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Vitral de São Francisco de Sales, Igreja de São Nicolau (Église Saint-Nicolas), Combloux, Alta Saboia, França. Final do século XIX – início do século XX (shutterstock.com)
Em 1859, quando João Bosco fundou a Sociedade de São Francisco de Sales – aquela que o mundo conheceria como a Congregação Salesiana – a escolha do padroeiro não foi casual nem puramente devocional. Era a declaração de uma profunda afinidade espiritual, amadurecida através da leitura, meditação e confronto com os escritos do bispo de Genebra. Uma afinidade que Dom Bosco havia transformado em estilo de vida, em pedagogia, em método pastoral.
Não sabemos com certeza o momento exato em que João Bosco encontrou pela primeira vez os escritos de Francisco de Sales. Sabemos, porém, que os leu com atenção e com aquela sua capacidade única de fazer sedimentar na memória aquilo que respondia às mais verdadeiras exigências de sua vocação.
O ponto de convergência mais imediato entre os dois santos é a centralidade da caridade, entendida não como um sentimento vago, mas como um princípio operativo. Francisco de Sales havia construído toda a sua teologia espiritual em torno do amor de Deus que se torna amor pelas almas, com uma doçura que não exclui o rigor, mas o transforma por dentro. Sua célebre afirmação – que se apanham mais moscas com uma colher de mel do que com um barril de vinagre – era para Dom Bosco muito mais do que um aforismo: era a síntese de toda uma visão do homem.
No Sistema Preventivo, elaborado por Dom Bosco como resposta concreta às necessidades dos jovens pobres e abandonados de Turim, essa intuição se traduz em uma abordagem educativa que precede a culpa em vez de puni-la, que acompanha em vez de vigiar, que persuade em vez de forçar. O educador salesiano não é o guardião de regras, mas a testemunha de uma presença amorosa. Dom Bosco escrevia que o jovem não deve apenas ser amado, mas saber que é amado. Aqui vibra a mesma corda que havia feito de Francisco de Sales o diretor espiritual por excelência de seu tempo: a certeza de que a alma se abre à graça quando se sente acolhida, não quando é julgada.
Um segundo elemento fundamental da herança salesiana que Dom Bosco fez sua é a chamada dévotion – a devoção como qualidade da vida cotidiana acessível a todos, não reservada a monges e contemplativos. Francisco de Sales havia revolucionado a espiritualidade de seu tempo ao afirmar que cada estado de vida – o comerciante, o soldado, o pai de família, a esposa – é lugar de santidade se vivido com amor e reta intenção. A santidade não é fuga do mundo, mas transfiguração do mundo.
Dom Bosco respirou esse princípio e o aplicou com genialidade pastoral ao ambiente juvenil. Seus rapazes não deviam se tornar santos apesar dos jogos, das corridas, dos pátios barulhentos do oratório: deviam se tornar santos através de tudo isso. O modelo de Domingos Sávio – adolescente comum e, no entanto, capaz de uma vida interior heroica – é a mais bela transposição dessa intuição salesiana: a santidade como alegria, como plenitude de vida, como resposta grata ao amor de Deus na concretude do cotidiano.
Quando Dom Bosco escolheu dedicar sua congregação a Francisco de Sales, não estava simplesmente prestando homenagem a um grande santo. Estava declarando que aquele espírito – feito de humanidade, de otimismo sobrenatural, de confiança na bondade original do homem e na graça que a restaura – era o espírito que queria transmitir a seus filhos espirituais. A congregação que levava o nome de Francisco de Sales levaria, com o tempo, também o seu rosto.
Dom Bosco publicou em 1885 “O Jovem Instruído” (uma espécie de manual de formação espiritual destinado à juventude), no qual incluía cerca de quarenta máximas extraídas dos escritos de São Francisco de Sales. Não se tratava de uma homenagem erudita, mas de um gesto revelador: Dom Bosco havia encontrado neste santo palavras que podiam educar o coração dos jovens, palavras que já eram suas antes mesmo de citá-las. Publicamo-las a seguir.
1. É uma grande sorte para a juventude ter alguém que vele por ela, porque nessa idade o amor-próprio cega a razão.
2. Acostumai-vos a ter um coração humilde e maleável, fácil de condescender nas coisas lícitas. Assim se adquire a verdadeira caridade.
3. Quando a cólera vos tiver arrebatado contra alguma pessoa, reparai o mais rápido possível essa falta com algum ato exterior de mansidão para com a mesma pessoa.
4. Amai a todos com caridade; mas vossas amizades sejam apenas com pessoas que possam vos ajudar na aquisição das virtudes.
5. Cuidai para não zombar, gracejar e ofender o vosso próximo. Pouco é preciso para desprezá-lo e odiá-lo mortalmente.
6. Tomai por regra nunca censurar a devoção e a conduta alheia. Este modo de ofender a caridade é de muito prejuízo.
7. Antes de julgar o vosso próximo, imaginai que vós sois ele e ele sois vós, e vos asseguro que julgareis retamente e bem.
