18 Fev 2026, Qua

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No coração dos Pirineus franceses, em Lourdes, no dia 11 de fevereiro de 1858, abre-se uma das páginas mais luminosas da piedade mariana contemporânea. Uma jovem pobre e simples, Bernardete Soubirous, é protagonista de um evento que ultrapassa toda previsão humana: a aparição da Virgem Maria, que se revela com as palavras «Eu sou a Imaculada Conceição». A narrativa que segue, baseada na história do senhor Henrique Lasserre, percorre as aparições, os milagres e os acontecimentos que se seguiram, entre entusiasmo popular, oposição governamental e prudência eclesiástica. Lourdes torna-se assim um sinal vivo da misericórdia de Deus, testemunho da verdade da fé e um chamado urgente à penitência, em um tempo marcado pelo ceticismo e hostilidade ao sobrenatural.

I. As aparições
II. Bernardete
III. O governo
IV. O povo
V. A igreja
VI. Os milagres
VII. Os adversários derrotados
Conclusão. Pastoral do Bispo de Tarbes, sobre as aparições ocorridas na gruta de Lourdes.
A aparição de Lourdes
Apêndice. Graças obtidas por meio de Maria Auxiliadora

Eu sou a Imaculada Conceição.

As glórias da santíssima Virgem Maria, sempre muito queridas ao coração de seus devotos, que em suas dores e prosperidades reconhecem nela preciosos dons de conforto e proteção, brilham com novos triunfos quando agrada ao Senhor manifestar com novos prodígios o patrocínio poderosíssimo que confiou à sua Mãe Imaculada sobre a Santa Igreja.
Então a misericórdia de Deus, enquanto fortalece a piedade dos devotos de Maria e enche seus corações de doces consolações, conquista muitas almas e multiplica a fé.
Às vezes pode-se dizer que ao mundo desviado por doutrinas ímpias e aos povos enganados por ensinamentos perversos, arrastados à incredulidade por doutores muitas vezes poderosos pelo apoio dos governos, o Senhor quer trazer novas ajudas e manifestar cada vez mais sua Providência de modo sensível para o triunfo da fé.
Esse pensamento nos vem ao meditar sobre as manifestações e os prodígios ocorridos nos últimos anos em Lourdes. Vemos nelas um caráter de evidência e clareza muito particular, embora os fatos maravilhosos tenham ocorrido em meio e diante dos olhos de todo um povo; tiveram poderosos contrastes, que depois, contra as intenções dos opositores, dissiparam toda dúvida ou incerteza, e levaram ao triunfo da verdade.
Gritava-se: fora o sobrenatural; dissipemos as alucinações; desmascaremos os enganos. Mas triunfava o sobrenatural, as supostas alucinações se esclareciam em verdades esplêndidas, e os enganos apareciam do lado de quem teimava em negar e contrariar a evidência.
Então, a Lourdes!
Vamos admirar o novo triunfo da Virgem Santíssima e um esplêndido triunfo da fé católica.
Este é o objetivo da narrativa, que empreendemos de forma resumida, das aparições e dos prodígios de Nossa Senhora de Lourdes com base na história publicada detalhadamente pelo senhor Henrique Lasserre e traduzida para o italiano.
Desejamos incentivar nossos leitores a ler esse livro, que os deixará plenamente satisfeitos. Enquanto isso, nos empenharemos em dar uma notícia precisa dos fatos principais e em dar a conhecer suficientemente Nossa Senhora de Lourdes.

I. As aparições
      A pequena cidade de Lourdes, no departamento dos Altos Pirineus, conta com quatro ou cinco mil habitantes; está situada na saída dos sete vales do Lavedan e no encontro das vias que conduzem às renomadas estações termais de Barèges, Saint-Sauveur, Cauterets, Bagnères-de-Bigorre, Luchon, Luz, Eaux-Bonnes.
Lá morava Francisco Soubirous com a esposa e quatro filhos. A mais velha, Bernardete, de 14 anos, foi escolhida pela santíssima Virgem como sua mensageira, e obteve o insigne favor de contemplá-la várias vezes.
No dia 11 de fevereiro de 1858, Bernardete, como era conhecida no vilarejo, enquanto estava com sua irmã mais nova, chamada Maria, e com outra menina, chamada Joana Abadie, recolhendo lenha seca para o pobre fogão doméstico, viu de repente aparecer diante de uma gruta, cercada pelo extraordinário esplendor de luz viva, uma belíssima senhora; e pôde contemplá-la por cerca de quinze minutos. Depois teve o mesmo favor outras dezessete vezes.
A aparência daquela pessoa sublime não tinha nada de incerto ou etéreo, nem de forma alguma fantasiosa, mas mostrava uma viva realidade, um corpo humano, que o olho julgava palpável como um ser humano, e que tinha apenas essa particularidade, que mostrava uma amabilidade afetuosa e se cercava de luz viva.
Essa luz não ofuscava nem cegava os olhos como a do sol. Pelo contrário, aquela auréola luminosa, brilhante como um feixe de raios, atraía os olhares, que pareciam mergulhar nela e se deleitavam docemente.
De estatura mediana, parecia jovem com a graça dos vinte anos. Exalava candura de inocência e pureza virginal, ternura e gravidade materna, sabedoria e majestade.
Sua beleza escapava de qualquer descrição; o rosto mostrava uma forma oval graciosa, os olhos azuis-celestes suaves, de modo a comover o coração de quem a contemplava. Os lábios e a boca expressavam uma bondade divina.
As vestes de um tecido desconhecido eram brancas como a neve, e de grande magnificência. O vestido, longo e com cauda, deixava ver os pés, e sobre cada um deles uma rosa da cor do ouro.
Um cinto azul-celeste como o céu apertava sua cintura com meio nó, e pendia com duas pontas longas até os pés. Um amplo véu branco enrolado na cabeça cobria os ombros e a parte superior dos braços, descendo até a parte inferior da veste. Nenhum ornamento semelhante a joias, nem diadema. Das mãos juntas em ato de fervorosa oração pendia um rosário de contas brancas como leite, presas por um fio amarelo como ouro. As contas deslizavam uma após a outra entre seus dedos. Os lábios daquela Rainha permaneciam imóveis.
Essa aparição maravilhosa olhava para Bernardete; e ela, em seu primeiro espanto, instintivamente pegou seu rosário, e segurando-o entre os dedos, quis levar a mão à testa para fazer o sinal da cruz; mas tremia tanto que lhe faltou força para levantar o braço, que logo caiu impotente sobre os joelhos.
Nas aparições manifestaram-se algumas particularidades que vale a pena narrar.
Na terceira, ocorrida na quinta-feira, 18 de fevereiro, a misteriosa Senhora convidou Bernardete a voltar ao mesmo lugar por quinze dias; prometeu fazê-la feliz, não neste mundo, mas no outro; disse que desejava ver outras pessoas com Bernardete.
Outra vez o olhar da Senhora celeste pareceu se voltar para todos os lados, depois fixar-se com expressão de dor sobre Bernardete ajoelhada.
– O que tens? disse ela; o que deve ser feito?
– Rezar pelos pecadores, foi a resposta. A expressão dolorosa repercutiu em Bernardete, espalhando-lhe no rosto uma tristeza indescritível; de seus olhos sempre abertos e fixos na aparição saíram duas lágrimas, que pararam nas faces. Depois ela se acalmou, e seu rosto iluminou-se como por um raio de alegria.
A Virgem maravilhosa confidenciou três vezes três segredos a Bernardete, que lhe diziam respeito pessoalmente, e proibiu-a de revelá-los a quem quer que fosse. Mandou dizer aos padres que era sua vontade que naquele lugar fosse erguida uma capela, e que se fizessem procissões. Pronunciou também a palavra: Penitência! Penitência!
É digno de menção especial que no dia 25 de março, dedicado à Anunciação de Maria Santíssima, quando terminaram as quinze visitas de Bernardete à gruta, ela voltou lá novamente, movida por um impulso interior muito forte; então foi que a multidão, percebendo isso, a seguiu em grande número.
Bernardete já havia pedido várias vezes à Senhora celeste seu nome; então repetiu quatro vezes a pergunta, e insistiu ainda enquanto a aparição parecia desaparecer e assumir um aspecto cada vez mais sublime. Tinha as mãos juntas, o rosto brilhava de beatitude infinita. Exalava humildade na glória. Do mesmo modo que Bernardete contemplava a Senhora, esta sem dúvida estava imersa na contemplação da Divindade.
À última pergunta de Bernardete, abriu as mãos, deixando escorrer pelo braço direito o rosário das contas brancas e do fio dourado. Abriu os braços, inclinou-os para a terra, quase para mostrar as mãos virginais cheias de bênçãos. Depois, levantando-as para o céu, juntou-as com fervor; e olhando para o céu com semblante de indescritível gratidão, proferiu estas palavras:
Sou a Imaculada Conceição!
      Dito isso, desapareceu.
A pastora ouvia pela primeira vez essas palavras: Imaculada Conceição. E não as compreendendo, fez todo esforço ao voltar para Lourdes para bem recordá-las. Depois contou que, no caminho para falar com o pároco, repetia continuamente: Imaculada Conceição, Imaculada Conceição, porque queria levar as palavras da visão, para que fosse erguida a capela.
O fato mais notável, porque teve efeito permanente, ocorreu em 25 de fevereiro, quando a Virgem ordenou a Bernardete que bebesse e se lavasse na fonte; mas a um sinal que lhe foi feito, ela cavou a terra com a mão fazendo um buraco com a capacidade de um copo, que logo se encheu de água; inicialmente era turva e barrenta, depois tornou-se mais límpida e clara; depois aumentou até formar uma fonte do tamanho do braço de uma criança. Finalmente chegou a jorrar cem mil litros por dia.
Essa fonte foi origem de notáveis graças e milagres prodigiosos. Contaremos alguns; mas, para completar o relato, convém antes mostrar como as aparições foram julgadas pelo povo, pelo governo, pela Igreja, e como a verdade surgiu luminosa, triunfante, apesar, ou melhor, graças aos contrastes opostos pela incredulidade e pela rigorosa reserva de uma prudente sabedoria.

