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O Rosário representa o coração espiritual das aparições de Lurdes. Entre fevereiro e julho de 1858, Nossa Senhora apareceu dezoito vezes à jovem Bernadete Soubirous, sempre segurando o terço do Rosário em suas mãos. Esses encontros celestiais não foram casuais em seu número e sequência: as aparições parecem seguir uma estrutura profundamente ligada aos mistérios do Rosário. Após três aparições introdutórias que remetem à Santíssima Trindade, seguem-se quinze aparições que correspondem aos cinco mistérios gozosos, aos cinco dolorosos e aos cinco gloriosos. Através desta extraordinária correspondência, a Virgem Maria teria querido ensinar a Bernadete – e a todos nós – o modo autêntico de rezar o Rosário, meditando os mistérios da salvação.
A Bem-aventurada Virgem Maria, a «Imaculada Conceição», apareceu 18 vezes a Bernadete em Lurdes, de 11 de fevereiro a 16 de julho de 1858. Entre os dedos ou pendurado no braço, ela sempre tinha o terço do Rosário.
Nascida em 1844, Bernadete tinha 14 anos na época das aparições, mas parecia ter apenas 11 ou 12. Antes de 11 de fevereiro, Bernadete já rezava o Rosário, mas não conhecia os 15 mistérios. Além disso, ignorava o mistério da Santíssima Trindade.
Quando Nossa Senhora lhe apareceu pela primeira vez em 11 de fevereiro de 1858, Bernadete, cheia de espanto e temor, pegou seu Rosário para começar a reza com o sinal da cruz. Impossível! Só conseguiu quando a Aparição fez o sinal da cruz com o seu Rosário. Com este fato surpreendente, parece que Nossa Senhora quis ensinar a Bernadete o modo de rezar o Rosário.
As 18 aparições ocorreram na Quaresma, tempo de conversão, exceto as duas primeiras e as duas últimas, e podem ser divididas assim: 3 mais 15. As 3 primeiras parecem remeter ao mistério da Santíssima Trindade (com as 3 virtudes teologais). No final da terceira aparição, a Virgem perguntou à menina: «Quereis fazer-me o favor de vir aqui por quinze dias?». Ora, este número 15 referente às aparições parece ser possível relacioná-lo com os 15 mistérios do Rosário: 5 gozosos, 5 dolorosos e 5 gloriosos. Eis a série das aparições com as possíveis correspondências entre os mistérios do Rosário e os eventos na gruta:
Introdução trinitária
1ª — 11 de fevereiro: o Pai (fé) – sinal da cruz
2ª — 14 de fevereiro: o Filho (esperança) – água benta
3ª — 18 de fevereiro: o Espírito (caridade) – Eu vos prometo…
Mistérios gozosos
4ª — 19 de fevereiro: Anunciação – saudações e sorrisos
5ª — 20 de fevereiro: Visitação – saudações e sorrisos
6ª — 21 de fevereiro: Natividade – êxtase silencioso
7ª — 23 de fevereiro: Apresentação – alegria e tristeza
8ª — 24 de fevereiro: Jesus perdido – Penitência! Rezai!
Mistérios dolorosos
9ª — 25 de fevereiro: Agonia – Beber água suja! Comer erva!
10ª — 27 de fevereiro: Flagelação – gestos penitenciais
11ª — 28 de fevereiro: Coroação de espinhos – gestos penitenciais
12ª — 1º de março: Via Sacra – subida de joelhos
13ª — 2 de março: Morte de Jesus – Procissão e capela!
Mistérios gloriosos
14ª — 3 de março: Ressurreição – encontra a Senhora que já a espera
15ª — 4 de março: Ascensão – rosto transfigurado
16ª — 25 de março: Pentecostes – Eu sou a Imaculada Conceição!
17ª — 7 de abril: Assunção de Maria – a capela!
18ª — 16 de julho: Coroação de Maria – nunca tão bela!
Nesta proposta, seguimos o estudo do especialista P. René Laurentin (Les apparitions de Lourdes. Récit authentique [As aparições de Lurdes. Relato autênrico], 1979). O autor não achou oportuno retomar algumas tentativas anteriores sobre as correspondências entre as aparições e os 15 mistérios. A nós, no entanto, pareceu possível descobrir algumas dessas correspondências. Nossa Senhora teria querido ensinar a Bernadete a rezar o Rosário meditando o mistério da Santíssima Trindade e os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. Boa oração do Rosário com Bernadete de Lourdes!
