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Para conhecer Dom Bosco, talvez seja preciso colocar lado a lado juízos contrastantes, vozes da Igreja e as palavras do próprio santo. Entre elogios entusiasmados, ironias corrosivas e análises históricas, emerge um perfil complexo e profundamente humano, distante tanto da hagiografia ingênua quanto da crítica preconceituosa. A santidade de Dom Bosco é, assim, restituída em sua autenticidade: não se baseia na grandiosidade de suas obras ou em carismas extraordinários, mas em uma vida interior rica, em virtudes vividas no cotidiano e em uma humildade sincera. Um retrato que ajuda a compreender por que a Igreja o reconheceu como pai, mestre e santo da juventude.
O que não foi dito ou escrito sobre Dom Bosco desde a sua época? Para o bem, naturalmente, e, às vezes, também para o mal! Sobre ele, sobre seus projetos.
Aos sacerdotes de Turim que se preocupavam com o «zelo excessivamente empreendedor» de Dom Bosco, São José Cafasso respondia: «Deixem-no trabalhar, deixem-no trabalhar!» (MBp II, 299).
Em meados do século XIX, uma revista protestante emitiu juízos nada lisonjeiros sobre as publicações populares do padre de Valdocco, conhecidas como «Leituras Católicas». Eis um exemplo: «Mas, caro Dom Bosco, quem você quer que acredite, se diz coisas tão absurdas? […]. Quando se dizem disparates tão colossais, é preciso ter o talento de saber dizê-los para não cair no ridículo» («La Buona Novella», 2.12.1853, p. 71).
Ao mesmo tempo, um periódico católico de grande prestígio, em sua coluna «Crônica contemporânea», relatava a opinião de um correspondente seu dos Estados Sardos, que as definia assim: «Livretos de pequeno volume, cheios de sólida instrução, adaptados à capacidade do povo simples e tudo muito oportuno para estes tempos: eis o mérito destas «Leituras Católicas»» («La Civiltà Cattolica», Ano IV, 2ª série, Vol. 3°, Roma, 1853, p. 112).
Se folheássemos certas edições dos jornais anticlericais e satíricos de Turim da época, encontraríamos piadas mordazes sobre o «Senhor Dom Bosco… o famoso santarrão». Bastaria consultar «La Gazzetta del Popolo» ou «Il Fischietto» daqueles anos para perceber; para depois descobrir o que jornais católicos como «L’Armonia» e «L’Unità Cattolica» diziam em seu louvor.
Também em nossos tempos a crítica não faltou, nem a séria, feita por estudiosos competentes, nem a preconceituosa e vulgar, que tem o único mérito de manifestar preconceito e má-fé. Por outro lado, a própria hagiografia moderna, mais do que a figura mística ou ascética dos santos, busca a sua figura humana.
«Queremos descobrir nos santos aquilo que nos une a eles, em vez daquilo que nos distingue deles; queremos trazê-los ao nosso nível de gente profana e imersa na experiência nem sempre edificante deste mundo; queremos encontrá-los como irmãos em nossa fadiga e talvez até em nossa miséria, para nos sentirmos em confiança com eles e partícipes de uma comum e pesada condição terrena» (Paulo VI, 3.11.1963).
Não é à toa que houve quem escrevesse com mal disfarçada ironia: «Hoje, para ser bem aceito pelos leitores, não convém talvez encontrar defeitos e culpas nos santos e nas santas?» (A. RAVIER, Francisco de Sales. Um sábio e um santo, Milão, Jaca Book, 1987, p. 10).
O que a Igreja disse de Dom Bosco
Em 1929, Dom Bosco foi proclamado Beato e, em 1934, declarado Santo pela Igreja. Em abril de 1929, o salesiano P. Eusébio Vismara teve a oportunidade de conversar com o Abade de São Paulo fora dos Muros em Roma, que mais tarde se tornaria Arcebispo de Milão, o Beato Cardeal Ildefonso Schuster.