II. Bernardete
      Cândida, ingênua, modesta, como era antes das aparições, assim se manteve Bernardete mesmo quando foi alvo da admiração pública. Alheia a orgulho pueril, não se vangloriava dos favores celestes. Não falava deles a não ser quando interrogada; relatava sim aos pais o que lhe acontecia, e ao pároco o que devia lhe manifestar quando tinha alguma mensagem da Senhora celeste.
Mas, ainda assim, não se assustava quando era levada, mesmo com modos nem sempre isentos de severidade e dureza, ora diante do oficial de polícia, ora diante do procurador imperial; respondia inalterada, tranquila, com o tom da verdade, que a governava sozinha. Não se perdia quando, fingindo tê-la mal interpretado, reproduziam menos exatamente suas palavras; corrigia sempre coerente e precisa.
Quando ocorreu a primeira aparição, Bernardete havia retornado à vila há apenas quinze dias, tendo passado sua infância nos montes cuidando das ovelhas. Só então começara a frequentar o catecismo.
O sacerdote que o ministrava nunca havia prestado atenção nela; interrogava-a sem saber seu nome. Chamando-a uma vez, viu levantar-se humildemente uma menina simples, vestida pobremente; e não notou nela outra coisa senão sua simplicidade, e também sua ignorância nas coisas da religião. A pobre menina não deixou de se considerar a última da escola, mesmo quando alcançou tanta celebridade. Tinha muita dificuldade para aprender a ler e escrever. Nos recreios se misturava com as colegas, e brincava alegremente com muito gosto. Se alguém perguntava pela vidente, pela predileta do Senhor, pela favorita de Nossa Senhora, a Irmã que dirigia a escola apontava para ela e não se via senão uma menina simples, com roupas pobres, ocupada com brincadeiras infantis.
Com tudo isso, Bernardete não pôde escapar, como é fácil imaginar, à atenção da multidão, principalmente quando correu a notícia de que ela voltaria por vários dias à gruta. Era uma multidão que vinha de todos os lados, um ajuntamento de centenas e milhares, a ponto de às vezes se contarem até vinte mil pessoas reunidas.
Uma vez que Bernardete foi, sem aviso, à gruta, assim que foi vista dirigindo-se àquela caverna, reuniram-se em pouco tempo pelo menos dez mil pessoas. O prefeito, em um relatório ao representante regional, relatou que, tendo colocado agentes nas ruas e caminhos, reconheceu a presença de 4.822 habitantes de Lourdes, 4.838 forasteiros, totalizando 9.660 pessoas. Isso justamente no dia em que não se esperava a vinda de Bernardete.
Mas, para que tanto concurso, se ninguém via aquilo que se manifestava somente a Bernardete? Deve-se dizer que a simples visão da menina em êxtase era uma prova irresistível da verdade da aparição. Houve quem justificasse isso com uma comparação muito feliz. Quando o sol nasce, sua luz ilumina os picos das montanhas, enquanto no vale ainda reina a escuridão. Quem habita nas regiões elevadas vê o sol, mas quem está no fundo do vale não o vê, mas ainda assim, ao ver os altos cumes atingidos pelos raios do sol, tem certeza de sua presença. Assim, precisamente, quem via Bernardete transformada, e como iluminada pela aparição, tinha igualmente certeza, adquiria a mesma evidência do fato prodigioso. Portanto, o reflexo devia ser realmente visível; ou seja, o sopro de Deus que desperta os corações devia passar pela multidão. Parecia que um poder irresistível levantava a população à voz daquela pastora ignorante.

III. O governo
      Para crescer a evidência e fortalecer a verdade, contribuiu bastante o governo ao combater o movimento popular. Exibiu rigores às vezes excessivos, jamais motivados pela menor desordem. O comissário de polícia, o prefeito, o próprio ministro, sempre pelo bem da religião, como diziam, multiplicavam decretos, multas e castigos. Chegou-se a processar e multar aqueles que, para se aproximar da gruta, entravam em um terreno comunal, o que havia sido proibido. Depois foram retiradas as flores, as velas, os presentes, os ornamentos levados à gruta pelos devotos. A própria gruta foi fechada por uma cerca, foram destacados gendarmes e soldados; mas, ainda assim, enfrentavam as condenações e multas, jogavam as flores por cima da parede de tábuas, e a multidão de longe se aglomerava como antes.
É realmente admirável como o comportamento e as atitudes dos funcionários públicos empenhados em impedir a todo custo o desenrolar dos fatos prodigiosos de Lourdes, e sobretudo em reprimir o ímpeto das populações e sufocar a fama que surgia e se propagava grandiosa, conseguiram precisamente acumular provas que evidenciavam a lealdade, a sinceridade de Bernardete e seu desinteresse. Todos esses contrastes só serviam para aumentar a explosão das manifestações de religião e fé, e para alimentar ainda mais os clamores que dobravam e propagavam a fama dos acontecimentos portentosos.
Logo que as aparições despertaram tamanha comoção entre as populações e estas se movimentaram ora por instinto de devoção, ora por impulso de curiosidade, o liberalismo oficial sentiu-se de alguma forma comprometido se não se opusesse a essa explosão do sentimento religioso já tão fortemente pronunciado para aclamar fatos evidentemente sobrenaturais.
Por isso o procurador imperial, o senhor Dufour, o juiz de paz, senhor Duprat, o prefeito, o substituto, o comissário de polícia combinaram agir para conter a desordem que lhes parecia tão perigosa ao comover as populações, e assim tomar medidas rigorosas contra Bernardete.
Portanto, num domingo, ao sair o povo das Vésperas, um agente de polícia aproximou-se de Bernardete e tocando seu ombro disse-lhe: em nome da lei, siga-me ao comissário de polícia. Esse ato, em tais circunstâncias, irritou os presentes, que começaram a murmurar e a se indignar; mas um sacerdote que saía da igreja os aconselhou com mais sabedoria e os exortou a deixar livre a ação da autoridade. Bernardete foi conduzida ao comissário de polícia, senhor Jacomet. Este era um homem muito inteligente, bastante perspicaz e experientíssimo em seu ofício. Bernardete logo se viu sozinha diante dele; mas, assim que feitas as primeiras perguntas, entrou o senhor Estrade, arrecadador de contribuições indiretas, morador da mesma casa. Ele foi movido pela curiosidade e estava convencido de que Bernardete seria facilmente pega em erro, de modo que ouviu atentamente a conversa e depois fez um relatório ao senhor Lasserre, que a reproduziu em sua história.
O senhor Jacomet começou com muita benevolência e expressões de bondade: Bernardete contou seu relato com sua simplicidade nativa e com o tom da mais pura inocência e máxima candura. O comissário, cada vez mais afável e um pouco meloso, mostrava-se comovido piedosamente, e demonstrava o maior interesse pelas maravilhas divinas; multiplicava as perguntas, pressionando a menina de modo a não lhe dar tempo para refletir. E Bernardete respondia sem hesitação, sem perturbação. Então, vendo que todo artifício era inútil para cansar a jovem e confundir sua mente, assumiu sem transição uma postura ameaçadora e terrível, mudou de tom: – você mente, disse-lhe como tomado por viva cólera, você é uma enganadora, e se não confessar a verdade, entregarei você aos gendarmes.
A pobre Bernardete ficou tão surpresa com aquela mudança repentina que foi tomada por repulsa, mas, ao contrário do esperado por Jacomet, não se perturbou; manteve-se tranquila como se fosse sustentada por uma força interna, disse com calme e firmeza: – Senhor, pode me entregar aos gendarmes, mas não posso dizer outra coisa senão que o que falei é a verdade – Veremos, retomou o comissário sentando-se, vendo bem que as ameaças não adiantariam nada com aquela jovem extraordinária.
Retomou o interrogatório, fez um relatório e o leu para Bernardete; a qual, diante das imprecisões introduzidas de propósito, observava corrigindo que não havia dito assim, mas de outra forma. – E, no entanto, escrevi enquanto você falava, o que você estava dizendo. – Não, retomou Bernardete, não falei assim, não é possível porque essa não é a verdade. – O comissário sempre teve que ceder às reclamações da jovem.
Finalmente, o comissário, tornando-se rude e ameaçador, disse-lhe: – se continuar indo à gruta, farei você ser presa, e não sairá daqui se não prometer que não voltará. – Prometi à aparição, disse Bernardete, que iria. E depois, quando chega o momento, sou impulsionada por uma força interna que me chama. Ó bom Deus! O que faço? Vou sozinha rezar, não chamo ninguém. Se tanta gente me precede e me segue, não é minha culpa. Dizem que é Nossa Senhora; mas eu não sei quem é.
A conversa durou uma hora inteira. A multidão aguardava o resultado do lado de fora e começava a se agitar. Então bateram violentamente na porta e entrou o Sr. Soubirous, pai de Bernardete. Ao vê-lo, o astuto comissário soube facilmente discernir nele certa ousadia, mas com uma mistura de temor, e por isso aproveitou para fazer uma severa repreensão pela sua audácia; depois o advertiu sobre o comportamento da filha e o ameaçou de punição se não colocasse um fim nisso. Aqui terminou com essa vantagem para o comissário de ter intimidado Soubirous e o ter feito decidir conter a filha.
O senhor Estrade, testemunha muda da cena, não pôde se conter e mostrou sua admiração pela franqueza inabalável de Bernardete em suas respostas. – Obstinação na mentira! disse o comissário. – Tom de verdade! respondeu Estrade. – Digam que é desenvoltura de espírito. Ela é astuta em seu engano, é muito esperta! exclamou o comissário. – Não! É sinceríssima! repetiu Estrade.
Depois dessa conversa, as aparições não cessaram; pelo contrário, a multiplicação dos prodígios confirmava cada vez mais os fiéis em sua admiração e dissipava toda dúvida na mente daqueles que hesitavam e demoravam a se render. Muitas pessoas notáveis foram levadas pela evidência a testemunhar a verdade dos fatos sobrenaturais. Assim fizeram o senhor Dufor, ilustre advogado, o senhor doutor Dozoux, bem como o senhor Estrade, além do comandante do destacamento, o senhor Laffitte, intendente militar aposentado.
Outra vez Bernardete foi chamada ao tribunal, onde se viu diante da rigorosa dialética do procurador imperial, do substituto e dos juízes, todos empenhados, mas todos impotentes para pegá-la em erro e apontar variações ou contradições em seus discursos. O procurador imperial falou em vão contra a invasão do fanatismo e sua determinação no cumprimento de seus deveres: seu zelo não resultou em nada; pelo contrário, ajudou a acumular provas e documentos contrários às suas intenções e planos.
Frustradas as tentativas de orquestrar uma ação judicial, e esforçando-se cada vez mais o governo para conter o progresso dos acontecimentos que em Lourdes já atraíam a atenção de toda a França, e com o interesse também do senhor Rouland, ministro da instrução pública e dos cultos, o prefeito quis que fosse feita uma investigação sobre o estado mental de Bernardete. Ele a comissionou a dois médicos distintos, escolhidos entre aqueles que concordavam com seu modo de pensar; mas eles não encontraram nela nada de perturbado ou irregular e só souberam dizer que poderia estar alucinada. Com esse argumento vago, o prefeito não hesitou em decretar a prisão de Bernardete e mandá-la internar em um hospício para loucos: emitiu a ordem ao prefeito, senhor Lacade, que, acompanhado do procurador imperial, senhor Dufour, foi ao pároco para informá-lo da missão que deveria cumprir.
Mas Bernardete foi salva desta vez pela firmeza resoluta do pároco, que, declarando respeito à autoridade, não hesitou em afirmar com discurso ponderado que aquele modo de agir cometia um evidente abuso, e que ele se levantaria em defesa do fraco oprimido; e terminou dizendo: digam ao senhor Masses (o prefeito) que seus gendarmes me encontrarão na soleira da casa daquela pobre família, e que terão que me derrubar e pisotear meu corpo antes de tocar um fio de cabelo da jovem. – Nada mais foi feito.

