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Entre o Oratório de Dom Bosco e São Francisco de Sales houve um vínculo que se consolidou progressivamente. A escolha do santo como padroeiro nasce no ambiente das obras da marquesa Barolo e é compartilhada com os capelães do Refúgio, em um contexto no qual a espiritualidade salesiana já era familiar a Dom Bosco. Pedro Stella fala de afinidade e congenialidade espiritual mais do que de um simples encontro fortuito: Francisco de Sales torna-se para Dom Bosco um modelo de pastor, educador e apóstolo da caridade. Inúmeros documentos oficiais atestam a adoção estável do título “Oratório de São Francisco de Sales”, a celebração de sua festa, os pedidos às autoridades eclesiásticas e civis e as súplicas a Pio IX, que apresentam o Oratório como uma congregação dedicada à educação religiosa da juventude.
Porque se deu um modelo e um mestre.
O vínculo da obra dos catecismos com São Francisco de Sales foi certamente uma iniciativa acordada entre Dom Bosco e os dois capelães do Refúgio, o teólogo Borel e o padre Pacchiotti. Não é algo surpreendente. São Francisco de Sales esteve presente para Dom Bosco tanto no seminário quanto no Colégio Eclesiástico. Além disso, a obra da Marquesa Barolo era particularmente ligada à figura e à espiritualidade do bispo saboiano. Nas Constituições e Regras do Instituto das Irmãs de Santa Ana, a propósito Da meditação, estava estabelecido: “As irmãs seguirão o método de São Francisco de Sales prescrito para a meditação, na segunda parte de sua Introdução à vida devota”. Segundo as Memórias do Oratório, Dom Bosco sabia que “a marquesa Barolo tinha em mente fundar uma Congregação de padres sob este título, e com essa intenção mandara fazer o quadro deste Santo”.
Ao final de um de seus ensaios sobre Dom Bosco e São Francisco de Sales, Pedro Stella se pergunta: “Encontro fortuito ou identidade espiritual?” e responde: “Pelo que dissemos, fica evidente que no início do século XIX o encontro com Carlos Borromeu e Francisco de Sales era obrigatório para todo seminarista, portanto também para Dom Bosco. A passagem para Turim, no Colégio Eclesiástico e depois no âmbito das obras da Marquesa Barolo, contribuiu para amadurecer nele uma espécie de predileção e a transição de um Francisco de Sales modelo de pastores para um Francisco de Sales padroeiro e modelo de educadores. Identidade espiritual? Diria melhor: afinidade, congenialidade e devoção ao Santo intercessor no âmbito da religiosidade tridentina. Tudo isso não exclui o fato de que tenha havido uma abertura virtual para uma espiritualidade mais específica, organizada e vivida segundo os ensinamentos do Santo modelo e mestre”. A essa luz, tornam-se plausíveis também as outras duas motivações apresentadas por Dom Bosco para explicar a denominação dada ao Oratório, quase como uma incumbência para aqueles que ali trabalhavam: assumir como protetor e modelo o santo da mansidão, tanto como educadores de jovens quanto como apologistas do catolicismo contra o proselitismo protestante. Era o que já se depreendia do perfil do apóstolo do Chablais traçado na História Eclesiástica. Nela, ele recordava o que havia acontecido após o Concílio de Trento: “Despertou-se um vivo zelo apostólico em um grande número de operários evangélicos, os quais com seu trabalho e santidade cicatrizaram as feridas feitas pelos hereges à Igreja, e lhe devolveram o fervor dos tempos primitivos. Entre eles, merecem menção principal São Pio V, Santa Teresa, São Carlos Borromeu, São Filipe Néri, São Francisco de Sales, São Vicente de Paulo”. De todos, ele destacava os aspectos pastoral e apologético.
Estes eram reafirmados em particular, com forte ênfase missionária, no perfil dedicado a São Francisco de Sales: “Impelido pela voz de Deus que o chamava a grandes coisas, apenas com as armas da doçura e da caridade, parte para o Chablais. À vista das igrejas derrubadas, dos mosteiros destruídos, das cruzes esfaceladas, todo ele se inflama de zelo e começa seu apostolado. Os hereges gritam, insultam-no e tentam assassiná-lo; ele, com sua paciência, com suas pregações, com seus escritos e com notáveis milagres, acalma todo tumulto, conquista os assassinos, desarma todo o inferno, e a fé católica triunfa de tal modo que, em breve, apenas no Chablais, reconduziu ao seio da verdadeira Igreja mais de setenta e dois mil hereges”.
