13 Mai 2026, Qua

Carlos Braga levou o coração de Dom Bosco para a China

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A figura de Dom Carlo Braga (1889–1971) ocupa um lugar singular na história missionária salesiana do século XX. Sacerdote animado por um profundo amor a Dom Bosco e por um extraordinário zelo apostólico, ele levou o espírito salesiano dos vales da Lombardia até os vastos horizontes da Ásia. Na China, especialmente entre os jovens pobres e abandonados, soube encarnar o carisma educativo de Dom Bosco com criatividade, coragem e confiança na Providência. Educador, missionário e guia espiritual, foi protagonista do desenvolvimento das obras salesianas na China e, após a tempestade da revolução comunista, contribuiu também para o nascimento da presença salesiana nas Filipinas. Sua vida permanece um testemunho de dedicação missionária e de autêntica santidade salesiana.

 

 

  1. Uma amizade totalmente salesiana

Poucos dias antes de morrer (3 de janeiro de 1971), falando aos noviços de Canlubang (Filipinas), o coração do P. Carlos saltava de nostalgia. Ele se via como um menino em Sondrio, no Instituto Salesiano: tinha sido encarregado de cuidar do pequeno quarto do padre Rua, primeiro sucessor de Dom Bosco, que estava de passagem por aquela cidade. Apresentou-se a ele com alegria e o P. Rua pegou suas mãos e, segurando-as com força, sussurrou em um timbre de voz inesquecível: “Carlos, Carlos, estaremos sempre juntos”. Aquele olhar penetrou em sua alma como um raio de luz.

 

  1. Da Itália para a China

Nascido em Tirano, na província de Sondrio, em 23 de maio de 1889, ficou órfão de mãe quando criança. Gostou do ambiente familiar que vivenciou na casa salesiana de Sondrio; afeiçoou-se a Dom Bosco e à sua missão e decidiu ficar com ele para sempre. Aos dezessete anos emitiu os votos religiosos em Turim; completou os estudos de filosofia no Liceu Turim-Valsalice, onde teve como professores o P. Cimatti, futuro apóstolo do Japão, e o P. Cojazzi, conhecido apóstolo dos jovens. Nesse meio tempo, a guerra estava ocorrendo na Itália; o jovem Carlos Braga recebeu uma convocação militar e foi enviado para a frente de batalha: três anos de vida dura e arriscada nas trincheiras. No final da guerra, ele apanhou a epidemia de gripe espanhola: fez um voto a Maria Auxiliadora de que, se ficasse curado, partiria para a China como missionário. Chegou a Shiu Chow, no sul da China, o bispo salesiano e primeiro mártir, Dom Luís Versiglia, que imediatamente percebeu os dons educativos do P. Braga e lhe confiou a direção da “Don Bosco Middle School” [Escola Média Dom Bosco]. O P. Braga realizou ali todas as suas atividades pedagógicas, musicais, educativas e recreativas. Fez dela um viveiro de vocações, um campo de provas para o lançamento de missionários na frente estável do Reino de Deus, um lugar para catequistas chineses em aldeias pagãs.

 

  1. Inspetor salesiano

O P. Braga, aos 40 anos de idade, é chamado para substituir o inspetor salesiano P. Canazei, que foi eleito bispo. O novo inspetor literalmente explode de zelo missionário: conhece a língua e os costumes chineses, tece uma densa rede de amizades e conhecidos, usa os belos dons que o Senhor lhe deu, ama os jovens como poucos e está imbuído até os ossos de otimismo e espírito salesiano. As missões salesianas na China, sob sua direção, conheceram uma repentina idade de ouro e um florescimento exuberante: o orfanato e as escolas em Macau, em Hong Kong foram construídas cinco grandes e ultramodernas escolas com uma população escolar de cerca de 10.000 alunos.

Com coragem, foi para o norte da China e implantou a obra salesiana na capital Pequim: a obra é para os órfãos, para os meninos pobres e abandonados que, naqueles anos, perambulavam pelas ruas em grande número ou morriam de fome. Em Pequim, realizou-se o sonho profético de Dom Bosco, que tinha visto os salesianos se estabelecerem naquela vasta capital muitos anos antes.