IV. O povo
      O prefeito Masses não se deu por vencido nem pela tentativa frustrada da ação judicial, nem pelas violências insensatas contra Bernardete, e voltou suas atenções para fazer cessar o grandioso movimento do povo e dispersar a multidão que já era incessante e muito frequente na gruta. Decretou que fossem removidos todos os ornamentos, presentes, ofertas que a piedade dos fiéis acumulava ali e que a própria gruta fosse fechada e o acesso proibido a qualquer pessoa. O executor dessa ordem foi o comissário de polícia, Jacomet, que se empenhou nisso com todo o seu zelo e maior atividade. Não teve pouco trabalho, recusando-lhe os habitantes de Lourdes qualquer ajuda e cooperação, a ponto de ninguém querer, mesmo por grande recompensa, fornecer-lhe uma carroça e os instrumentos necessários: assim, ele mesmo, com a ajuda dos gendarmes, retirou um a um os objetos e os colocou numa carroça que conseguiu encontrar com muita dificuldade. E toda vez que alguém voltava trazendo presentes e objetos de devoção, o comissário voltava para retirá-los e frequentemente os jogava no riacho próximo. Foi então que, por ordem do representante do governo, o prefeito veio decretar a proibição de tirar água da fonte e de entrar no terreno adjacente, e para isso colocou uma cerca para fechar a gruta. O juiz de paz processava e multava os infratores.
Nem é preciso dizer o quanto essa intervenção brutal do governo causou descontentamento e irritação. De todos os lados surgiam protestos e reclamações, mas, apesar disso, na imensa multidão que antes e depois disso era contínua na gruta, nunca houve o menor distúrbio. Os rigores irritavam gravemente, porém, graças também às incessantes exortações do clero, não aconteceu nenhum fato censurável: nunca gritos sediciosos, nenhuma resistência, pelo contrário, cânticos, ladainhas, vivas à Bem-Aventurada Virgem. Os próprios soldados trazidos para fazer cumprir as ordens e proibições eram testemunhas dos atos de devoção e muitas vezes participavam deles.
Foi certamente digno de admiração que, nos seis meses em que duraram as aparições, no departamento não se cometesse um único crime e não houvesse uma única condenação. O Tribunal Penal do mês de março teve que julgar apenas um caso anterior, que foi resolvido com uma absolvição.
Esse caso notável, essa evidência patente da influência invisível que se espalhava por toda a região, esse argumento externo, esse prodígio moral deveria comover os corações mais duros, as mentes mais resistentes.
Tal estado de coisas não poderia durar muito. De fato, um belo dia foram a Biarritz, ao Imperador Napoleão III, monsenhor Salmis, arcebispo de Auch, e o senhor Rességnier, antigo deputado, e informando-o de tudo, conseguiram que fosse enviado por telégrafo a ordem ao senhor Masses, prefeito de Tarbes, para revogar seus editais e proibições. O prefeito escondeu o telegrama, escreveu ao imperador, interveio o ministro; mas, como Deus quis, o imperador manteve-se firme, de modo que o representante do governo teve que ceder e ordenar ao prefeito que publicasse um decreto revogando o anterior.
Os obstáculos, impedimentos e toda oposição resultaram em outras tantas vitórias do sobrenatural sobre os adversários obstinados.

V. A igreja
      Para confirmar as provas e finalmente documentar a verdade, ajudou a conduta da autoridade eclesiástica. Primeiro, o pároco fez e manteve uma severa proibição a todos os sacerdotes e freiras de irem à gruta e se misturarem ao povo, para que sua presença não parecesse sancionar de alguma forma os acontecimentos, nem dessem, mesmo sem querer, estímulo e impulso às populações.
O bispo de Tarbes aprovou e confirmou o que o pároco havia disposto. Com Bernardete, o pároco, senhor Peyramale, manteve não apenas grande reserva, mostrando não se importar com o assunto; mas na primeira vez que ela foi até ele, a recebeu com uma frieza que a alguns pareceu não isenta de dureza, quase a rejeitando. De fato, quando Bernardete recebeu da aparição a ordem de manifestar aos padres seu desejo de que fosse erguida uma capela, expôs ao pároco sua missão com toda simplicidade, e ele, interrompendo-a, disse-lhe: – que barulho é esse que você está fazendo com as visões que diz ter e das quais nada prova a verdade? – Bernardete, surpresa e confusa com a severidade incomum e o tom firme do pároco, normalmente tão paternal e afável com seus paroquianos, especialmente com os pobres, ficou inicialmente desconcertada.
Mas logo se recompôs e contou candidamente ao pároco o que lhe havia acontecido. Com isso, ele se comoveu bastante, mas se conteve e dissimulou os sentimentos que o agitavam internamente: – Você não sabe, disse ele, o nome daquela Senhora? – Não sei, respondeu Bernardete, ela não me disse quem é – Aqueles que acreditam em você, acrescentou o pároco, dizem que é Nossa Senhora. Mas preste muita atenção, continuou com muita gravidade, se você contar falsidades, você os expõe ao perigo de nunca ir vê-la no céu, quando todos os bons a verão. – Não sei se é a Bem-Aventurada Virgem, continuou Bernardete; mas vejo a aparição como vejo o senhor neste momento. Ela me fala como o senhor me fala. Venho dizer-lhe em nome dela que ela quer que se erga uma capela perto da gruta onde ela aparece para mim.
O pároco fez a jovem repetir as palavras exatas que ouvira da aparição e a despediu.
A conduta do pároco foi aprovada pelo bispo de Tarbes, Dom Laurence, que confirmou o que ele havia disposto.
Enquanto isso, o clero se absteve de ir à gruta e manteve-se alheio ao grande movimento; as ordens do bispo foram estritamente observadas em toda a diocese.
As populações, atormentadas pelos rigores do governo, voltavam-se ansiosas para as autoridades eclesiásticas e suspiravam para que o bispo se levantasse em defesa de sua liberdade religiosa.
Ora o bispo, inspirado pelos ditames da prudência, não julgava oportuno contrariar os votos da população, e embora não pudesse aprovar os comportamentos e decretos das autoridades, considerava mais apropriado adiar. Por isso, quis que o clero se dedicasse a incutir nos fiéis maior tranquilidade e os induzisse a submeter-se às ordens do governo e esperar pacientemente o desenrolar natural dos acontecimentos.
Dessa forma, a Divina Providência dispunha que o grande fato das aparições de Nossa Senhora de Lourdes sofresse, como o Cristianismo em seus primórdios, as adversidades das contradições, provas e perseguições.
Mas não era apenas a população de Lourdes e dos arredores que se maravilhavam com o prolongado silêncio da autoridade eclesiástica, mas muitos forasteiros que chegavam das estações termais próximas. Eles criticavam fortemente a ação do poder civil e reprovavam a conduta do bispo e do clero, enquanto muitos outros bispos já não escondiam sua opinião sobre a verdade dos fatos de Lourdes.
Assim chegou julho, completando-se cinco meses desde a primeira aparição da Bem-Aventurada Virgem a Bernardete Soubirous. Foi na data de 18 daquele mês que o bispo de Tarbes publicou um decreto nomeando uma comissão para examinar a verdade dos fatos ocorridos em Lourdes. Essa comissão, após um longo e maduro exame que durou três anos e meio, e o interrogatório de muitas testemunhas, fez seu relatório. Em seguida, o bispo pronunciou, em 18 de janeiro de 1862, a verdade das aparições da Bem-Aventurada Virgem a Bernardete Soubirous, autorizando o culto de Nossa Senhora sob o título de Nossa Senhora de Lourdes. E para conformar-se à vontade manifestada mais de uma vez por ela, decretou a construção de uma capela no terreno da gruta, adquirido em propriedade pelo bispo de Tarbes.