INTRODUÇÃO TRINITÁRIA
Inicia-se a reza do Rosário com o sinal da cruz, dizendo: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Segue-se o Creio, Pai Nosso, 3 Ave-Marias em honra da Santíssima Trindade e o Glória.
1ª aparição: 11 de fevereiro, quinta-feira antes das Cinzas – MARIA, FILHA DO PAI
Bernadete ouve um ruído como um sopro de vento. Mas nada se move. Outro ruído idêntico: um arbusto de espinheiro (também chamado de rosa selvagem ou «roseira») agita-se numa espécie de nicho no alto à direita da gruta de Massabielle. Uma luz ilumina este nicho escuro e, nesse halo luminoso, aparece uma senhora maravilhosa, ou melhor, uma senhorita, de tão jovem que parecia, que sorri, abre os braços inclinando-se com um gesto de acolhimento que parece dizer: “Aproximai-vos”.
Bernadete pega seu Rosário e levanta o braço para fazer o sinal da cruz com o crucifixo. Impossível! A aparição também tem em mãos um Rosário branco com um grande crucifixo luminoso que ela levanta até a testa. Imitando tal gesto, o braço de Bernadete se levanta e faz, por sua vez, um grande sinal da cruz. Depois, põe-se de joelhos. Desfiando o Rosário, ela olha o máximo que pode. A aparição faz deslizar as contas entre os dedos, mas não move os lábios. Terminada a reza, desaparece de repente num rastro luminoso.
2ª aparição: 14 de fevereiro, domingo antes das Cinzas – MARIA, MÃE DO FILHO
Após a missa solene, Bernadete obtém autorização para voltar à gruta com algumas companheiras, depois de se munir de água benta. Bernadete corre na frente. As companheiras a encontram ajoelhada, toda recolhida com o Rosário na mão. Ao final da segunda dezena, ela tem um sobressalto. Eis a luz! Ei-la! Com o Rosário deslocado para o braço direito, a Senhora olha para o pequeno grupo de companheiras fazendo gestos de saudação e sorrisos.
Bernadete joga-lhe água benta para saber se a Senhora vem da parte de Deus ou não. Quanto mais a asperge, mais a Senhora sorri, inclinando a cabeça.
De repente, uma grande pedra lançada por uma companheira irritada desce da montanha e cai ao seu lado em pedaços, semeando o pânico entre as que a acompanhavam. Enquanto Bernadete permanece absorta em sua visão, tentam afastá-la à força da gruta. Seu rosto está molhado de lágrimas, mas ela continua a sorrir. O êxtase só cessa quando a fazem entrar na casa mais próxima.
3ª aparição: 18 de fevereiro, quinta-feira depois das Cinzas – MARIA, ESPOSA DO ESPÍRITO
De manhã cedo, após a primeira missa, acompanhada por duas senhoras, Bernadete volta à gruta e se ajoelha diante do nicho. Assim que a reza do Rosário começa, a Senhora envolta em luz está lá! Bernadete desfia seu Rosário junto com a Senhora. Depois, solicitada por suas acompanhantes, Bernadete se levanta e se aproxima da Senhora para perguntar-lhe o que ela quer e que o coloque por escrito.
De repente, ela para, perplexa, depois vira à esquerda e sobe a encosta sob a cavidade interna da rocha. É ali que ela revê a Senhora, tão perto que poderia tocá-la. Ela se ergue e, estendendo os braços, entrega à Senhora caneta e papel, dizendo-lhe: «Teria a bondade de escrever o seu nome?». A Senhora sorri docemente e, sorrindo, diz-lhe: «Não é necessário».
E acrescenta, desta vez muito séria: «Quereis fazer-me o favor de vir aqui por quinze dias?». Em resposta, Bernadete promete de todo o coração. A esta promessa responde outra promessa: «Prometo-vos fazer-vos feliz não neste mundo, mas no outro».
