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Existe uma Turim que não corresponde aos cartões-postais barrocos, às avenidas da Casa de Saboia ou às altas qualidades industriais. É uma Turim mais silenciosa, porém tenaz, feita de obras sociais, de santos sociais, de leigos engajados, de instituições nascidas para responder a pobrezas muito concretas. Foi para essa Turim que o cardeal Roberto Repole olhou quando, em janeiro de 2026, lançou uma proposta ao mesmo tempo simbólica e provocadora: candidatar o que ele definiu como o “quilômetro quadrado da caridade” a patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO.
Não se trata de um simples slogan nem de uma operação de marketing territorial. A ideia nasce de uma constatação histórica e urbana: em uma porção relativamente pequena do centro de Turim, concentra-se uma densidade extraordinária de obras de caridade, educativas e assistenciais, nascidas entre os séculos XVIII e XX, muitas das quais ainda ativas hoje. Em poucos quarteirões, entrelaçam-se histórias de congregações religiosas, de filantropos, de educadores, de voluntários, de instituições que marcaram profundamente a identidade social da cidade.
A proposta do cardeal Repole foi lançada em 17 de janeiro de 2026, durante seu discurso na cerimônia de inauguração de uma escultura dedicada à venerável Júlia Barolo no Palácio Barolo, na presença de autoridades civis. Foi quando ele apresentou a ideia de trabalhar no projeto de candidatura à UNESCO para essa área simbólica da cidade, que inclui o Palácio Barolo, a Basílica da Consolata, a Casa Mãe dos Salesianos fundada por Dom Bosco, o Instituto Cottolengo – Pequena Casa da Divina Providência, o Sermig – Arsenal da Paz e o Distrito Social Barolo. Essa proposta nos convida a olhar para esse tecido social não como uma soma de lugares, mas como uma narrativa unificada. Uma narrativa que fala sobre a resposta às necessidades, a proximidade com os pobres, a atenção aos últimos, a capacidade de transformar a fé em estruturas estáveis de solidariedade.
Um patrimônio que não é apenas arquitetônico
Quando se fala em patrimônio da UNESCO, o pensamento logo se volta para monumentos, paisagens, centros históricos. Aqui, a questão é diferente. É claro que muitos dos locais envolvidos têm valor artístico e histórico. Mas o cerne da proposta não está nas pedras, e sim nas práticas sociais que essas pedras abrigaram.
O “quilômetro quadrado da caridade” abrange realidades ligadas a figuras como São João Bosco, São José Bento Cottolengo, a marquesa Júlia Barolo e outros protagonistas do catolicismo social de Turim. Hospitais, casas de acolhida, obras educativas, centros de formação, serviços para pessoas com deficiência, pobres, migrantes: uma rede que, ao longo dos séculos, buscou dar respostas estruturadas a necessidades emergentes.
O cardeal destacou um ponto decisivo: o maior patrimônio da humanidade é a própria humanidade. Nessa perspectiva, o valor a ser reconhecido não é apenas histórico, mas moral e cultural. É o testemunho de que uma cidade pode gerar modelos duradouros de solidariedade, capazes de se renovar com o tempo.
A tradição de Turim da caridade organizada
Turim tem uma longa tradição de caridade organizada. Já no século XIX, enquanto a cidade crescia como capital política e depois como polo industrial, surgiam novas formas de pobreza: migrações internas, trabalho infantil, marginalização urbana. Foi nesse contexto que nasceram muitas das obras que ainda hoje caracterizam a região.
A resposta não foi apenas assistencialismo, mas frequentemente um planejamento social: educação profissional, formação humana, reinserção no mercado de trabalho, cuidado integral da pessoa. Nesse sentido, a caridade de Turim teve também uma dimensão pedagógica e social, antecipando modelos que hoje chamaríamos de bem-estar comunitário.
O “quilômetro quadrado” torna-se, então, uma espécie de laboratório histórico da doutrina social cristã e, de forma mais ampla, de uma cultura cívica de solidariedade. Um lugar onde se experimentou que o cuidado com os mais frágeis não é uma atividade marginal, mas um componente estrutural da vida da cidade.
Uma proposta que interpela o presente
A candidatura à UNESCO, se vier a se concretizar, certamente teria um valor simbólico e turístico. Mas seu alcance mais interessante talvez seja outro: forçar a cidade – e não só ela – a se questionar sobre o presente.