VI. Os milagres
      A fama dos acontecimentos prodigiosos, que comoviam os habitantes de Lourdes e arredores, se espalhava cada vez mais, de modo que começavam a chegar muitos também de lugares distantes; moviam-se também, em sua maioria por sentimento de curiosidade, frequentemente por instinto de devoção, pessoas de alta condição das estações termais. Assim, em pouco tempo, a notícia das aparições de Lourdes se difundiu por toda a França e Europa.
Mas o que aumentou o grande movimento foram os milagres que desde o início se manifestaram com grande frequência. Basta dizer que, quando foi instituído pela autoridade eclesiástica um processo regular, e se começou a examinar entre muitos cerca de trinta curas milagrosas, como aquelas que apresentavam mais de 40 características de fatos sobrenaturais, tanto rigor foi aplicado para excluir tudo que admitisse outra explicação qualquer, mesmo que pouco fundamentada, que se deve dizer que a natureza milagrosa só foi reconhecida quando não havia outra alternativa. Assim, reduziram-se a quinze os milagres para os quais foi pronunciado um julgamento solene afirmativo.
Devendo restringir essa notícia a termos breves, deixamos que quem desejar um relato completo leia, como recomendamos, a história de Nossa Senhora de Lourdes do senhor Lasserre (“Notre dame de Lourdes, par Henri Lasserre”, Paris, Victor Palmé. “Nossa Senhora de Lourdes”, versão italiana, Módena, tipografia da Imaculada Conceição); e nos contentaremos em relatar três dos milagres ali narrados. Isso será suficiente para nosso propósito, que é dar notícia precisa do santuário de Lourdes.
Assim que surgiu na gruta a fonte indicada a Bernardete pela Senhora celeste, ouviu-se que aquela água seria uma água curativa, e na mesma manhã correu a notícia de várias curas prodigiosas. Chegou ao ouvido de um pobre operário chamado Luís Bouriette, que há vários anos levava uma existência miserável por um acidente sofrido na explosão de uma mina.
Ele teve o rosto rasgado e quase esmagou o olho direito. A visão dele enfraqueceu tanto e até se perdia cada vez mais, que não estava mais apto para trabalhos que exigissem alguma diligência. Conhecido por todos os habitantes, era empregado pela maioria deles em trabalhos grosseiros. Ao ouvir falar da fonte prodigiosa: Vá, disse à sua filha, e traga-me água da gruta; só Nossa Senhora pode me curar. A água chegou, ele lavou o olho e deu um grito, estava curado!
No dia seguinte ou no outro, ao encontrar o médico que o tratava desde o dia do acidente, disse-lhe: Estou curado. – Curado você! respondeu o médico. Mas o quê? Sua doença é incurável; esforço-me para aliviar suas dores, mas não pretendo devolver-lhe a visão. – Mas não foi você quem me curou, foi a Virgem da Gruta. – Que Bernardete tenha êxtases inexplicáveis é certo, e eu o verifiquei com estudo cuidadoso; mas que a água da fonte cure instantaneamente doenças incuráveis não é possível.
Persistindo Bouriette em afirmar estar curado, o médico tirou do bolso o caderno, rasgou uma folha, escreveu algumas palavras, cobriu com a mão o olho esquerdo de Bouriette e disse-lhe: se você ler, acreditarei. Bouriette leu rapidamente. Enquanto isso, uma multidão se reuniu e aguardava a singular disputa, logo admirando o prodígio e a confissão do médico.
Outro dos milagres reconhecidos pela autoridade eclesiástica, que, como se verá, pode-se dizer que ocorreu diante dos olhos de uma cidade inteira, foi a cura prodigiosa da viúva Madalena Rizan, mulher bastante idosa da cidade de Nay.
Ela havia sofrido cólera em 1832, e depois ficou quase totalmente paralisada do lado esquerdo do corpo. Andava com muita dificuldade, saía de casa apenas duas ou três vezes por ano no auge do verão, mais carregada do que sustentada pela ajuda alheia para ir à igreja próxima; além disso, estava sujeita a vômitos contínuos de sangue e não podia suportar quase nenhum alimento.
Já fazia dezesseis ou dezoito meses que aquele estado tão infeliz ainda havia se agravado, e tinha levado a enferma a ficar de cama; depois em pouco tempo piorou de tal forma que, perdida toda a força, não podia mudar de posição sem ajuda. As dores da pobre mulher eram tão fortes, e sua coragem tão esgotada, que invocava do Senhor ou a cura ou a morte, mas o fim do seu sofrimento. Finalmente, chegando ao extremo, recebeu o Óleo Santo e entrou em agonia dolorosa; nesse ponto, redobrou suas invocações a Nossa Senhora, e pediu a uma vizinha que lhe conseguisse a água de Lourdes.
Enquanto a senhora Rizan estava arfando, e já ao anoitecer havia se despedido do vice-pároco e de outro sacerdote, sua filha que a assistia amorosamente começou a rezar à Santíssima Virgem: a mãe a chamou e pediu que lhe trouxesse a água de Lourdes; mas, sendo já tarde da noite, foi necessário adiar a busca junto àquela vizinha que havia ido a Lourdes.
Chegando a manhã, a água foi obtida, a enferma bebeu avidamente alguns goles e logo exclamou: Esta é água de saúde! Lave-me, filha, o rosto, o braço, todo o corpo. A filha, ansiosa e tremendo, atendeu ao desejo da mãe. Então esta, com voz recuperada, clara e sonora, disse: – Estou curada! Oh seja bendita Maria Santíssima! Dê-me minhas roupas, quero me levantar, dê-me comida, sinto fome. – A filha quis lhe dar café, vinho ou leite; mas a mãe: – Dê-me carne e pão, que não provei há vinte e quatro anos; – e comeu com toda facilidade. Então a filha foi buscar as roupas, que haviam sido guardadas há algum tempo e não se acreditava que seriam mais usadas; quando voltou trazendo algo para vestir a mãe, qual não foi sua surpresa ao encontrá-la fora da cama e ajoelhada diante da imagem de Maria, onde pouco antes ela mesma estava rezando pela mãe!
Eram sete horas da manhã, em um domingo, e da igreja vizinha saíam os fiéis após a missa; alguns entraram na casa da viúva Rizan para ver se ela não havia falecido durante a noite: mas, ao contrário, a viram curada, quase ressuscitada. Logo correu a notícia, trouxeram à casa uma infinidade de pessoas, e por dois dias não cessou o movimento, cada um querendo julgar com seus próprios olhos o prodígio que se dizia ter ocorrido. O médico Subervielle, que assistia a viúva Rizan, e que havia reconhecido a impotência da medicina, e declarado já vã toda esperança, também veio e sem hesitação reconheceu o caráter sobrenatural e divino da cura.
A viúva Rizan manteve-se desde então em boa saúde, e em 1869, quando o senhor Lasserre publicou sua história, ainda vivia cheia de vigor, como ele diz, e com sua saúde recuperada. Com o desaparecimento de sua enfermidade dava testemunho da poderosa misericórdia da Aparição da Gruta de Lourdes.
No último dia da quinzena prescrita a Bernardete, encontraram-se reunidas perto da gruta cerca de vinte mil pessoas. A comoção era enorme, e continuou mesmo depois que a aparição cessou. Duravam os discursos e os debates; durante todo o dia havia um vai e vem constante. Por volta das cinco horas ainda havia na gruta quinhentas ou seiscentas pessoas, quando chegou apressada uma mulher chorando, com o rosto inflamado, toda descomposta, invocando a Santa Virgem. Prostrou-se na entrada da gruta, depois arrastou-se de joelhos até a fonte. Então soltou o avental, no qual segurava enrolado um bebê mais morto que vivo. Fez o sinal da cruz em si mesma e no bebê, depois o mergulhou até o pescoço na água gelada da fonte. Àquela visão, levantou-se um grito de terror e de indignação; a multidão se juntou em torno da mulher: Você está louca, diziam; está matando seu bebê. – Deixem-me! faço o que posso. Deus e Nossa Senhora farão o resto. – Outros, observando a imobilidade do bebê, o palor que o cobria, a magreza do corpinho, disseram: Está morto, deixemos a pobre mulher em paz, ela está fora de si. Entretanto, o bebê, mantido por um tempo imerso na água, mostrava mais que tudo a aparência de cadáver. A pobre mulher o recolheu no avental e foi para casa. O marido, ao vê-la: – Desgraçada! disse-lhe, você matou a criança! – Não está morto, respondeu a mulher: Nossa Senhora o curará; e o colocou no berço.
Na gruta, o sussurro e as conversas não cessavam. Era um exclamar, um perguntar. Soube-se que aquela mulher era Croisine Ducouts, esposa de João Bouhohorts. O bebê havia nascido debilitado, tinha cerca de dois anos, sempre fora enfermo, e nunca havia andado; estava exaurido por febre contínua e rebelde a todos os tratamentos, e agora encontrava-se à beira da morte; já a morte cobria seu rosto com tom lívido, e o corpo era extremamente magro e totalmente exausto.
Enquanto, portanto, na gruta se discutia de diferentes formas sobre o fato da mulher, e havia grande comoção, na pobre morada reinava o silêncio. E não era silêncio de morte, nem silêncio de dor, mas silêncio de esperança; pois, assim que foi colocado no berço, o bebê adormeceu; começou a respirar suavemente, depois cada vez mais livre e forte. Assim passou toda a noite placidamente. Os pobres pais se revezavam para ouvir a respiração do filho, estavam ansiosos esperando o despertar que ocorreu ao amanhecer. O bebê ainda estava magro, mas nas bochechas aparecia um belo rubor, o aspecto era tranquilo; olhou para a mãe e pediu o seio, e se alimentou abundantemente. Queria se levantar e andar; mas a mãe não confiou, e o manteve na cama todo o dia e a noite seguinte, oferecendo-lhe repetidamente o seio, quando solicitado. De manhã, os pais saíram deixando o bebê sozinho. Ao retornar, a mãe viu o berço vazio, e o pequeno Justino correndo e brincando pelo quarto. Que as mães digam qual foi a alegria de Croisine, que digam com que tom ela gritou para o marido: Veja que ele não estava morto! Viva Maria!
Os vizinhos acorreram e veio o médico que assistia o bebê; francamente ele reconheceu a impotência radical da medicina para explicar o fato. Vieram outros dois médicos, examinaram separadamente o ocorrido, e não duvidaram em ver também a ação poderosa do Senhor. Os médicos consideraram como circunstâncias gravíssimas a duração da imersão, o efeito imediato, a capacidade de andar produzida assim que o bebê saiu da cama.
Esses três fatos, que como outros similares, foram perfeitamente esclarecidos e comprovados no processo instituído pelo bispo de Tarbes, não admitiam a menor dúvida, tendo tantos testemunhos, e excluindo qualquer explicação, exceto o poder do Senhor.
Todavia, os ímpios e incrédulos podem continuar em sua teimosia, e grasnar contra a ignorância da multidão. Nunca conseguirão, com sua ciência laboriosa, explicar como a voz de uma pobre pastora, ou a divulgação de mentiras pôde despertar e comover os povos, e levá-los a levantar um templo como aquele que agora se ergue sobre a gruta, erguido com milhões trazidos espontaneamente de todas as partes da França e da Europa.
Para nós, povo ignorante, que cremos em Deus Criador do céu e da terra, não é difícil acreditar nos milagres, quando são devidamente comprovados. Acreditamos neles como qualquer outro fato histórico. Elevamos por eles nossos corações para louvar nosso Pai, que está nos céus.
Ó grande misericórdia de Deus, que fortalece nossa fé e reforça com novos argumentos nossa confiança na proteção de sua Santíssima Mãe, dispensando abundantemente suas graças em tempos tão maus como os nossos, e tão adversos à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana!