 

  1. Uma lâmpada que arde e que brilha

Ele já era inspetor havia vinte anos quando a tremenda tempestade comunista se abateu sobre a China. O P. Braga se viu no olho da tempestade. O comunismo varreu tudo. Por sugestão do Reitor-Mor, P. Pedro Ricaldone, o P. Braga desvia seu trabalho para o sudeste asiático e, em três anos, inicia o trabalho salesiano nas Filipinas. Ele incentiva a bondade e a alegria onde quer que vá. Mantém uma santa amizade por todas as famílias de seus coirmãos, benfeitores e alunos. Durante todo o seu longo apostolado, no qual deu vida a tantas instituições, permaneceu sempre pobre, mas teve o dom divino de cercar-se de amigos e benfeitores, tanto na China como nas Filipinas, que, de boa vontade e generosamente, compartilhavam o que Deus lhes havia dado. Ele encanta a todos com sua generosidade e gratidão, ditadas por seu grande coração. Por trás de todas essas qualidades e feitos extraordinários que ele realizou, há um lado desconhecido, mas que, sem dúvida, constitui a força que faz dele o bom padre que todos conhecem: sua união íntima com Deus, seu amor por Jesus, um desejo secreto de se entregar ao Senhor em holocausto.

O P. Braga tem 73 anos e percebe que chegou a hora de reduzir suas atividades. Sua lâmpada, que sempre permaneceu acesa em meio às tempestades, dá uma luz cada vez mais espiritual. Como um simples coirmão, dedicou-se a um trabalho mais refinado: o de confessor dos jovens e diretor espiritual das almas consagradas. Tinha participado de sete Capítulos Gerais da Sociedade Salesiana, levando a eles a sua nota de entusiasmo, alegria e otimismo; conhecia a Congregação como os velhos salesianos da escola de Dom Bosco; tinha sido um pioneiro do Reino de Deus. Portanto, ele podia dizer, sorrindo para os jovens noviços filipinos, que pensava no Paraíso como se já o possuísse.

O Senhor queria que sua morte deixasse a mesma impressão que ele sempre transmitira em vida: sempre alegre, pronto para tudo, observante em seus deveres religiosos e sempre pontual onde quer que o dever o chamasse. E assim, às 5h30 da manhã de 3 de janeiro de 1971, solenidade da Epifania em que se comemora o Missionário de Todas as Nações, esse dinâmico arauto do Evangelho entregou sua alma a Deus.

A Causa de beatificação está em andamento, na convicção de que a Família Salesiana e a Igreja na China e nas Filipinas reconhecem no P. Carlos Braga um exemplo de vida missionária a ser imitado e seguido; um modelo de vida evangélica vivida para o bem dos irmãos e de santidade, sinal da bondade paterna de Deus.

 

  1. Uma testemunha excepcional

«Nós estávamos de pé e ele estava sentado. Minha mãe se sentou na frente dele. Eu permaneci em pé. Minha mãe começou a falar. Em vez de defender seu caso e vender seus produtos da melhor maneira possível, ela começou a advertir o cliente: “Olhe, padre, esse menino não é mais tão bom. Talvez ele não esteja apto a ser aceito aqui. Não quero que o senhor seja enganado. Ah, se o senhor soubesse como me deixou desesperada no ano passado! Eu simplesmente não sabia o que fazer. E se ele o deixar desesperado aqui também, diga-me, e eu virei buscá-lo imediatamente.”

O P. Braga disse que conhecia três dialetos do chinês, mas falava os três todos juntos. Certamente, o xangainês não era seu forte. Em vez de responder, ele me olhava nos olhos. Eu também olhava para ele, mas com a cabeça baixa. Senti-me como um réu em vez de ser defendido por meu advogado. Mas o juiz estava do meu lado. Com seu olhar, ele me entendeu imediatamente e melhor do que todas as explicações de minha mãe. Ele mesmo, escrevendo para mim vários anos depois, aplicou as palavras do Evangelho: “Intuitus, dilexit eum” (“Fixou-o, amou-o”). E, daquele dia em diante, não tive mais dúvidas sobre minha vocação».

É assim que o futuro cardeal José Zen conta seu encontro com o P. Braga e o início de sua história vocacional.

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