MISTÉRIOS GOZOSOS
A nota dominante dos 5 mistérios gozosos e das aparições correspondentes é a alegria. As aparições são pontuadas por sorrisos e saudações. Após a 6ª aparição, ela sofre a primeira grande provação: o comissário de polícia a ameaça (pode-se pensar nas ameaças de Herodes). Durante a 8ª aparição (Jesus perdido e procurado por três dias com angústia), Bernadete corre do nicho para a gruta e da gruta para o nicho como se procurasse algo ou alguém; é convidada a realizar os primeiros gestos penitenciais que caracterizarão os 5 mistérios seguintes. Estas 5 aparições ocorrem da sexta-feira depois das Cinzas até a quarta-feira da 1ª semana da Quaresma. A segunda-feira, 22 de fevereiro, é um dia sem aparição.
4ª aparição: 19 de fevereiro, sexta-feira depois das Cinzas – A ANUNCIAÇÃO
Por volta das 6 da manhã, Bernadete desce à gruta. Põe-se de joelhos e começa a rezar o Rosário. A tia Bernarda, sua madrinha, acende uma vela benta e a coloca em sua mão direita.
Mal pronunciou três Ave-Marias e seu rosto muda. Ela sorri e saúda com as mãos e a cabeça. É um prazer vê-la saudar, como se durante toda a sua vida não tivesse feito outra coisa senão aprender a fazer saudações. A visão sorri em silêncio.
O rosto pálido de Bernadete e a fixidez de seu olhar nunca inspiram medo. Sua madrinha, muito emotiva, temendo perder sua afilhada, derrama lágrimas quentes. Ela a aperta contra o corpo, emitindo um grito.
O encanto é quebrado. O rosto de Bernadete retoma sua cor. Ela desperta muito calma deste mundo desconhecido. O retorno para casa é sereno e recolhido.
5ª aparição: 20 de fevereiro, sábado depois das Cinzas – A VISITAÇÃO
Bernadete parte em direção à gruta depois das 6 da manhã. Quando chega, põe-se de joelhos com seu Rosário, olhando de vez em quando para o nicho.
Após um quarto de hora, volta a olhar para o nicho. Agora ela a vê. A Senhora sorri e a saúda. Bernadete também sorri, saúda e suas pálpebras não se fecham, mesmo quando inclina a cabeça para fazer as saudações.
Um quarto de hora mais tarde, uma última saudação, com um véu de tristeza no rosto enquanto as pálpebras se movem novamente. Bernadete se levanta. A visão terminou.
6ª aparição: 21 de fevereiro, 1º domingo da Quaresma – A NATIVIDADE
Bernadete caminha em direção à gruta antes das 6 da manhã. Como sempre, ajoelha-se, acende uma vela, pega seu Rosário, faz o sinal da cruz e começa a rezá-lo, inclinando-se em sinal de saudação.
Naquela manhã, uma centena de pessoas contempla o êxtase silencioso de Bernadete. E voltam para casa contentes.
À noite, ela é interrogada pela primeira vez pelo comissário de polícia, que a ameaça prendê-la e a proíbe de ir à gruta.
7ª aparição: 23 de fevereiro, terça-feira da 1ª semana da Quaresma – A APRESENTAÇÃO
Pouco depois das 6 da manhã, Bernadete chega à gruta. Ajoelha-se e começa a rezar o Rosário. Chegando ao final da primeira dezena do Rosário, ocorre uma mudança. O movimento dos dedos da mão se interrompe. Depois retoma, mas de maneira menos regular. A alegria parece prender-lhe a respiração e bloquear seu modo de rezar. Sorrisos, saudações, grandes sinais da cruz interrompem a reza do Rosário.
A certa altura, parece ter início uma espécie de diálogo. Bernadete escuta, maravilha-se, acena com a cabeça que sim e depois que não. Às vezes fica triste, depois ri de maneira franca e alegre.
A Senhora lhe confidenciou um primeiro segredo? É mais provável que se trate de uma oração secreta, «somente para ela», que mais tarde Bernadete rezará todos os dias de sua vida.
O coletor de impostos, a princípio cético, é logo conquistado. Outras testemunhas, no entanto, querem verificar os fatos. Uma companheira de Bernadete a belisca, depois lhe espeta um alfinete no ombro: nenhuma reação! A vela escapa da mão da vidente e queima-lhe os dedos: nenhum mal!
Últimas reverências e últimos sorrisos: são quase 7 horas quando Bernadete retorna a Lurdes. Na cidade, há os entusiastas, os fervorosos, aqueles que esperam antes de se pronunciar, e os livres-pensadores que veem nisso apenas motivo de zombaria e escárnio.