VII. Os adversários derrotados
      A grandiosa manifestação da Misericórdia Divina realizada com as aparições da Bem-Aventurada Virgem em Lourdes e com os numerosos e solenes prodígios que se seguiram, não foi suficiente para vencer a impiedade e a audácia dos malvados: eles não se renderam às provas mais claras, mas continuaram a desafiar como se nada fosse nas impudentes negações. Em vão a verdade triunfou de todos os contrastes; persistiram na imprensa e nos discursos as zombarias e as ridicularizações.
Mesmo com tão grande ousadia, agradou ao Senhor conceder ampla proteção oportuna, e ousaremos dizer castigo adequado, se é que haja limite que a má-fé possa respeitar.
Por disposição da Divina Providência, outra cura portentosa ocorrida com todas as características de plena evidência, deu ocasião a um desafio corajosamente lançado aos livres-pensadores, opositores aos milagres, colocando-os à prova para apresentar provas contra os fatos já vitoriosamente esclarecidos, e conhecidos luminosamente em todo o mundo. Todos os adversários ficaram perplexos; recuando, demonstraram sua impotência, de modo que ficou provado que não falam segundo convicção, mas somente por ódio cego e por paixão imoderada.
Não seria para se preocupar com a maldade endurecida de uma geração tão má, se não fosse o dano aos simples e aos ignorantes. Desses há muitos que são vítimas de fácil engano. Pouco cuidadosos em buscar diligentemente a verdade, mantêm-se neutros em vez de suportar o leve desconforto de examinar os prós e os contras: ainda mais se devem enfrentar as zombarias daqueles malvados que têm por missão mentir sempre, segundo o lema: mintam audaciosamente, algo sempre se ganhará.
Falta, portanto, ainda um dever depois de expor assim, mas com precisão estudada, os argumentos que demonstram a verdade dos prodígios ocorridos em Lourdes. Não basta ter evidenciado o acordo das populações, as oposições vencidas do governo, a prudente reserva superada da Igreja. É preciso dar a conhecer este outro argumento da audaciosa derrota dos malvados. Não importa que eles não queiram se dar por vencidos, eles o são de fato no julgamento de todo homem honesto e leal.
Vivia em Bordéus em 1870 o senhor Fournier, capitão de navio aposentado, com a esposa e três filhos; o primeiro Ernesto, alferes da marinha, a segunda Julieta que então tinha 14 anos, Alberto que tinha 11.
Julieta sofria de grave doença progressiva: sofria de atonia completa do estômago com nojo por qualquer alimento: fraqueza extrema sem poder se sustentar que com ajuda alheia e por pouco tempo, tendo que sentar a cada três ou quatro passos: músculos pulmonares afetados, a respiração cada vez mais difícil não permitia a posição horizontal, o sono só era possível sentada na cama; finalmente paralisia do lado direito.
Foram chamados um após o outro, sem sucesso, os mais célebres médicos de Bordéus. Consultou-se com o senhor Cogniet, depois com o senhor Denucé. Unânime com seus colegas, este ilustre médico declarou a doença profundamente enraizada, a cura, em qualquer caso, de doenças assim, rebeldes à medicina, requer um tratamento muito longo e não se pode esperar melhora sensível antes do completo desenvolvimento físico retardado também na menina pela fraqueza e pela enfermidade.
Sendo então próximo o verão, os senhores Fournier se instalaram em uma vila no lugar chamado Bouscat, nas proximidades de Bordéus. Foi feito o tratamento hidroterápico para Julieta; para o tratamento foram adquiridos vários ingressos para banho. E como a enferma não podia suportar o movimento da carruagem, foi encontrado um burrinho velho e calmo que há muito tempo não sabia, se é que alguma vez soube, o que era trote e galope. O plácido animal levava Julieta todos os dias em passo lento e suave ao estabelecimento hidroterápico. O pai, a mãe e os irmãos a acompanhavam a pé. Na estrada de Bouscat a Bordéus, esse grupo melancólico era bem conhecido, visto passar todos os dias na mesma hora. Todos mostravam interesse pela família aflita: o aspecto da enferma impressionava tanto que foram frequentemente observados os sinais de espanto dos curiosos que espiavam pelas janelas e portas e que revelavam pressentimentos sinistros.
Nesse meio tempo, o irmão da senhora Fournier teve em mãos a história de Nossa Senhora de Lourdes do senhor Henrique Lasserre, leu avidamente e se sentiu tomado por vivos sentimentos de admiração e confiança. De modo que escreveu sem demora ao pároco de Lourdes para que enviasse imediatamente uma garrafa da água de Lourdes à senhora Fournier.
O senhor Fournier era um livre-pensador e seu filho Ernesto compartilhava suas opiniões; contudo, não levantavam objeções, respeitando a fé e a confiança das pessoas amadas. É desnecessário observar que, deixando livre para a esposa, para a filha e para o filho mais novo rezarem suas orações, o pai e o filho mais velho não participavam dessas práticas e desses sinais de devoção.
Mas o jovem Ernesto não conseguiu se conter de escrever ao tio zombando filosoficamente de tanta ingenuidade; na primeira carta que lhe escreveu insinuou estas palavras: – Com todo o respeito que lhe professo, devo confessar-lhe, caríssimo tio, que sua água límpida me inspira uma confiança bastante medíocre. Nossa pobre Julieta está gravemente enferma demais para que eu tenha vontade de brincar. Limito-me a dizer simplesmente que, se Julieta se curar bebendo essa água, comprometo-me a proclamar o milagre! A gritar isso nos telhados, aliás, mais ainda, a ir gritar isso até no confessionário. Vocês me acharão de fácil convicção. Vocês parecem acreditar antes de ver, eu quero ver antes de acreditar. Sou como São Tomé.
A senhora Fournier, sua filha e o jovem Alberto haviam lido juntos o livro do senhor Lasserre, sua fé se tornou ardente; redobraram suas orações e se preparavam para obter a grande graça, embora dizendo não se acharem dignos; e assim esperavam tornar-se dignos. Finalmente foi fixado o dia 14 de junho para pedir à Bem-Aventurada Virgem a tão desejada cura.
O pároco celebrou a santa Missa com essa intenção, Julieta foi levada à igreja e fez a santa Comunhão. Depois começou a beber a água de Lourdes, mas não sentiu nenhum efeito. Grande foi a dor pela esperança frustrada: parecia até que a enferma piorava, enquanto a mãe e o irmão sofriam bastante com a comoção sofrida. O dia foi muito triste e desanimador. Chegada a noite, Julieta foi colocada, não deitada, mas sentada na cama; a mãe e o irmão ficaram ao seu lado de joelhos rezando. O pai entrou no quarto; embora não sofresse as emoções pelas alternâncias de esperança e desânimo que dilaceravam os seus, e que ele nunca compartilhara, assim como não compartilhava seus sentimentos, ainda assim as dores de seus entes queridos o atingiam e o atormentavam: por isso evitou perturbá-los em sua fé. Ficou alguns momentos e depois se retirou para deitar-se.
Terminada a oração, Julieta quis acrescentar um terço do santo rosário: fazendo isso, ia se resignando gradualmente. Depois pediu à mãe a água de Lourdes. A mãe, temerosa de uma decepção, disse à filha: – Minha querida, se Nossa Senhora tivesse querido curá-la, teria feito isso esta manhã.
– Eu, disse Giulietta, tenho certeza de que vou me curar esta noite; me dê a água.
O jovem Alberto, ajoelhando-se novamente, disse: – Mamãe, dê a ela a água, certamente ela vai se curar.
A senhora Fournier ofereceu a água à filha, que, fazendo o sinal da cruz devotamente, bebeu lentamente, e, ao colocar o copo, deu um longo suspiro, o peito se levantou, os pulmões se dilataram. Diante dessa respiração longa e vigorosa, que se seguiu à respiração ofegante e estridente que a entristecia há tantos meses, a boa mãe sentiu uma espécie de arrepio. Julieta molhou e lavou o peito com a água de Lourdes. Mamãe, gritou, esta água me liberta de todas as minhas dores, parece que as tira como com uma esponja.
Alberto correu para a porta do quarto exclamando: Julieta está curada, Julieta está curada.
O pai correu. Curada! exclamou, e ficou estupefato. Ele havia enfrentado grandes perigos em sua vida, mas nunca sentira um golpe tão poderoso quanto aquele que lhe fazia sentir a voz clara e sonora da filha que lhe dizia: Papai, veja, Nossa Senhora me curou!
Toda a casa foi despertada; todos vieram admirar o prodígio. Saindo todos, Julieta se deitou estendida na cama e desfrutou de uma noite muito tranquila, e pela manhã acordou com plena saúde. A cura foi perfeita.
Pela manhã, assim que se levantou da cama, Julieta apressou-se a ir a Bordéus para fazer estoque de flores para adornar a capela de Nossa Senhora, e levou grande quantidade indo e voltando a pé com grande surpresa e manifesto espanto de todos os que a viam triste e dolorida no burrinho.
O doutor Denucé reconheceu com admiração a cura da qual ouviu todos os detalhes.
Aconteceu um fato curioso quando se pensou em aproveitar os ingressos de banho restantes como forma de maior fortalecimento das forças de Julieta. Trouxeram o animal; Julieta, é claro, não precisou de ajuda, mas com um belo salto montou nele, todos elogiando sua agilidade. Mas o burrinho, até então tão calmo e quieto, foi tomado por uma ânsia singular e por um ardor incomum, empinou-se, enfureceu-se, deu coices, e negando serviço à menina a jogou no chão; depois saiu correndo arrastando-a pendurada pelo pé no estribo; a pobre menina, toda ensanguentada, quase desmaiou de susto. Mas não foi um mal grave e não teve consequências. Abandonaram qualquer auxílio da hidroterapia. A lição foi entendida, com razão ou sem, pareceu clara não menos do que a dera a burra de Balaão.
O Senhor Fournier escreveu imediatamente ao cunhado para marcar um encontro em Lourdes. O coração leal do antigo marinheiro não podia ignorar a conclusão de uma cura tão prodigiosa.
Cercado por toda a sua família, fez atos de bom cristão. Ernesto, que havia estado ausente dessa bela festa, cumpriu seus compromissos e também foi ao confessionário.
O Senhor Artus, este é o nome do irmão da senhora Fournier, como teve o primeiro pensamento da invocação a Nossa Senhora de Lourdes, assim empenhou-se com grande zelo em divulgar o fato miraculoso pela imprensa. Ele avisava, como disse e publicou, que quem quer que seja colocado diante de fatos que revelam claramente a verdade aos intelectos desviados, às vontades enfermas, o remédio e a saúde, encontra o dever de proclamar esses fatos e de dar testemunho público deles, para que a luz que o iluminou e curou traga o mesmo benefício a outros. Na verdade, fez mais: empenhou-se em confundir a ousadia dos ímpios e suas negações. Sentia dor e espanto ao observar como a desprezível estratégia dos livres-pensadores frequentemente consegue sufocar a verdade. E com razão; pois essa ação é muito poderosa sobre a multidão de leitores de jornais que levam a sério todas as tolices que lhes são servidas, e aquelas teses mil vezes refutadas, mas sempre reproduzidas como se fossem apoiadas pela maior evidência, mantendo com descaramento a negação dos fatos mais incontestáveis e mais bem esclarecidos com provas sólidas. O povo, incapaz por falta de tempo e meios para fazer uma investigação, confia em seu jornal, acredita ingenuamente que o escritor apurou conscienciosamente a verdade. A petulante segurança do escritor, sua negação desprezível, supõe-se bem fundamentada, acredita-se que foi estudada cuidadosamente; portanto, não se duvida de seu respeito pela verdade, boa-fé e honestidade. Mas tudo isso não passa de engano.
Portanto, o senhor Artus lançou a todos os livres-pensadores um desafio solene, provocando-os a demonstrar a falsidade de dois ou três dos fatos principais narrados pelo senhor Lasserre em sua história de Nossa Senhora de Lourdes. Depositou junto ao senhor Turquet, notário em Paris, rua de Hanôver, n. 6: 1º dez mil francos para a aposta; 2º cinco mil francos como garantia das despesas da investigação; ficando a soma total de quinze mil francos nas mãos do notário por dois meses.
Estabelecidas as condições mais minuciosas e rigorosas do julgamento, propôs que este fosse confiado a pessoas de grande celebridade, designando pelo nome um grande número de membros das mais ilustres academias de Paris, médicos, cientistas, magistrados, inclusive um renomado teólogo, e chegou a convidar um protestante conhecido por um escrito sobre a guerra e o cerco de Paris.
Declarou que quem quisesse aceitar o desafio só teria que avisar o notário, depositando uma quantia igual à que ele havia depositado.
O senhor Artus pensava, e com razão, que se os milagres narrados pelo senhor Lasserre fossem falsos, nas cidades e vilas onde se afirmava que ocorreram, surgiriam dezenas de apostadores atraídos por um ganho certo. “Certamente haverá”, dizia consigo mesmo, “livres-pensadores suficientemente obstinados em sua crença, suficientemente certos da impossibilidade dos milagres para apostar que nenhum fato pode contradizer sua doutrina; eles certamente surgirão como campeões e arriscarão seu dinheiro como eu arrisco o meu, como qualquer um o faria contra quem defendesse alguma absurda ideia, por exemplo, o movimento perpétuo ou a quadratura do círculo.”
Se, por acaso, entre tantas testemunhas que presenciaram esses fatos, entre tantos filósofos que mostram desprezo quando se fala de tal intervenção divina, se entre tantos adversários não surgir ninguém, absolutamente ninguém para enfrentar o desafio, se o livre pensamento em massa fizer ouvidos moucos, ou recusar colocar o dinheiro na mesa diante da investigação, então ficará bem demonstrado a todo homem de boa-fé que os acontecimentos sobrenaturais ocorridos em nossos dias e narrados pelo senhor Lasserre estão fora de qualquer contestação: – que verdadeiramente a Santíssima Virgem Maria apareceu em Lourdes: – que à sua voz e ao seu sinal uma fonte brotou sob os dedos de Bernardete: – e que desde então ocorreram curas milagrosas, perfeitamente comprovadas até aos olhos dos adversários que evitam contestá-las. Também ficará demonstrada, para quem quiser ver, a realidade sobrenatural do Cristianismo, e a eterna onipotência de Deus, feito homem, adorado nos altares. Será demonstrado ainda que os senhores do livre-pensamento, quando se mostram arrogantes em seus livros, jornais e discursos, e se levantam contra os milagres, contra o catolicismo, contra Jesus Cristo, vangloriam-se de uma segurança que não possuem em sua alma, nem em sua mente, nem em seu intelecto, nem em sua consciência, nem em seu coração.”
O desafio do senhor Artus foi publicado pela imprensa e amplamente divulgado. Mas passou um ano e ninguém teve coragem de enfrentá-lo, o que provou ainda mais a verdade dos gloriosos acontecimentos de Lourdes e envergonhou a audácia dos adversários.
Narrada então em detalhes em um elegante folheto a cura da sobrinha, os esforços feitos para testar a lealdade dos adversários, o senhor Artus enviou cópias a todos os membros da Academia Francesa, a todos os jornais de livres-pensadores, a todas as revistas e aos mais conhecidos campeões da descrença moderna.
Providenciando assim a máxima publicidade, o senhor Artus eliminou qualquer pretexto de ignorância, evidenciando o mau ânimo e a má-fé dos opositores das aparições da Bem-Aventurada Virgem em Lourdes e dos que contestam os prodígios que as confirmaram; trouxe ao mesmo tempo um argumento poderoso para fortalecer ainda mais a fé e a confiança dos bons cristãos.

Conclusão. Pastoral do Bispo de Tarbes, sobre as aparições ocorridas na gruta de Lourdes.

