que seu cora\u00e7\u00e3o fosse atravessado pela espada.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, quando a majestosa mulher do sonho come\u00e7a sua tarefa como mestra e, colocando a m\u00e3o na cabe\u00e7a de Jo\u00e3o, diz a ele: \u201cNo devido tempo tudo compreender\u00e1s\u201d, ela <em>tira essas palavras das entranhas espirituais da f\u00e9 que, aos p\u00e9s da cruz, fez dela a m\u00e3e de todos os disc\u00edpulos<\/em>. Sob sua disciplina, Jo\u00e3o ter\u00e1 de permanecer por toda a vida: como jovem, como seminarista, como sacerdote. De modo especial, ele ter\u00e1 de permanecer ali quando sua miss\u00e3o assumir contornos que ele n\u00e3o podia imaginar no momento de seu sonho; isto \u00e9, quando ele ter\u00e1 de se tornar, no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, o fundador de fam\u00edlias religiosas destinadas \u00e0 juventude de todos os continentes. Ent\u00e3o Jo\u00e3o, que agora se tornou Dom Bosco, compreender\u00e1 tamb\u00e9m o significado mais profundo do gesto com que o vener\u00e1vel senhor lhe deu a m\u00e3e como \u201cmestra\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando um jovem entra em uma fam\u00edlia religiosa, encontra para acolh\u00ea-lo um mestre de noviciado, a quem \u00e9 confiado para introduzi-lo no esp\u00edrito da Ordem e ajud\u00e1-lo a assimilar aquele esp\u00edrito. <em>Quando se trata de um Fundador<\/em>, que deve receber do Esp\u00edrito Santo a luz original do carisma, <em>o Senhor disp\u00f5e que seja sua pr\u00f3pria m\u00e3e, a Virgem do Pentecostes e modelo imaculado da Igreja, que seja a sua mestra<\/em>. De fato, somente ela, a \u201ccheia de gra\u00e7a\u201d, compreende todos os carismas a partir de dentro, como uma pessoa que conhece todas as l\u00ednguas e as fala como se fossem sua pr\u00f3pria l\u00edngua.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a mulher do sonho sabe como indicar a ele, de maneira precisa e apropriada, as riquezas do carisma oratoriano. Ela n\u00e3o acrescenta nada \u00e0s palavras do Filho, mas as ilustra com a cena dos animais selvagens que se tornaram mansos cordeiros e com a indica\u00e7\u00e3o das qualidades que Jo\u00e3o dever\u00e1 amadurecer para cumprir sua miss\u00e3o: \u201chumilde, forte, robusto\u201d. Nesses tr\u00eas adjetivos, que designam o vigor do esp\u00edrito (humildade), do car\u00e1ter (for\u00e7a) e do corpo (robustez), h\u00e1 uma grande concretude. Esse \u00e9 o conselho que se daria a um jovem novi\u00e7o que tem uma longa experi\u00eancia no orat\u00f3rio e sabe o que exige o \u201ccampo\u201d em que se deve \u201ctrabalhar\u201d. A tradi\u00e7\u00e3o espiritual salesiana guardou cuidadosamente as palavras desse sonho que se referem a Maria. As Constitui\u00e7\u00f5es Salesianas fazem clara alus\u00e3o a ela quando afirmam: \u201cA Virgem Maria indicou a Dom Bosco seu campo de a\u00e7\u00e3o entre os jovens\u201d,<a href=\"#_edn3\" id=\"_ednref3\"><sup>[iii]<\/sup><\/a> ou recordam que \u201cguiado por Maria, que lhe foi Mestra, Dom Bosco viveu, no encontro com os jovens do primeiro Orat\u00f3rio, uma experi\u00eancia espiritual e educativa a que chamou de Sistema Preventivo\u201d.<a href=\"#_edn4\" id=\"_ednref4\"><sup>[iv]<\/sup><\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dom Bosco reconheceu em Maria um papel decisivo em seu sistema educativo, vendo em sua maternidade a mais alta inspira\u00e7\u00e3o do que significa \u201cprevenir\u201d. O fato de Maria ter intervindo desde o primeiro momento de sua voca\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica, de ter desempenhado um papel t\u00e3o central nesse sonho, far\u00e1 com que Dom Bosco perceba para sempre que ela <em>pertence \u00e0s ra\u00edzes do carisma e que, onde esse papel inspirador n\u00e3o \u00e9 reconhecido, o carisma n\u00e3o \u00e9 compreendido em sua genuinidade. <\/em>Dada como Mestra a Jo\u00e3o nesse sonho, ela deve s\u00ea-lo tamb\u00e9m para todos aqueles que compartilham sua voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o. Como os sucessores de Dom Bosco n\u00e3o se cansaram de afirmar, a \u201cque sem o concurso materno e ininterrupto de Maria, a Voca\u00e7\u00e3o Salesiana \u00e9 inexplic\u00e1vel, no seu nascimento, no seu desenvolvimento, e sempre.\u201d.