8ª aparição: 24 de fevereiro, quarta-feira da 1ª semana da Quaresma – O ENCONTRO DE JESUS
De manhã cedo, Bernadete chega à gruta, ajoelha-se, acende sua vela e faz o sinal da cruz. As contas do Rosário deslizam suavemente entre seus dedos entrelaçados. Perto do final da primeira dezena, ela adentra sorridente em outro mundo.
Ao fim de cinco ou seis minutos, Bernadete não sorri mais. Levanta-se, parece triste, inquieta, até mesmo descontente. Seus olhos estão cheios de lágrimas e ela parece procurar alguém. Dirige-se para a gruta, olha para a direita e reencontra seu sorriso. Seus lábios se movem. Mas a conversa parece velar-se de tristeza. Ela retorna ao lugar onde estava antes com os olhos cheios de lágrimas.
Chegando diante do nicho externo, a tristeza desaparece de seu rosto, que «se ilumina com suaves sorrisos».
Bernadete vai e vem do nicho externo para a cavidade interna; em seu rosto alternam-se alegria e tristeza. Ela ouve a Senhora pronunciar uma nova palavra: «Penitência». E acrescentar: «Rezai a Deus pela conversão dos pecadores».
Então, ela lhe pede para subir de joelhos e beijar a terra em sinal de penitência pelos pecadores. O rosto da Senhora estava triste. Bernadete responde que sim. A aparição lhe pergunta «se isso a incomodaria». «Oh! não!», responde Bernadete com todo o coração.
Imediatamente, ela avança de joelhos, depois inclina o rosto para a frente. Em seguida, quer recomeçar, mas, interrompida pelo grito de sua tia, retorna a este mundo. A aparição desapareceu.
Bernadete se sente disposta a tudo para agradar a esta amiga celestial, tão triste ao falar-lhe de pecadores, mas que lhe confidenciou um novo segredo ou uma oração secreta. Na cidade, enquanto os faladores encontram o que criticar, outros levam a sério o conselho da Senhora ou aprofundam seu fervor.
MISTÉRIOS DOLOROSOS
A dimensão penitencial caracteriza os 5 mistérios dolorosos e as aparições correspondentes. Bernadette se submete a algumas penitências: caminhar de joelhos, beijar a terra, beber água barrenta e comer ervas selvagens. Os êxtases praticamente desapareceram; raramente ela revela grande alegria e ri. Durante a 9ª aparição (correspondente à agonia de Jesus), por três vezes ela tenta beber a água barrenta sem conseguir. Bernadette é considerada louca. Sofre interrogatórios duríssimos. Estas 5 aparições ocorrem da quinta-feira da 1ª semana à terça-feira da 2ª semana da Quaresma. A sexta-feira, 26 de fevereiro, é um dia sem aparição. A 13ª aparição anuncia os mistérios gloriosos com os dois pedidos da Aparição: vir em procissão à gruta e construir uma capela.
9ª aparição: 25 de fevereiro, quinta-feira da 1ª semana da Quaresma – A AGONIA
Chegando à gruta por volta das cinco e meia da manhã, Bernadette se ajoelha e pega seu Rosário. Levanta os olhos para o nicho, depois os abaixa e, com a cruz do Rosário entre os dedos, os levanta novamente para a rocha. Recita seu Rosário em voz baixa. Nada de extraordinário.
Mas eis que ela tira seu véu branco, entrega sua vela à tia e começa a subir de joelhos a encosta que leva ao fundo da gruta. De vez em quando, beija a terra. Ouve-se ela murmurar três vezes uma palavra: «Penitência, penitência, penitência!». Chegando à abertura da gruta, ela para, levanta-se e olha ao redor. A Senhora lhe diz: «Vá beber na fonte e se lavar». E acrescenta: «Comerá também a erva que está ali». Tudo isso é «pelos pecadores», explica-lhe a Senhora com um ar triste.
Bernadette volta de joelhos para onde estava antes, depois se dirige ao rio Gave, mas algo a detém. Ela volta, olha para o nicho, levanta-se, retorna para debaixo da abóbada em busca de algo que não vê. Desce novamente em direção ao Gave, mas de novo algo a detém. Volta para debaixo da abóbada, observando com repulsa o solo lamacento. Então, de repente, curva-se sobre o chão, raspa a terra, pega aquela lama, leva-a ao rosto e a joga fora, enojada.