Bernardete Soubirous, eleita pela Divina Providência como instrumento das prodigiosas manifestações de Lourdes, é uma nova prova de que o Senhor se agrada dos humildes e dos simples, e os escolhe para missões altíssimas, para que suas obras brilhem ainda mais pela fraqueza dos meios pelos quais são realizadas.
Quando foi erguido vitoriosamente o Santuário de Lourdes com as ofertas dos fiéis, e a Santa Igreja obteve assim um novo reduto, um conforto notável nas calamidades que, em seus insondáveis desígnios, Ele permite que soframos atualmente, a missão de Bernardete pareceu cumprida.
Talvez ela tenha compreendido isso mais claramente quando, durante as solenidades de inauguração do novo santuário, lhe foi impedido participar, devido a uma grave enfermidade que a mantinha confinada em um leito hospitalar. E é digno de nota que o mesmo aconteceu com o pároco de Lourdes: portanto, os ministros da vontade da Bem-Aventurada Virgem para a ereção do santuário, que foram a jovem mensageira e o sacerdote principal executor, ficaram excluídos, e assim completamente ignorados na alegria e exultação públicas. Na verdade, para se afastar para sempre de todos os olhares, Bernardete se consagrou a Deus entrando em uma piedosa congregação de Irmãs da Caridade.
Sua família não mudou de condição, nem se beneficiou em nada, embora não tenha sido poupada da acusação de comércio vil. A verdade é que nunca aceitou qualquer presente, mesmo de pouco valor. Bernardete aceitou uma vez uma oferta, feita por uma senhora piedosa favorecida por uma graça especial: quando essa senhora retirou o hábito votivo que usara por muitos meses, Bernardete o aceitou, agradando-se de vestir as cores da Bem-Aventurada Virgem até que as trocou pelas austeras vestes religiosas.
Agora, no retiro de sua humilde cela e no exercício da caridade, ela recorda, certamente com suave deleite espiritual, as comunicações secretas e os favores da Santíssima Virgem Maria.
Para confirmar o que narramos até agora, julgamos oportuno publicar aqui a carta pastoral do Bispo de Tarbes, na qual são expostas e confirmadas as maravilhas operadas na gruta de Lourdes.

Bertrando Severo Laurence
pela misericórdia de Deus, e pela graça da Santa Sé Apostólica, Bispo de Tarbes, assistente ao trono Pontifício etc., etc.

Ao Clero e aos fiéis da nossa Diocese, saúde ou bênção em nosso Senhor Jesus Cristo

Em todos os tempos, amados cooperadores e caríssimos irmãos, estabeleceram-se maravilhosas comunicações entre o céu e a terra. Desde a origem do mundo, o Senhor apareceu a nossos primeiros pais para repreendê-los pela desobediência cometida. Nos séculos seguintes, nós o vemos conversar com os Patriarcas e Profetas, e o Antigo Testamento traz a história das aparições celestiais das quais foram favorecidos os filhos de Israel. Esses favores divinos não deveriam cessar com a lei mosaica; pelo contrário, na lei da graça foram ainda mais estupendos e numerosos.
Desde os primórdios da Igreja, naqueles tempos de cruel perseguição, os cristãos tinham visitas de Jesus Cristo ou dos Anjos, que apareciam ora para revelar-lhes os segredos do futuro, ora para libertá-los das cadeias, ora para fortalecê-los nas batalhas. Assim, segundo a opinião de um escritor judicioso, Deus encorajava aqueles ilustres confessores da fé, enquanto os poderosos da terra faziam todo esforço para extinguir em sua raiz a doutrina salvadora do mundo. Essas manifestações sobrenaturais não ocorreram apenas nos primeiros séculos do cristianismo: a história atesta que elas se renovaram de tempos em tempos para a glória da religião e a edificação dos fiéis.
Entre as aparições celestiais, destacam-se as da Santíssima Virgem e foram para o mundo uma fonte abundante de bênçãos. Percorrendo o universo católico, o viajante encontra de vez em quando templos consagrados à Mãe de Deus; muitos desses monumentos têm origem em aparições da Rainha dos céus. Já possuímos um desses abençoados santuários, fundado há quatro séculos, após uma revelação feita a uma jovem pastora, ao qual milhares de peregrinos vão todos os anos para se prostrar diante do trono da Virgem gloriosa e implorar seus favores.
Graças sejam dadas ao Onipotente, que nos tesouros infinitos de sua bondade nos concede um novo favor. Ele quer que na Diocese de Tarbes seja construído um novo santuário em glória de Maria. E qual é o instrumento escolhido por Ela para nos manifestar seus piedosos desígnios? Como sempre acontece, um dos mais humildes, segundo o mundo; uma menina de catorze anos, Bernardete Soubirous, nascida em Lourdes de família pobre.
Corria o dia onze de fevereiro do ano de 1858. Bernardete recolhia lenha seca na margem do Gave, acompanhada por uma de suas irmãs de onze anos e por outra jovem de treze anos. Ela chegou diante da gruta chamada de Massabielle, quando, em meio ao silêncio da natureza, ouviu um ruído semelhante a um sopro de vento. Olhou para o lado da margem direita do rio, ladeada por choupos, mas os viu imóveis. Um novo ruído atingiu seus ouvidos, ela se voltou para a gruta e viu na extremidade da rocha, numa espécie de nicho, perto de um arbusto que se agitava, uma dama que lhe fazia sinal para se aproximar. Seu rosto era de uma beleza arrebatadora; ela estava vestida de branco, com uma faixa de cor azul-celeste ao redor da cintura, usava um véu branco na cabeça e uma rosa amarela sobre cada um dos seus pés. Àquela visão, Bernardete se assustou, pensando ser vítima de uma ilusão; esfregou os olhos, mas o objeto que via tornava-se cada vez mais nítido. Então, ela caiu instintivamente de joelhos, pegou seu terço, rezou-o, e, quando terminou, a aparição desapareceu.
Por uma inspiração secreta ou por instigação de suas companheiras, a quem havia revelado o que viu, Bernardete voltou à gruta no domingo e na quinta-feira seguintes, e em cada vez o mesmo fenômeno se repetiu. No domingo, para se assegurar se aquele ser misterioso vinha do Senhor, a jovem aspergiu-a três vezes com água benta, e recebeu um olhar cheio de doçura e ternura. Na quinta-feira, a aparição falou com Bernardete e disse-lhe para voltar por quinze dias consecutivos; para beber, lavar-se na fonte e comer uma erva que encontraria ali. A jovem, não vendo água na gruta, dirigiu-se ao rio La Gave, quando a aparição a chamou e disse para ir ao fundo da gruta, no lugar que ela indicou com o dedo. A menina obedeceu, mas não encontrou nada além de terra úmida. Ela cavou imediatamente com as mãos um pequeno buraco, que se encheu de água lamacenta; bebeu, lavou-se e comeu uma espécie de agrião que ali se encontrava.
Cumprido esse ato de obediência, a aparição falou novamente com Bernardete e a incumbiu de dizer aos sacerdotes que era vontade dela que se erguesse uma capela no local onde apareceu; e a menina apressou-se em cumprir a missão junto ao pároco da paróquia.
A jovem fora convidada a voltar por quinze dias à gruta. Ela obedeceu fielmente e todos os dias, com exceção de dois, contemplou o mesmo espetáculo na presença de uma multidão incontável de pessoas, que se aglomerava diante da gruta, sem ver nem ouvir nada. Durante esses quinze dias, a aparição convidou Bernardete várias vezes a ir beber e lavar-se no local já indicado; recomendou-lhe orar pelos pecadores e renovou o convite para que lhe fosse erguida uma capela. Por sua vez, Bernardete perguntou quem ela era, mas não recebeu outra resposta senão um sorriso gracioso.
Após a décima quinta visita, ocorreram ainda duas aparições, uma em vinte e cinco de março, dia da Anunciação da Santíssima Virgem, e outra em cinco de abril. No dia da Anunciação, Bernardete perguntou três vezes ao ser misterioso quem era. Então a aparição levantou as mãos, juntou-as à altura do peito, ergueu os olhos ao céu e, com um ar sorridente, exclamou: Eu sou a Imaculada Conceição. «Je suis l’Immaculée Conception.»
Tal é, em essência, continuou o Prelado, a narração genuína que tivemos da própria boca de Bernardete, na presença da Comissão reunida para interrogá-la pela segunda vez.
Por consequência, a menina terá visto e ouvido um ser que se chama Imaculada Conceição, que, embora revestido de forma humana, não foi visto nem ouvido por nenhum dos numerosos espectadores presentes à aparição. Isso, portanto, será um ser sobrenatural. O que devemos pensar sobre esse fato?
Caríssimos irmãos, vocês sabem com que lentidão a Igreja procede para julgar esses fatos sobrenaturais. Antes de admiti-los e declará-los divinos, quer provas absolutamente certas. O homem, após sua queda original, está sujeito a muitos erros, especialmente em matéria tão delicada. Se não é enganado pela razão enfraquecida, pode ser iludido pelo demônio. E quem não sabe que às vezes o maligno, para nos fazer cair facilmente em suas armadilhas, se transforma em anjo de luz? (2Cor 11,14) Por isso o Discípulo amado nos exorta a não crer em todo espírito, mas a provar se os espíritos procedem de Deus (1Jo 4,1). Essa prova nós fizemos, caríssimos irmãos. Em torno do fato de que falamos, já se passaram quatro anos em que dedicamos nossas atenções; observamos suas várias fases; e nos inspiramos na Comissão composta por virtuosos, doutos e experientes eclesiásticos, que interrogaram a menina, estudaram com grande diligência os fatos e examinaram e ponderaram tudo. Também invocamos a autoridade da ciência, e estamos convencidos de que a aparição é sobrenatural e divina, e que, por consequência, o que Bernardete viu é a Santíssima Virgem. Nossa convicção se formou sobre o testemunho de Bernardete, mas principalmente sobre os fatos ocorridos, que não podem ser explicados sem admitir uma operação divina. O testemunho da menina traz consigo toda segurança. E primeiramente sua sinceridade não pode ser posta em dúvida. E quem trata com ela não pode deixar de admirar sua simplicidade, candura e modéstia. Enquanto se fala por toda parte das maravilhas que lhe foram reveladas, ela permanece calada, e quando interrogada responde, conta tudo sem afetação e com uma ingenuidade indescritível; e às muitas perguntas que lhe fazem, dá respostas claras, precisas, adequadas e cheias de grande persuasão. Submetida a duras provas, não cedeu a ameaças e recusou ofertas generosas. Sempre coerente consigo mesma, várias vezes interrogada, manteve constantemente o que disse uma vez, sem acrescentar nada e sem tirar nada. Portanto, a sinceridade de Bernardete é incontestável; aliás acrescentamos que é inquestionável, pois seus contraditores, que os teve, foram obrigados a confessar essa virtude.
Mas se Bernardete não quis enganar, não pode ser que ela mesma tenha se enganado? Não pode ser que ela tenha acreditado ver e ouvir quando na verdade não viu nem ouviu nada? Não pode ser que ela tenha sofrido alucinações? – Isso não pode ser suposto. A sabedoria de suas respostas demonstra que ela tem um espírito reto, uma imaginação calma e um juízo muito superior à sua idade. Ela não está exaltada por sentimento religioso; não se encontrou nela desordem intelectual, nem alteração dos sentidos, nem excentricidade de caráter, nem qualquer doença que a predisponha a formar invenções imaginárias. Ela viu a aparição não uma vez, mas dezoito vezes; no início, de repente, não havia nada que pudesse fazê-la suspeitar do acontecimento que ocorria; e durante quinze dias, esperando vê-la sempre, por duas vezes não viu nada, embora estivesse no mesmo lugar e nas mesmas circunstâncias. E o que acontecia quando ela a via? Bernardete se transformava; tomava outros sentimentos, o olhar se inflamava, via coisas que nunca tinha visto, ouvia uma linguagem nunca antes ouvida por ela, cujo sentido às vezes ignorava, mas não esquecia. Todo esse conjunto de circunstâncias não permite supor que ela estivesse sofrendo alucinações. Portanto, a jovem viu e ouviu um ser que se dizia a Imaculada Conceição, e esse fato, não podendo ser explicado naturalmente, nos dá razão para acreditar que a aparição é sobrenatural.
O testemunho de Bernardete, que por si só já é importante, ganha nova força, ou melhor, seu cumprimento pelos fatos maravilhosos que se seguiram. Se a árvore deve ser julgada pelos frutos, podemos afirmar que a aparição relatada pela jovem é sobrenatural e divina, pois produziu efeitos sobrenaturais e divinos. E de fato, o que aconteceu depois disso, queridos irmãos? Assim que a aparição foi conhecida, a notícia se espalhou rapidamente por toda parte: sabia-se que Bernardete deveria ir por quinze dias à gruta; e eis que toda a região se comove; multidões de pessoas correm ao local da aparição; aguardam com grande desejo a hora solene, e enquanto a jovem, arrebatada fora de si, está absorta no Ser que contempla, as testemunhas desse prodígio ficam comovidas e enternecidas num mesmo sentimento de admiração e oração.
As aparições cessaram, mas a afluência continua; peregrinos vindos de regiões distantes, assim como de cidades próximas, vão à gruta: e há pessoas de todas as idades, classes e condições. E que motivo move esses inúmeros visitantes? Eles vão à gruta para rezar e pedir algum favor a Maria Imaculada, e com sua recolhida devoção mostram que sentem como um sopro divino, que anima aquela rocha agora tão famosa. Muitas almas já boas se fortaleceram na virtude; outras frias e indiferentes retomaram as antigas práticas da religião; pecadores obstinados, tendo invocado em seu favor Nossa Senhora de Lourdes, reconciliaram-se com Deus. Essas maravilhas da graça, que têm um caráter de universalidade e duração, não podem ter outro autor senão Deus. E tudo isso confirma evidentemente a verdade da aparição.
Se dos efeitos produzidos para o bem das almas passarmos aos que dizem respeito à saúde dos corpos, que prodígios e quantos temos para contar?
Bernardete foi vista bebendo e lavando-se no local indicado pela aparição. Essa circunstância foi notada e despertou a atenção pública. Todos se perguntavam se não se deveria considerar isso um sinal de uma virtude sobrenatural da água daquela fonte.
Doentes recorreram à água da gruta, e não foi em vão: muitos cujas enfermidades resistiram aos tratamentos mais enérgicos recuperaram subitamente a saúde. Essas curas extraordinárias causaram grande admiração e logo sua fama se espalhou por toda parte. Então, de todos os lados, doentes que não podiam se deslocar até a gruta pediam pela água de Massabielle. Quantos doentes curados! Quantas famílias consoladas!… Se quiséssemos invocar seu testemunho, inúmeras vozes se levantariam para proclamar com linguagem de gratidão a soberana eficácia da água da gruta. Aqui não podemos enumerar todos os favores obtidos; mas podemos afirmar que a água de Massabielle curou doentes desesperados, já declarados incuráveis. Essas curas ocorreram com o uso de uma água desprovida de qualquer qualidade curativa natural (segundo rigorosa análise feita por bons e experientes químicos), umas instantaneamente, outras após tê-la usado duas ou três vezes, seja como bebida ou como loção. Além disso, essas curas são permanentes. Agora, que força as produziu? Talvez a força do organismo? A ciência diz que não. Elas são, portanto, obra de Deus. Mas todas se referem à Aparição; ela é o princípio, inspirou confiança nos doentes. Há, portanto, um vínculo estreito entre a Aparição e as curas; e assim a Aparição é divina porque as curas trazem uma marca divina. Mas o que procede de Deus é verdade! Portanto, a Aparição que se disse a Imaculada Conceição, que Bernardete viu e ouviu, é a Virgem Santíssima! Exclamemos então: «Aqui está o dedo de Deus – Digitus Dei est hic.»
Admiremos, queridos irmãos, a economia da divina Providência. O imortal Pio IX, no final do ano de 1854, definiu o dogma da Imaculada Conceição. A palavra do Pontífice foi logo proclamada por todo o mundo; os corações dos católicos exultaram de alegria, e em todos os lugares celebrou-se o glorioso privilégio de Maria com festas que nunca esqueceremos. E eis que três anos depois a Santíssima Virgem, aparecendo a uma jovem, lhe diz: Eu sou a Imaculada Conceição… Quero que se edifique neste lugar uma capela em minha honra. Não parece que ela quis, dessa forma, consagrar com um monumento o infalível oráculo do Sucessor de Pedro? E onde quer que esse monumento seja erguido? Aos pés dos nossos Pireneus; lugar ao qual concorrem muitos estrangeiros de todas as partes do mundo para recuperar a saúde do corpo. Não parece que, dessa forma, a Virgem convoca os fiéis de todas as nações para honrá-la no novo templo que lhe será erguido?
Habitantes da cidade de Lourdes, alegrai-vos! A Augusta Maria se digna dirigir sobre vós seus misericordiosos olhares. Ela quer que se erga perto da vossa cidade um santuário onde concederá seus favores. Agradecei-lhe por este sinal de predileção que vos dá: e, visto que ela se mostra generosa nas ternuras de Mãe, mostrai-vos seus filhos devotos, com a imitação de suas virtudes e com o afeto à religião. Além disso, podemos dizer que a Aparição já trouxe entre vós abundantes frutos de saúde. Testemunhas oculares dos fatos da gruta e dos felizes acontecimentos, vossa confiança foi grande, e forte foi vosso convencimento. Admiramos vossa prudência, vossa docilidade em seguir nossos conselhos de submissão à autoridade civil, quando por algumas semanas deveis permanecer sem ir à gruta, e reprimir em vossos corações os sentimentos inspirados pelo espetáculo que tanto vos comoveu nos quinze dias das Aparições.
E vós todos, queridos diocesanos, abri o coração à esperança: começa para vós uma nova era de graças, e para todos estão preparadas as bênçãos celestes.
Em vossas súplicas e cânticos, acrescentareis daqui em diante o título de Nossa Senhora de Lourdes aos de Nossa Senhora de Garaison, de Poeylaün, de Héas e de Piétat. Desses veneráveis santuários, a Virgem Imaculada velará por vós e vos cobrirá com sua eficaz proteção. Sim, queridos colaboradores e amados irmãos, se com o coração cheio de confiança mantivermos os olhos fixos nesta estrela do mar, atravessaremos sem medo de naufrágio o tempestuoso mar desta vida e chegaremos sãos e salvos ao porto da eterna felicidade.