8. Falai o menos possível de vós mesmos, seja para o bem, seja para o mal; porque o amor-próprio costuma cegar mesmo quando se fala mal de si próprio.
9. Não faleis de Deus e do que diz respeito ao serviço divino por recreação e brincadeira; mas sempre com humilde reverência e submissão.
10. Vosso falar seja pouco e doce, pouco e bom, pouco e sincero, pouco e amável.
11. É um ato de caridade gritar contra o lobo quando se aproxima das ovelhas; assim não se deve calar quando os inimigos de Deus e de sua Igreja podem fazer algum mal.
12. Que o mundo grite o quanto quiser, critique, murmure; operando-se o bem, tudo se escute, se sofra, não se assuste; mas se prossiga com firmeza.
13. Aquelas obras, que são mais contrárias ao nosso gênio e inclinação, são de maior agrado de Deus; e por isso mais proveitosas para nós.
14. Quando vos for imputada alguma falta, da qual não sois culpados, justificai-vos com doçura. Se isso não bastar, não busqueis mais; e contentai-vos em recorrer à humildade e ao silêncio.
15. Guardai-vos das ansiedades, da melancolia e dos escrúpulos; a quem por nada no mundo quereria ofender a Deus, tanto deve bastar para viver alegre.
16. Nesta vida, a paciência deve ser o nosso pão de cada dia, e particularmente conosco mesmos.
17. A maneira de fazer bem cada uma de nossas ações é fazê-la na presença de Deus. Certamente não teremos coragem de fazê-la mal, sabendo que Ele nos vê e observa.
18. Disse mais de uma vez que quem não é humilde, não é casto; e o disse porque Deus costuma permitir a queda em pecados mais vergonhosos, para reprimir e corrigir o orgulho do espírito.
19. Mantenhamo-nos sempre com modéstia, mesmo quando estamos sozinhos, porque estamos sempre na presença de Deus e de seus Santos Anjos.
20. A tentação nunca tem tanta força contra nós como quando nos encontra ociosos.
21. Grande remédio contra as tentações é informá-las com santa franqueza ao próprio Confessor; já que o primeiro pacto que o Demônio procura fazer com a alma é o de calar.
22. Deve-se antes morrer do que deliberadamente pecar; mas depois de ter pecado, antes perder tudo do que a coragem, a esperança e a resolução.
23. Ao Confessor se abra o interior com toda a confiança, da mesma maneira que o filho ao pai, e o enfermo descobre ao médico os seus males.
24. Muitos não fazem nenhum progresso, porque não descobrem com sinceridade ao Padre espiritual aquela paixão, que é a verdadeira raiz de todas as faltas.
25. Tende sempre um verdadeiro pesar dos pecados que confessareis, por menores que sejam, com uma firme resolução de vos emendardes para o futuro.
26. Uma contínua moderação no comer e no beber vale muito mais do que certas rigorosas abstinências.
27. O Demônio não teme as austeridades, mas a obediência.
28. Deus ama tanto a obediência, que prospera e aprova até mesmo os simples conselhos que se recebem dos outros, e particularmente dos Padres espirituais.
29. Nada serve tanto para iluminar o intelecto e inflamar a vontade quanto a oração, especialmente a mental, feita de coração.
30. Aprendei a fazer frequentemente orações jaculatórias e arroubos de coração a Deus.
31. Sede fiéis no pouco, e Deus vos estabelecerá no muito.
32. Nem sempre está em vosso poder fazer coisas grandes; bastem-vos as pequenas coisas que vos são oferecidas a todas as horas. Mas fazei-as com fervor e amor.
33. Um só “Pai Nosso” dito com atenção e de coração vale muito mais do que muitos recitados com pressa e por costume.
34. Uma só Comunhão bem feita é capaz e basta para vos fazer santos e perfeitos.
35. Não negligencieis a ocasião presente de fazer o bem. Às vezes, deixando-se um bem para buscar um melhor, perde-se um e não se encontra o outro.
36. Vós não sois pregadores; mas consolai-vos, que há uma maneira de pregar eficacíssima; e esta é o bom exemplo que se dá ao próximo.
37. Fazei de modo que a vossa devoção se torne amável, a fim de que todos a amem e se animem a praticá-la.
38. Fazei como as abelhas, que sugam mel de cada flor, procurando imitar o que observamos de bom no nosso próximo.
39. Não sejais tão curiosos, que queirais saber tudo; mas não sejais, porém, negligentes em saber o que diz respeito à nossa eterna salvação.
40. Procurai ler todos os dias algum bom livro algo que vos instrua e vos convide à devoção.
(Giovanni Bosco, Il giovane provveduto, Turim, Tipografia e livraria salesiana 1885, pp. 139-141)