Começa a raspar uma segunda vez e novamente joga fora aquela lama com repulsa.
Repete os mesmos gestos uma terceira vez.
Finalmente, arrisca uma quarta vez, raspa; um pouco de água sobe na concha de sua mão e ela a bebe com dificuldade. Pega-a novamente e desta vez para lambuzar o rosto.
Ao redor do buraco que cavou, há uma encosta coberta de ervas selvagens. Ela come um pouco e volta para onde estava antes, e recomeça a rezar. Não conseguiu fazer o último sinal da cruz antes que a Senhora o fizesse. Depois de dois ou três minutos, ela se levanta e volta para a cidade.
À noite, Bernadette é convocada pelo procurador imperial, que a interroga, ameaçando-a prendê-la. Ela conta os fatos como aconteceram, mas o procurador os deforma intencionalmente. Manda chamar o comissário de polícia, que, no entanto, não chega. O caso é adiado «para o dia seguinte».
10ª aparição: 27 de fevereiro, sábado da 1ª semana da Quaresma – A FLAGELAÇÃO
Às 7 da manhã, Bernadette chega à gruta e se ajoelha. Após as saudações e sorrisos iniciais, ela fica triste a ponto de se tornar irreconhecível.
Ela se levanta, depois se ajoelha novamente, avança de joelhos beijando a terra, sobe a encosta sob a cavidade, desce e sobe novamente. Desta vez, inclina-se no meio de um tufo de erva e leva aos lábios a água barrenta.
Ela suja o rosto de tal forma que fica desfigurada e repugnante.
O diretor da escola superior de Lurdes desvia o olhar, arrepiado. Tudo isso não faz sentido – pensa ele –, é um caso clínico.
11ª aparição: 28 de fevereiro, 2º domingo da Quaresma – A COROAÇÃO DE ESPINHOS
Pela manhã, a multidão encontra Bernadette na gruta, ajoelhada com sua vela.
Ela realiza gestos penitenciais semelhantes aos dos dias anteriores. A aparição dura bastante tempo.
A multidão também adquiriu o hábito de beijar a terra, tanto durante quanto após a aparição. Um pouco mais numerosa que ontem, as pessoas vão à fonte, cujo fluxo aumenta.
Ao sair da missa solene, Bernadette é levada novamente ao juiz de instrução, que ameaça prendê-la.
O diretor da escola superior de Lurdes a interroga sobre os estranhos exercícios realizados ontem. Bernadette responde: «A Visão me ordenou como penitência, primeiro para mim e depois para os outros».
12ª aparição: 1º de março, segunda-feira da 2ª semana da Quaresma – A VIA SACRA
Chegando à gruta, Bernadette começa a rezar o Rosário. Mas eis que sua alma é arrebatada. Alegria e tristeza se sucedem em seu rosto.
Depois, retoma sua marcha de joelhos e renova os exercícios penitenciais. Durante a subida de joelhos, ela para, coloca as mãos na cabeça com um gesto de tristeza indignada. Seria porque algumas pessoas arrancaram galhos do roseiral, ou simplesmente porque a multidão a impedia de avançar?
Chegando à fonte, bebe a água barrenta sem pegá-la com a mão. Suja o rosto com ela, vira-se e olha para o nicho interno.
Depois disso, pegando novamente um terço, fica triste, guarda-o no bolso e tira outro. De fato, a Senhora lhe aparecera contrariada e lhe fizera um sinal. Ela volta a rezar, desta vez usando o terço que era seu.
Bernadete não encontra paz com as pessoas, que correm atrás dela. A multidão oscila entre a rejeição e a adoração.
13ª aparição: 2 de março, terça-feira da 2ª semana da Quaresma – A MORTE DE JESUS
Bernadette chega à gruta às 7 da manhã. Ali, realiza os exercícios habituais: caminha de joelhos, beija a terra, bebe na fonte.
Um diálogo ocorre sob a cavidade interna. Bernadete ri, depois fica séria. Desta vez, ela é encarregada pela Senhora de uma missão bem precisa: «Direis aos padres para virem aqui em procissão e construírem uma capela». Supõe-se também que ela tenha recebido um segredo.