Sabendo que ele havia sido Consultor nas Congregações que examinaram a heroicidade das virtudes de Dom Bosco, permitiu-se perguntar-lhe se os membros daquelas Congregações não teriam ficado subjugados e determinados a se pronunciar favoravelmente sobre Dom Bosco pela imponência de sua obra e pelos dons sobrenaturais que o acompanharam.
– Não – respondeu-lhe o então Dom Schuster, – antes de tudo, isso nem sequer foi levado em consideração, foi descartado a priori; porque tudo isso é externo e, mesmo que seja sobrenatural, pode ser um puro dom carismático; não é virtude, não é santidade, que é um fato totalmente interior.
E acrescentava, manifestando sua admiração pela santidade de Dom Bosco:
– Talvez vocês mesmos não conheçam plenamente toda a riqueza de virtude e de vida interior que animava Dom Bosco (BS, abril-maio de 1934, p. 143).
Dom Bosco foi um homem como todos os outros, é verdade, mas não no sentido que a imprensa adversária por vezes o descreveu. Homem de seu tempo, não foi sua vítima, mas protagonista e, sem muitas fórmulas, soube obter com seu exemplo iluminador, com a simplicidade de sua linguagem, de seus gestos e de suas ações, uma eficácia educativa que transcendeu seu tempo. Intrépido e imperturbável porque se sentia inspirado e sustentado pelo Alto, foi um homem de grande fé e de grande coração. Soube, com uma síntese genial e um estilo todo seu, traçar um caminho para a santidade juvenil. Não é à toa que, no centenário de sua morte, João Paulo II o proclamou: «Pai e Mestre da juventude».
O que Dom Bosco dizia de si mesmo
No entanto, Dom Bosco, em sua grande humildade, sempre se considerou apenas «um pobre filho de camponeses» (MBp X, 238), que a misericórdia de Deus elevou ao grau de sacerdote sem nenhum mérito de sua parte, «um mísero instrumento nas mãos de um artista habilíssimo» (BS, agosto de 1883, p. 127).
Uma noite, ele terminou de confessar na igreja quando a comunidade de Valdocco já havia terminado de jantar. Foi então ao refeitório. O salesiano coadjutor José Dogliani, que alternava as aulas de música com o serviço à mesa, pediu o jantar para ele. O cozinheiro, irritado com o atraso, mandou um prato de arroz passado e frio. A Dogliani, que ousou dizer-lhe: «Mas é para Dom Bosco!», o outro, cansado do trabalho pesado daquele dia, deixou escapar uma resposta ríspida:
– E quem é Dom Bosco? É como qualquer outro da casa.
Dogliani, humilhado, apresentou o prato e se retirou. Mas o clérigo Valentino Cassini, que mais tarde se tornou missionário na América, não conseguiu se conter e relatou a Dom Bosco as palavras insensatas. Este, sem pestanejar, com toda calma, comentou:
– O cozinheiro tem razão! (MBp XI, 225).
Em 1883, Dom Bosco, acompanhado pelo P. Miguel Rua, fez uma viagem memorável a Paris. Durante o retorno de trem, após aqueles dias trabalhosos, ambos descansavam em meditação pensativa. O bom Pai havia sido entusiasticamente honrado e aplaudido por todas as classes de pessoas. A Virgem Santíssima havia operado maravilhas por meio dele. Um triunfo semelhante na Paris daqueles anos era algo inimaginável.
Finalmente, Dom Bosco quebrou o silêncio:
– Que coisa singular! Você se lembra, P. Rua, da estrada que leva de Buttigliera a Morialdo? Lá, à direita, há uma colina e na colina uma casinha, e da casinha até a estrada desce pela encosta um prado. Aquela pobre casinha era a minha morada e a de minha mãe; naquele prado, eu, menino, levava duas vacas para pastar. Se todos aqueles senhores soubessem que levaram em triunfo um pobre camponês dos Becchi, hein? Brincadeiras da Providência! (MBp XVI, 205)
Eis quem era Dom Bosco!