O que resta hoje daquela tradição? As obras históricas ainda são capazes de interpretar as novas necessidades? A pobreza contemporânea, muitas vezes mais oculta e complexa, encontra respostas adequadas? E mais: a solidariedade é percebida como um patrimônio comum ou é delegada a alguns poucos especialistas?
A proposta do cardeal Repole pode ser lida como um convite a não “musealizar” a caridade. Reconhecer um patrimônio não significa embalsamá-lo, mas valorizá-lo como uma realidade viva. Um “quilômetro quadrado da caridade” só faz sentido se a caridade continuar a ser praticada, repensada e tornada relevante para os desafios atuais: solidão urbana, fragilidades juvenis, novas pobrezas laborais, imigração, envelhecimento da população.
O diálogo entre a Igreja e as instituições civis
Um elemento interessante da proposta é o envolvimento das instituições civis. A presença de autoridades locais na apresentação da ideia indica que o tema da solidariedade pode se tornar um campo de colaboração entre a Igreja e as administrações públicas.
Historicamente, muitas obras de caridade nasceram no âmbito eclesial, mas depois dialogaram com o setor público, integrando-se aos sistemas de bem-estar social. Hoje, em um contexto de recursos limitados e necessidades crescentes, a colaboração entre entidades religiosas, leigas e institucionais é cada vez mais crucial.
A candidatura à UNESCO, nesse sentido, poderia se tornar uma oportunidade para o codesenvolvimento de projetos: não apenas a proteção do passado, mas o investimento em políticas sociais inovadoras. Caso contrário, o risco é que tudo se reduza a uma operação comemorativa.
Uma narrativa alternativa da cidade
Toda cidade escolhe como se apresentar. Turim é frequentemente narrada através da indústria automobilística, da inovação tecnológica, da cultura dos museus. O “quilômetro quadrado da caridade” propõe uma narrativa complementar: Turim como a cidade da caridade organizada.
Não é um detalhe secundário. As narrativas influenciam as prioridades. Se uma cidade reconhece a solidariedade como parte de sua identidade, talvez se torne mais inclinada a investir no social, a apoiar o voluntariado, a valorizar o terceiro setor.
Além disso, em uma época em que as cidades competem globalmente para atrair recursos e atenção, propor a solidariedade como um elemento distintivo é uma escolha contracorrente, mas potencialmente poderosa.
Além de Turim: uma mensagem universal
Embora enraizada em um contexto local, a proposta tem um alcance mais amplo. Muitas cidades no mundo têm lugares simbólicos de caridade e engajamento social. Reconhecer seu valor cultural significa afirmar que o cuidado com os frágeis não é apenas um fato privado ou religioso, mas um bem para toda a humanidade.
Nesse sentido, o “quilômetro quadrado da caridade” poderia se tornar um modelo narrativo: não apenas locais de poder, beleza ou riqueza, mas também lugares de solidariedade como patrimônio da humanidade.
É uma perspectiva que dialoga com as sensibilidades contemporâneas: sustentabilidade social, inclusão, direitos humanos. A caridade, relida em uma chave moderna, aproxima-se dos temas da justiça social e da coesão comunitária.
Uma provocação fecunda
Resta saber se a candidatura à UNESCO tomará forma concreta. Os processos são longos e complexos. Mas, independentemente do resultado, a proposta já tem um mérito: recolocar no centro o tema da solidariedade como um valor público.
Em uma era marcada por polarizações e individualismos, falar de caridade como patrimônio comum é uma provocação cultural. Convida a considerar a solidariedade não como um gesto ocasional, mas como uma infraestrutura moral das cidades.
Talvez este seja justamente o ponto mais forte da intuição do cardeal: lembrar que o verdadeiro patrimônio de uma comunidade não são apenas seus palácios ou suas praças, mas a qualidade das relações que ela sabe construir, especialmente com os mais fracos.
Se o “quilômetro quadrado da caridade” conseguir nos fazer refletir sobre isso, já terá alcançado um resultado significativo, independentemente dos reconhecimentos oficiais. Porque, no fundo, o valor de uma cidade também se mede pela forma como ela sabe cuidar de seus habitantes mais frágeis.