Acompanhada por suas tias, ela vai até o senhor pároco para pedir-lhe que faça a procissão. «Não posso fazer uma procissão para uma Senhora sem nome» é a resposta do pároco, que, irritado, a manda para casa, acusando-a de contar mentiras. Na confusão, ela se esqueceu de falar da capela.
À noite, ela volta ao pároco com uma amiga para pedir-lhe a capela. Mas ele a repreende: «Você continua sem saber o nome dessa Senhora!».
MISTÉRIOS GLORIOSOS
As últimas aparições são todas orientadas para a construção do futuro santuário, a “capela” pedida pela Senhora. Três aparições ainda ocorrem na Quaresma. A 15ª, que corresponde ao mistério da Ascensão, acontece numa quinta-feira. A Senhora revela sua identidade na 16ª aparição, em 25 de março, festa da Anunciação (mistério de Pentecostes). A 17ª aparição ocorre na quarta-feira depois da Páscoa. A 18ª e última aparição acontece em julho, na festa de Nossa Senhora do Carmo.
14ª aparição: 3 de março, quarta-feira da 2ª semana da Quaresma – A RESSURREIÇÃO
Bernadette chega à gruta às 7 da manhã com sua mãe e sua tia. Há tanta gente que sua vela se quebra. Ela é forçada a ficar de pé por falta de espaço. Reza-se o Rosário à espera do sorriso que anuncia o êxtase. Nada… Nada além de uma tristeza crescente à medida que a reza do Rosário avança. Bernadete enxuga os olhos cheios de lágrimas, junto com sua mãe, que também chora. Naquela manhã, Bernadete não viu nada.
Depois da escola, ela se sente interiormente atraída para a gruta. Volta para lá com a tia, que arranjou uma vela. Ao chegar, encontra a Senhora ali, sorrindo, à sua espera. Bernadette pergunta qual é o seu nome, mas a Senhora apenas sorri. Ela quer a capela.
Bernadete se apresenta novamente ao pároco de Lurdes para pedir-lhe a capela. «Se ela quer a capela – responde o pároco –, que a Senhora diga o próprio nome e faça florescer o roseiral da gruta!».
15ª aparição: 4 de março, quinta-feira da 2ª semana da Quaresma – A ASCENSÃO
Por volta das 7 da manhã, Bernadete se ajoelha no lugar de sempre. Acende a vela. Faz o sinal da cruz e começa a rezar o Rosário, fazendo um sinal para que as pessoas rezem com ela. Na terceira Ave-Maria da segunda dezena, um sorriso aparece em seu rosto. O mundo exterior, para Bernadete, desapareceu.
O tempo passa suavemente, em uma contínua repetição de alegria e exultação. Bernadette continua a rezar lentamente o Rosário, interrompido por sorrisos e saudações. No final, ela leva à testa os três dedos com os quais segura a cruz, mas só na terceira tentativa consegue fazer o sinal da cruz.
Ao fim de meia hora, ela se levanta e entra na gruta. Com o rosto iluminado de alegria, ela saúda e, no espaço de dois minutos, dá até 18 sorrisos. O rosto então se torna sério e triste por três minutos, depois se ilumina novamente. Ela saúda duas ou três vezes e volta ao seu lugar habitual. Ajoelha-se e recomeça a rezar o Rosário.
Sobe novamente para debaixo da cavidade interna, mas desta vez fica desapontada. Parece estar à espera por no máximo dois minutos, parece contrariada, desce novamente, olha na direção do nicho, faz um sinal da cruz, recolhe-se por um instante, levanta-se. Terminada a reza do Rosário, a visão desapareceu. Ela apaga sua vela e, sem dizer uma palavra, retoma seu caminho para Lurdes.
Depois do almoço, volta ao pároco e diz: «Perguntei à Senhora o seu nome e ela sorriu. Pedi-lhe para fazer florescer o roseiral, e ela sorriu de novo. Mas ela ainda quer a capela».