Por esses motivos, depois de nos entendermos com nossos veneráveis irmãos dignitários, cônegos e capítulo de nossa igreja catedral;

INVOCADO O SANTO NOME DE DEUS

Fundando-nos nas regras sabiamente estabelecidas por Bento XIV em sua obra sobre a Beatificação e Canonização dos Santos para o discernimento das verdadeiras ou falsas aparições;
Visto o relatório favorável apresentado pela Comissão encarregada de informar sobre a Aparição ocorrida na gruta de Lourdes e sobre os fatos a ela relacionados;
Vistos os testemunhos escritos dos médicos por nós solicitados sobre as numerosas curas obtidas com o uso da água da gruta;
Considerando primeiramente que o fato da Aparição, tanto por parte da jovem que a referiu, quanto principalmente pelos efeitos extraordinários que dela derivaram, não poderia ser explicado de outra forma senão pela operação de uma causa sobrenatural;
Considerando em segundo lugar que essa causa não pode ser senão divina, pois os efeitos produzidos, sendo uns sinais sensíveis da graça, como a conversão dos pecadores; as outras violações às leis da natureza, como as curas milagrosas, não podem ser atribuídas senão ao Autor da graça e ao Senhor da natureza;
Considerando finalmente que nossa convicção é corroborada pela grande e espontânea afluência dos fiéis à gruta, afluência que não cessou após as primeiras aparições, e que tem por fim pedir favores ou agradecer por aqueles recebidos;
Para satisfazer ao justo desejo de nosso venerável capítulo, do clero, dos leigos de nossa diocese e de tantas almas piedosas que há muito anseiam por uma sentença da autoridade eclesiástica que, por motivos de prudência, nos fez adiar;
Querendo também satisfazer aos votos de muitos de nossos colegas no episcopado e de um grande número de pessoas respeitáveis que não pertencem à nossa diocese;
Depois de invocar a luz do Espírito Santo e a assistência da Virgem Santíssima
Temos declarado e declaramos o seguinte:
Art. 1. Julgamos que realmente apareceu Maria Imaculada, Mãe de Deus, a Bernardete Soubirous em 11 de fevereiro de 1858 e nos dias seguintes, por dezoito vezes, na gruta de Massabielle, perto da cidade de Lourdes, e que essa aparição tem todas as características da verdade, e portanto os fiéis podem considerá-la certa. Submetemos humildemente nosso julgamento ao julgamento do Soberano Pontífice, a quem compete o governo de toda a Igreja.
Art. 2. Permitimos o culto de Nossa Senhora de Lourdes em nossa diocese; mas proibimos ao mesmo tempo qualquer publicação de fórmula particular de oração, qualquer cântico ou livro de devoção relativo a esse acontecimento sem nossa aprovação por escrito.
Art. 3. Para conformar-nos à vontade da Virgem Santíssima, manifestada muitas vezes em suas várias aparições, propomos erguer um santuário no terreno da gruta, que se tornou propriedade particular dos bispos de Tarbes.
Essa construção, devido ao terreno íngreme e difícil, exigirá longos trabalhos e grandes despesas. Por isso, para realizar nosso piedoso projeto, precisamos da ajuda dos padres e fiéis de nossa diocese, dos padres e fiéis da França e de outras regiões. Fazemos um apelo ao coração generoso deles, e particularmente a todas as pessoas devotas de todas as nações que professam um culto especial à Imaculada Conceição de Maria Santíssima.
Art. 4. Com confiança, dirigimo-nos aos institutos dos dois sexos consagrados ao ensino da juventude, às congregações das filhas de Maria, às confrarias da Virgem Santíssima e às várias associações piedosas tanto de nossa diocese quanto de toda a França.
Art. 5. Cada paróquia, corporação, estabelecimento, comunidade religiosa, confraria ou pessoa que oferecer por si mesma ou por meio de doações que tenha arrecadado, uma soma de 500 francos ou mais, terá o título de fundador do santuário da gruta de Lourdes.
Se as doações oferecidas forem de 20 francos ou mais, o título será de benfeitor principal.
Os nomes dos fundadores e benfeitores principais serão enviados a nós junto com as ofertas; serão diligentemente conservados em um registro destinado a isso; além disso, serão depositados em um coração de prata dourada, que será colocado no altar-mor do santuário.
Toda semana e perpetuamente serão celebradas neste santuário, às quartas-feiras, duas missas pelos fundadores e benfeitores principais; às sextas-feiras, será celebrada uma missa por todos aqueles que, com suas ofertas, mesmo que mínimas, contribuíram para essa construção.
Não é sem um propósito particular de amor e misericórdia que a Santa Virgem pediu a ereção neste lugar de um santuário em sua honra. Não há dúvida, portanto, de que as pessoas que contribuírem com suas doações para a construção deste monumento receberão em troca algum favor notável, tanto na ordem espiritual quanto na temporal.
Art. 6. Um grande número de pessoas, tanto de nossa diocese quanto de várias partes da França, e também estrangeiros, obtiveram graças notáveis na gruta de Lourdes; muitos nos prometeram enviar sua oferta assim que se tratasse de erguer um santuário neste lugar. Informamos que o momento chegou. Pedimos também que recomendem a obra da Gruta às pessoas de seu conhecimento e que se encarreguem, se necessário, de seus dons voluntários para enviá-los a nós.
Art. 7. Será nomeada uma comissão composta por sacerdotes e leigos para supervisionar, sob nossa presidência, o uso dos fundos.
Esta nossa carta pastoral será lida e publicada em todas as igrejas, capelas e oratórios dos seminários, colégios e hospitais de nossa diocese, no domingo seguinte ao seu recebimento.
Dada em Tarbes, em nosso palácio episcopal, com assinatura feita de próprio punho, com nosso selo e contrasselo de nosso secretário, em 18 de janeiro de 1862.