<a href=\"#_edn5\" id=\"_ednref5\"><sup>[v]<\/sup><\/a><br><br><strong>5. O poder da mansid\u00e3o<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cN\u00e3o com pancadas, mas com a mansid\u00e3o e a caridade, dever\u00e1s ganhar estes teus amigos\u201d. Estas palavras s\u00e3o, sem d\u00favida, a express\u00e3o mais conhecida do sonho de nove anos, aquela que de alguma forma resume sua mensagem e transmite sua inspira\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tamb\u00e9m as primeiras palavras que o vener\u00e1vel homem diz a Jo\u00e3o, interrompendo seus esfor\u00e7os violentos para p\u00f4r fim \u00e0 desordem e \u00e0 blasf\u00eamia de seus companheiros. N\u00e3o se trata apenas de uma f\u00f3rmula que transmite uma senten\u00e7a sapiencial sempre v\u00e1lida, mas de uma express\u00e3o que especifica o modo de execu\u00e7\u00e3o de uma ordem (\u201cele me ordenou que ficasse \u00e0 frente daquelas crian\u00e7as acrescentando estas palavras\u201d) com a qual, como dissemos, o movimento intencional da consci\u00eancia do sonhador \u00e9 redirecionado. A \u00e2nsia das pancadas deve se tornar o \u00edmpeto da caridade; a energia decomposta de uma interven\u00e7\u00e3o repressiva deve dar lugar \u00e0 mansid\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O termo \u201cmansid\u00e3o\u201d passa a ter um peso consider\u00e1vel aqui, o que \u00e9 ainda mais impressionante quando se considera que o adjetivo correspondente ser\u00e1 usado no final do sonho para descrever os cordeiros que fazem festa ao redor do Senhor e de Maria. A justaposi\u00e7\u00e3o sugere uma observa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o parece sem relev\u00e2ncia: <em>para que aqueles que eram animais ferozes se tornem cordeiros \u201cmansos\u201d, seu educador deve, antes de tudo, tornar-se manso. <\/em>Ambos, embora de pontos de partida diferentes, devem passar por uma <em>metamorfose <\/em>para entrar na \u00f3rbita cristol\u00f3gica da mansid\u00e3o e da caridade. Para um grupo de meninos bagunceiros e briguentos, \u00e9 f\u00e1cil entender o que essa mudan\u00e7a exige. Para um educador, talvez isso seja menos \u00f3bvio. Ele, na verdade, j\u00e1 se coloca do lado da bondade, dos valores positivos, da ordem e da disciplina: que mudan\u00e7a pode ser exigida dele?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Surge aqui um tema que ter\u00e1 um desenvolvimento decisivo na vida de Dom Bosco, antes de tudo em n\u00edvel de estilo de a\u00e7\u00e3o e, em certa medida, tamb\u00e9m em n\u00edvel de reflex\u00e3o te\u00f3rica. Trata-se da orienta\u00e7\u00e3o que leva Dom Bosco a <em>excluir categoricamente um sistema educativo baseado na repress\u00e3o e no castigo<\/em>, para escolher com convic\u00e7\u00e3o um m\u00e9todo que se baseia todo na caridade e que Dom Bosco chamar\u00e1 de \u201csistema preventivo\u201d. Al\u00e9m das diversas implica\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas que derivam dessa escolha, para as quais remetemos \u00e0 rica bibliografia espec\u00edfica, interessa aqui destacar a dimens\u00e3o teol\u00f3gico-espiritual que subjaz a essa orienta\u00e7\u00e3o, da qual as palavras do sonho constituem, de algum modo, a intui\u00e7\u00e3o e o gatilho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao se colocar do lado do bem e da \u201clei\u201d, o educador pode ser tentado a definir sua a\u00e7\u00e3o com os meninos de acordo com uma l\u00f3gica que visa a reinar a ordem e a disciplina essencialmente por meio de regras e normas. No entanto, at\u00e9 mesmo a lei traz em si uma ambiguidade que a torna insuficiente para guiar a liberdade, n\u00e3o s\u00f3 por causa dos limites que toda regra humana traz em si, mas por causa de um limite que \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, de ordem teol\u00f3gica. Toda a reflex\u00e3o paulina \u00e9 uma grande medita\u00e7\u00e3o sobre esse tema, pois Paulo havia percebido em sua experi\u00eancia pessoal que a lei n\u00e3o o havia impedido de ser \u201cblasfemo, perseguidor e violento\u201d (<em>1Tm <\/em>1,13). A pr\u00f3pria Lei dada por Deus, ensina a Escritura, n\u00e3o \u00e9 suficiente para salvar o homem, a menos que haja outro Princ\u00edpio pessoal que a integre e internalize no cora\u00e7\u00e3o humano. Paul Beauchamp resume com alegria essa din\u00e2mica quando afirma: \u201cA Lei \u00e9 precedida por um <em>\u00c9s amado <\/em>e seguida por um <em>Amar\u00e1s<\/em>. <em>\u00c9s amado: <\/em>fundamento da Lei, e <em>Amar\u00e1s<\/em>: sua supera\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_edn6\" id=\"_ednref6\"><sup>[vi]<\/sup><\/a> Sem esse fundamento e sem essa supera\u00e7\u00e3o, a lei traz em si os sinais de uma viol\u00eancia que revela sua inadequa\u00e7\u00e3o para gerar o bem que, no entanto, ela ordena que se cumpra. Voltando \u00e0 cena do sonho, os socos e pancadas que Jo\u00e3o d\u00e1 em nome do mandamento sacrossanto de Deus, que pro\u00edbe a blasf\u00eamia, revelam <em>a insufici\u00eancia e a ambiguidade de qualquer impulso moralizador que n\u00e3o seja interiormente reformado do alto<\/em>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que Jo\u00e3o e aqueles que aprender\u00e3o com ele a espiritualidade preventiva se convertam a uma <em>l\u00f3gica educacional sem precedentes, que vai al\u00e9m do regime da lei<\/em>. Esta l\u00f3gica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as ao Esp\u00edrito do Ressuscitado, derramado em nossos cora\u00e7\u00f5es. Somente o Esp\u00edrito, de fato, torna poss\u00edvel passar de uma justi\u00e7a formal e exterior (seja a cl\u00e1ssica da \u201cdisciplina\u201d e da \u201cboa conduta\u201d, seja a moderna dos \u201cprocedimentos\u201d e dos \u201cobjetivos alcan\u00e7ados\u201d) a uma verdadeira santidade interior, que realiza o bem porque \u00e9 atra\u00edda e conquistada interiormente. Dom Bosco demonstrou ter essa consci\u00eancia quando, no seu escrito sobre o <em>Sistema Preventivo, <\/em>declarou claramente que tudo se baseava nas palavras de S\u00e3o Paulo: \u201c<em>Charitas benigna est, patiens est; omnia suffert, omnia sperat, omnia sustinet<\/em>\u201d <em>[a caridade \u00e9 benigna, \u00e9 paciente; tudo sofre, tudo espera, tudo suporta]<\/em>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 claro que \u201cganhar\u201d os jovens dessa forma \u00e9 uma tarefa muito exigente. Implica n\u00e3o ceder \u00e0 frieza de uma educa\u00e7\u00e3o baseada apenas em regras, nem \u00e0 leni\u00eancia de uma proposta que renuncia a denunciar a \u201cfeiura do pecado\u201d e a apresentar a \u201cpreciosidade da virtude\u201d. Conquistar para o bem simplesmente mostrando o poder da verdade e do amor, testemunhado por meio da dedica\u00e7\u00e3o \u201cat\u00e9 o \u00faltimo suspiro\u201d, \u00e9 a figura de um m\u00e9todo educacional que \u00e9, ao mesmo tempo, uma verdadeira espiritualidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o \u00e9 de se admirar que Jo\u00e3o, no sonho, resista a entrar nesse movimento e pe\u00e7a para entender bem quem \u00e9 que o transmite. Quando ele tiver entendido, por\u00e9m, fazendo daquela mensagem primeiro uma institui\u00e7\u00e3o oratoriana e depois tamb\u00e9m uma fam\u00edlia religiosa, ele pensar\u00e1 que contar o sonho em que aprendeu aquela li\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a maneira mais bela de compartilhar com os seus filhos o significado mais aut\u00eantico de sua experi\u00eancia. Foi Deus quem guiou tudo, foi Ele mesmo quem imprimiu o movimento inicial do que viria a ser o carisma salesiano.<br><br><br><em>P. Andr\u00e9 Bozzolo, sdb, Reitor da Universidade Pontif\u00edcia Salesiana<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" id=\"_edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a> A. LACOCQUE. La r\u00e9v\u00e9lation des r\u00e9v\u00e9lations: Exode 3,14, em P. RICOEUR &#8211; A. LACOCQUE. Penser la Bible. Seuil, Paris 1998, 305.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref2\" id=\"_edn2\"><sup>[ii]<\/sup><\/a> A. BERTULETTI. <em>Dio, il mistero dell\u2019unico [Deus, o mist\u00e9rio do uno]<\/em>. Queriniana, Brescia 2014, 354.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref3\" id=\"_edn3\"><sup>[iii]<\/sup><\/a><em> Const. <\/em>Art. 8.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref4\" id=\"_edn4\"><sup>[iv]<\/sup><\/a><em> Const. <\/em>Art. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref5\" id=\"_edn5\"><sup>[v]<\/sup><\/a> E. VIGAN\u00d2. <em>Maria renova a Fam\u00edlia Salesiana de Dom Bosco<\/em>, ACG 289 (1978) 1-23, 15.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref6\" id=\"_edn6\"><sup>[vi]<\/sup><\/a> P. BEAUCHAMP. <em>La legge di Dio [A lei de <\/em><em>Deus]. <\/em>Piemme, Casale Monferrato 2000, 116.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um coment\u00e1rio sobre os temas teol\u00f3gico-espirituais presentes no sonho dos nove anos poderia ter&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":26231,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":54,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[2561,2557,2577,1827,1887,1701,2228,2230],"class_list":["post-26237","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sonhos-de-dom-bosco","tag-carisma-salesiano","tag-deus","tag-dom-bosco","tag-gracas-obtidas","tag-milagres","tag-providencia","tag-santos","tag-sonhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26237","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26237"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26237\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}