16ª aparição: 25 de março, quinta-feira da 6ª semana da Quaresma – PENTECOSTES
Por volta das 5 da manhã, Bernadete chega à gruta; a Senhora já está lá, esperando por ela. Começa a rezar o Rosário. O rosto da vidente se ilumina com um sorriso. Mas, ao final da reza do Rosário, ela parece desapontada, hesitante. Seu rosto parece tenso. Finalmente, avança para o interior da gruta. A Senhora lhe faz um sinal e Bernadete se aproxima. Desta vez, ela ousa perguntar-lhe: «Senhorita, pode ter a bondade de dizer quem é, por favor?». A radiante Senhorita sorri… Bernadete repete a pergunta: a Senhorita esboça um sorriso ainda mais belo, sorri. Bernadete lhe suplica uma terceira vez: sempre silêncio. Na quarta tentativa, a Senhorita não ri mais. Passa o Rosário para o braço direito. Abaixa as mãos separadas em direção ao chão. Depois, levanta os olhos para o céu e diz: «Eu sou a Imaculada Conceição».
Faz quase uma hora que a aparição começou. O rosto de Bernadette volta à sua cor habitual. Ela se levanta, cheia de alegria e gratidão.
Bernadette começa a correr para encontrar o pároco, repetindo em voz baixa as palavras que ouviu, temendo esquecê-las. Bate à porta e, quase cara a cara, lança ao seu reverendo pároco a missão recebida: «Que soy era Immaculada Councepciou».
O pároco tenta manter a compostura, mas em seu íntimo está abalado. «Ela continua querendo a capela», murmura Bernadete durante um momento de silêncio. Depois, o pároco a manda para casa.
17ª aparição: 7 de abril, quarta-feira depois da Páscoa – A ASSUNÇÃO
Bernadete chega à gruta às 5 da manhã e se posiciona a uns dez passos em frente ao nicho externo. Ajoelha-se e acende a vela. Começa a rezar com calma e fervor o seu Rosário, olhando para a frente com os olhos fixos.
Chegando à segunda dezena, ela saúda, sorri. Seu rosto está transfigurado. Continua a rezar o Rosário, mas de forma irregular. Em certos momentos, o arrebatamento a paralisa e ela não faz nada além de rir de alegria e continuar a saudar. De vez em quando, uma lágrima brilha antes de secar em suas bochechas. O Rosário terminou, mas ela permanece ali, extasiada.
Guardando o Rosário no bolso, Bernadete junta as mãos verticalmente ao longo da vela fincada no chão. A chama, agitada por uma corrente de ar que ameaça apagá-la, passa por entre os dedos de sua mão sem causar nenhuma queimadura. Ao seu lado, um médico, testemunha desse fato inexplicável, torna-se crente.
Depois, Bernadete pega a vela novamente como de costume. Levanta-se, saúda cortesmente em direção ao nicho, avança para debaixo da abóbada, onde a visão recomeça. Inicia-se um colóquio, Bernadete ora está triste, ora sorri. A Imaculada Conceição continua a querer uma capela. Bernadete lhe pede um milagre para convencer aqueles que não querem acreditar? Talvez fazer florescer o roseiral para o senhor Pároco? Ela recebeu um segredo, uma confidência? Não se sabe.
Alguns minutos depois, uma espécie de véu desce sobre seu rosto pálido. Ela saúda uma última vez e se levanta. O êxtase durou cerca de uma hora.
18ª aparição: 16 de julho, Nossa Senhora do Carmo – COROAÇÃO DE MARIA
Às oito da noite, Bernadete, sabendo que o acesso à gruta está impossibilitado por uma paliçada, dirige-se à margem direita do rio Gave. Ajoelha-se no prado. Olha para o outro lado do Gave, para a massa escura da gruta. Assim que começa a rezar o Rosário, suas mãos se separam e se abaixam em uma saudação de alegre surpresa. Ela sorri.
«Eu não via nem a paliçada nem o Gave – dirá mais tarde. Parecia-me estar na gruta e à mesma distância das outras vezes. Eu via apenas a Virgem Santa». Acrescentará que nunca a tinha visto tão bela.
Quanto tempo durou tudo isso? Naquela noite quente, a passagem do tempo é imponderável. As contas que deslizam entre seus dedos renovam com alegria o ímpeto das Ave-Marias.
Ela se levanta. Fim! É a última vez, nesta terra, que Bernadete viu a Santa Virgem. Ela retoma com coragem sua vida ordinária, seu caminho de fé, sem outro compromisso senão o da fidelidade no cotidiano.