Após a bênção da capela dedicada ao santo saboiano no Refúgio, não são poucos os documentos que sancionam para o futuro a denominação salesiana do Oratório. Ela aparece logo no pedido, dirigido às autoridades municipais, para utilizar uma sede mais ampla para “uma sociedade de rapazes, que se reúnem todos os domingos e dias de festa em um Oratório sob a proteção de São Francisco de Sales”. A festa de São Francisco de Sales era celebrada: certamente a partir de 1846, se Borel, no Memorial do Oratório, sob a data de 1º de fevereiro, registrava entre as despesas: “Diversos objetos para presentear no dia da festa de São Francisco”. Seguiram-se outras petições coletivas, geralmente com a caligrafia de Borel, dirigidas ao arcebispo ou a outros pelos “sacerdotes dedicados à instrução dos jovens do Oratório de São Francisco de Sales recentemente aberto em Valdocco, fora desta capital”. Em 11 de novembro de 1846, pediam ao arcebispo para poder erigir ali “a santa prática da Via Sacra e, em outra posterior à instalação em Valdocco, solicitavam poder reconverter o oratório anterior a uso profano para utilidade do pequeno hospital de Santa Filomena”; por volta do final de junho, dirigiram-se aos administradores de Turim a fim de obter móveis fora de uso para equipar uma escola dominical para muitos jovens que desejam “aprender a ler e escrever”. No entanto, assinada apenas pelo “Sacerd. Gio. Bosco”, havia uma carta dirigida ao arcebispo em uma data anterior a 18 de dezembro de 1847, na qual “o Padre João Bosco e o Sr. Teólogo Borel, encarregados da direção espiritual do Oratório de São Francisco de Sales, tendo aberto um novo Oratório entre a alameda dos Plátanos e a do R. Valentino ‘Porta Nova’, suplicam a Dom Fransoni “que se digne a delegar o Pároco de Nossa Senhora dos Anjos para a bênção e permitir celebrar a Santa Missa e dar a bênção com o Santíssimo Sacramento, como já havia concedido para o Oratório de São Francisco com seu decreto de 6 de dezembro de 1844”.
De particular relevância era a apresentação que Dom Bosco fazia de si e do Oratório no início de uma súplica dirigida a Pio IX em data anterior a 14 de dezembro de 1848 para pedir a faculdade de distribuir a Santa Comunhão na Missa da meia-noite de Natal: “O P. João Bosco, Diretor do Oratório de São Francisco de Sales em Turim, humildemente expõe à Vossa Santidade que tal Oratório foi erigido naquela cidade com a permissão das Autoridades Eclesiásticas e Civis, e costuma ser frequentado por uma pia assembleia de Jovens, não havendo a participação de pessoas de sexo diferente”.
A apresentação de São Francisco de Sales como titular do Oratório atingia seu ápice em súplicas dirigidas a Pio IX, todas datadas de 28 de agosto de 1850, com o objetivo de obter indulgências, as duas primeiras, e a faculdade de benzer terços, crucifixos e medalhas indulgenciados, a terceira. Nelas, aparecia o uso sinônimo dos termos congregação e oratório. Congregação podia indicar tanto aqueles que se reuniam nos oratórios individuais, quanto o grupo de eclesiásticos e leigos que ali se empenhavam em promover as várias atividades, ou, mais adequadamente, o conjunto de ambos.
“O Sacerdote Turinense João Bosco – estava escrito numa das súplicas – obsequiosamente expõe a Vossa Santidade ter sido legitimamente erigida naquela cidade uma Congregação sob o título e proteção de São Francisco de Sales, da qual ele é Diretor e que não tem outra finalidade senão instruir na religião e na piedade a juventude abandonada”: eram pedidas várias indulgências para os “agregados” e, enfim, uma “Indulgência parcial de 300 dias a ser lucrada por todos os que ainda não agregados participem da procissão que se costuma fazer no primeiro domingo de cada mês do ano em honra do acima mencionado santo”.
Pedro BRAIDO. Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade, v. 1., p. 194