† BERTRANDO SEVERO
Bispo de Tarbes.

FOURCADE
cônego secretário.

A aparição de Lourdes
(11 de fevereiro de 1858)

Alegra-te, ó França! São apenas dois lustros
Que o Eterno realiza em ti coisas excelsas:
A Bendita cheia de toda graça
Aos pastorezinhos de Salette primeiro,
Depois, por um caminho que leva aos Pirineus,
Por dezoito vezes Ela apareceu
A uma humilde donzela de catorze anos
Que se chama Bernardete Soubirous.

Numa manhã rigorosa de fevereiro
Colhia lenha do Cave às margens,
Quando lhe pareceu que uma brisa repentina
Agitava as folhas atrás dela:
Virou-se, e viu uma visão divina
Que alegria e temor em seu peito infundia,
De modo que começou a rezar o Rosário
Temendo uma ilusão diabólica.

Quem ela fosse não sabia bem
A ignorante menina venturosa:
Só soube quando Ela lhe disse:
“Eu sou a Imaculada Conceição”.
Entretanto recebeu a ordem
De voltar por quinze dias
Àquela gruta escura de Massabielle
Onde brilhava a egrégia figura.

Lá, entre uma multidão reverente,
Humilde em tanta glória ela retornava:
Vestida de branco, bela e sorridente
Nossa Senhora de novo lhe aparecia;
E a um sinal Seu, prodigiosamente
Brotava uma fonte de água viva,
Que deu saúde aos doentes,
Mesmo já desenganados pelos médicos.

Tentou desmentir os grandes prodígios
A multidão de descrentes, louca de raiva:
Ameaçou Bernardete e seus parentes,
Recorreu ao engano, à violência:
Mas Deus conteve os povos agitados
Contra a tolice e prepotência ateias:
A dura prova cessou; brilhou mais bela
A virtude dos prodígios e da serva.

Roma colocou o selo de sua sanção:
Daí um afluxo de inúmeras pessoas
Ao local da santa aparição;
Para afastar os males sempre iminentes
Todo o melhor da nação gaulesa
Ali convergiu, cumpriu votos ardentes;
E para obedecer à Mãe divina
Surgiu um templo onde apareceu a Bernardete.

Dos infortúnios da Igreja e da França
Se em Salette, ó Maria, pronunciastes,
O sorriso de Lourdes prenuncia também
Seu triunfo tão desejado,
Removidas aquelas más cisões
Que têm o Templo e o Trono inimigos:
E nosso coração ao teu coração, ó Maria,
Será eternamente agradecido.

Mas devemos lembrar que se em Salette
Nos foi sugerido o arrependimento,
Um lembrete semelhante Maria nos deu
Na aparição celeste de Lourdes.
Penitência! Deus está atento;
Penitência! exclamou com vivo acento.
À Mãe de Deus prestemos obediência,
E abracemos os caminhos da penitência!

D. G. Zambaldi

Apêndice. Graças obtidas por meio de Maria Auxiliadora
      Não só na França, mas em toda a Cristandade Deus se agrada nestes tempos em conceder graças muito especiais por intercessão de Maria Santíssima.
Temos uma prova evidente em Turim, na Igreja de Maria Auxiliadora, anexa ao Oratório de São Francisco de Sales, em Valdocco. Não passa dia sem que alguém se apresente na sacristia ou ao Diretor do Oratório para contar favores, curas, graças de todo tipo, obtidas após tríduos ou novenas, ou orações feitas em honra da Bem-Aventurada Virgem, invocada sob o título de Auxílio dos Cristãos. Entre muitos fatos que poderíamos relatar, escolhemos alguns mais recentes que aqui expomos para estimular cada vez mais os fiéis à confiança na grande Mãe de Deus.

Num domingo de maio de 1873, a senhora Maria Vaschetti, não pôde ir à igreja e participar das celebrações religiosas por causa de seus incômodos de saúde. Ficou sozinha em casa, rezando perto do fogão. Enquanto estava sentada, uma faísca saltou sobre sua roupa, sem que ela percebesse, a não ser quando já se tinha transformado em uma chama. Assustada, começou a correr pela casa, o que facilitou que a chama aumentasse ainda mais. Já estava sendo envolvida pelo fogo e quase desmaiando, quando, estarrecida, levantou os olhos para a janela, viu ao longe a estátua de Maria Auxiliadora que está no alto da Igreja de Valdocco, dado que sua residência ficava ali perto. A pobre mulher, naquele apuro, levantou as mãos suplicantes em direção à estátua e exclamou: “Maria Auxiliadora, a Senhora vai permitir que uma vossa serva devota morra dessa maneira tão triste?” (Ela havia sido uma das piedosas benfeitoras que contribuíram para a construção daquela igreja). Apenas ditas estas palavras, como se derramassem sobre ela água fresca, conforme depois relatou, de repente viu-se livre das chamas e de todo perigo. Pouco depois chegou o irmão e, ao vendo-a tão abatida, perguntou-lhe o motivo. Então a piedosa senhora lhe contou que, por um verdadeiro milagre de Maria Auxiliadora, tinha escapado de uma morte horrível. Mais tarde veio até a igreja agradecer à Bem-Aventurada Virgem Maria, e pediu que o fato fosse divulgado em ação de graças e para exaltação de Nossa Senhora, honrada sob o título de Auxílio dos Cristãos. (MBp X, 88).

Um médico, muito estimado na sua profissão, mas incrédulo e indiferente em questão de Religião, se apresentou um dia ao Diretor do Oratório de São Francisco de Sales e lhe diz:
– Ouvi dizer que o senhor cura todo tipo de doença.
– Eu? Não!
– No entanto foi o que me garantiram, citando inclusive o nome de pessoas e o tipo de doenças.
– O senhor foi enganado. Acontece, sim, que seja frequente venham a mim pessoas para obter essas graças para si ou para os seus conhecidos por intercessão de Maria Auxiliadora. Fazem tríduos ou novenas ou orações com alguma promessa a cumprir por graça recebida, mas nesses casos as curas acontecem pela obra de Maria Santíssima, não por mim.
– Pois bem, cure também a mim, e eu acreditarei nesses milagres.
– De que doença o senhor está sofrendo?
O médico começou a contar que sofria de epilepsia. Que, particularmente de um ano para cá, os ataques eram tão frequentes que não tinha mais coragem de sair de casa, sozinho. De nada valeram todas as curas. Ele, vendo que piorava sempre mais, procurou Dom Bosco na esperança de obter, como tantos outros, a cura.
– Então, disse-lhe o Diretor, faça como os outros fazem. Ponha-se de joelhos, recite comigo algumas orações, disponha-se a purificar sua alma com os Sacramentos da Confissão e da Comunhão e verá que Nossa Senhora o consolará.
– Ordene-me outras coisas, mas o que me pede não posso fazer.
– Por quê?
– Porque de minha parte seria uma hipocrisia. Eu não acredito em Deus, nem em Nossa Senhora, nem em orações, nem em milagres.
O diretor ficou consternado. Todavia, tanto falou que, ajudado pela graça de Deus, o médico se pôs de joelhos e recitou algumas orações com o dito sacerdote. E, feito o Sinal da Cruz, levantando-se, disse: – Admira-me de que ainda saiba fazer este sinal; faz quase quarenta anos que deixei de fazer!
Prometeu que haveria de se confessar.
De fato, manteve a palavra. Apenas confessado, sentiu-se internamente curado e nunca mais teve ataques de epilepsia, enquanto, conforme seus familiares, os ataques eram tão frequentes e terríveis que sempre temiam acontecer algum acidente.
Algum tempo depois, veio à igreja de Maria Auxiliadora, recebeu os Santos Sacramentos e foi à sacristia, e disse aos parentes lá reunidos:
Deem glória a Deus. A Virgem Maria me obteve a saúde da alma e do corpo; e da incredulidade me conduziu à fé cristã, na qual eu tinha praticamente naufragado. (MBp X, 87-88)

No dia 24 de maio de 1873, precisamente na solenidade de Maria Auxiliadora, um jovem oficial se apresentou ao Diretor do Oratório, com o rosto vincado pela dor e palavras entrecortadas pelas lágrimas; contou-lhe que em casa tinha a esposa em fim de vida por causa de cruel e prolongada enfermidade; e suplicava, o mais que podia e sabia, para que se alcançasse de Deus a graça da cura de mulher. O diretor dirigiu-lhe palavras de compreensão e conforto, aproveitando as boas disposições em que se encontrava naquele momento o coração do oficial; convenceu-o a se ajoelhar e recitar algumas orações a Maria Auxiliadora pela saúde da esposa em fim de vida; depois disto despediu-se dele.
Tinha passado apenas uma hora e o oficial voltou apressadamente, com o rosto radiante e todo feliz, querendo falar com o Diretor do Oratório. Explicou-se a ele que naquele momento o Diretor estava se encontrava com benfeitores da casa, reunidos por ocasião daquela solenidade, e que não era possível falar com ele…
– Digam-lhe meu nome, respondeu o oficial: tenho necessidade absoluta de falar-lhe só uma palavra.
O Diretor, informado do pedido insistente, foi até o oficial. Apenas este o viu, comovido pela alegria e radiante de felicidade, lhe disse:
– Logo que saí daqui, corri para casa. Oh! Prodígio! Minha mulher, que eu tinha deixado quase à morte, de repente sentiu cessar as dores, e voltar as forças; pediu para se vestir, e, quando entrei, ela veio ao meu encontro, fraca sim, mas completamente curada.
E continuando a narrar a emoção provada naquele momento, tirou do bolso um rico bracelete de ouro e disse: – “Este é o presente de casamento que dei à minha mulher; agora nós dois o oferecemos de todo coração a Maria Auxiliadora, de quem testemunhamos ter recebido uma cura inesperada.”
O Diretor, poucos minutos depois reentrava onde estavam reunidos os benfeitores e, mostrando-lhes o bracelete, disse: – “Aqui está um sinal de gratidão por graça recebida hoje mesmo por intercessão de Maria Auxiliadora, de quem celebramos a solenidade!” (MBp X, 986-987)
Enquanto estas últimas páginas estavam sendo impressas, numa vila do Piemonte ocorreu o seguinte fato. Um dos bois de um camponês adoeceu e em poucos dias piorou tanto que o veterinário considerou desesperada sua cura. Com os preços exorbitantes que tais animais custam hoje em dia, o camponês logo mediu a grandeza da desgraça que estava para atingi-lo; e, sem mais esperança nem meios humanos, voltou-se para Maria Auxiliadora, prometendo-lhe uma oferta, caso o boi se curasse. Para confirmar tal promessa, enviou uma carta ao Diretor deste Oratório, pedindo sua bênção. A carta mal chegou ao seu endereço e o boi começou a melhorar e ontem (8 de dezembro de 1873) chegou a oferta prometida por aquele honesto camponês, confirmando que o animal estava perfeitamente curado, para surpresa de todos, especialmente do veterinário.

Com permissão da Autoridade Eclesiástica.

Turim, Tipografia e livraria do Oratório de São Francisco de Sales, 1873.
Propriedade do editor, à venda também na Livraria do Asilo de São Vicente de Paulo em Sampierdarena.