1 Mar 2026, Dom

Conheçamos Dom Bosco (3). Os irmãos de Dom Bosco

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A relação do pequeno Joãozinho com seus dois irmãos foi muito diferente. Antônio, o problemático meio-irmão, que ficou órfão aos nove anos, mostrou-se hostil aos estudos de João e sobrecarregado pelo trabalho no campo. Apesar das tensões, Dom Bosco o perdoou e ajudou seus filhos após sua morte prematura em 1849. Já José, o irmão querido, foi um grande apoio: cedeu sua herança a João, fornecia mantimentos para o Oratório e participava ativamente da vida salesiana. Homem generoso e religioso, construiu em Becchi uma casa com capela que se tornou um centro de devoção. Morreu nos braços de Dom Bosco em 1862.

Porque ele viveu intensamente o significado de “família”

Antônio Bosco. O meio-irmão
      Francisco Bosco casou-se, em 16 de junho de 1811, com Margarida Occhiena de Capriglio, com quem teve outros dois filhos (José e João). Francisco morreu em 11 de maio de 1817. Antônio, assim, aos nove anos, ficou órfão de pai e mãe.
Ao crescer, mostrou-se mais difícil. É descrito como desobediente e desrespeitoso para com a madrasta, apesar da doçura e da atenção que ela lhe dedicava. Mais tarde, vemo-lo obstinado e contrário à frequência escolar de João. Os dois, além disso, tinham um temperamento incompatível que tornava tensa a relação entre eles. Parece que, após a morte da avó paterna, Margarida Zucca († 1826), Antônio, aos dezoito anos, tornou-se ainda mais ranzinza. Por outro lado, era ele quem carregava o maior peso do trabalho agrícola. A preocupação de que o conflito em casa pudesse se tornar mais sério e perigoso convenceu finalmente Margarida da oportunidade de enviar João para trabalhar como ajudante em um sítio próximo.
Antônio assina com seu nome a certidão de nascimento do último filho (como era exigido a partir de 1842), portanto não era totalmente analfabeto. O irmão José, ao contrário, sempre assinou com uma cruz e com a assistência de duas testemunhas. A imagem que poderíamos ter ao ler as Memórias de um Antônio rude e ignorante deveria, portanto, ser revista.
Após a partilha da propriedade familiar, em 22 de março de 1831, Antônio casou-se com Anna Rosso de Castelnuovo, com quem teve sete filhos. São os sobrinhos de Dom Bosco por parte do meio-irmão. Não sabemos como Antônio conseguia sustentar sua família com os pequenos lotes de terra que herdara; provavelmente também trabalhou como lavrador braçal. De qualquer forma, a família deve ter vivido em grandes dificuldades.
Aos poucos, os descendentes de Antônio e José deixaram os Becchi e se mudaram para outros lugares. Entre 1891 e 1926, suas propriedades nos Becchi foram doadas ou vendidas aos Salesianos. Suas partes da casinha foram doadas em 1919 (pelos herdeiros de Antônio) e em 1926 (pelos herdeiros de José). A partir de 1929, o centro histórico, que engloba a casinha, a casa do irmão José e a casa Cavallo-Graglia, e grande parte da colina, incluindo a propriedade Biglione, passou para as mãos dos Salesianos. O Reitor-Mor, P. Filipe Rinaldi, planejava transformar toda a colina em um santuário em vista da beatificação de Dom Bosco (1929).
A pequena casa construída por Antônio em frente à casinha foi demolida em 1915 para dar lugar ao santuário de Maria Auxiliadora, erguido entre 1915 e 1918 para comemorar tanto o centenário do nascimento de Dom Bosco quanto a instituição da festa de Maria Auxiliadora. Poder-se-ia pensar que os dois meios-irmãos nunca mais retomaram o contato após 1831. Isso não corresponde à realidade. É mais plausível que, com o tempo, eles tenham se reconciliado de alguma forma.
Antônio ia com bastante frequência ao Oratório para visitar Mamãe Margarida e o P. João. Antônio morreu quase repentinamente, em 18 de janeiro de 1849, aos 41 anos, após alguns dias de um mal-estar que não parecia perigoso.
Dom Bosco, que estava prestes a partir para os Becchi, recebeu a triste notícia de seu irmão José. Ele, que não deixara escapar nenhuma oportunidade para demonstrar seu afeto sincero por seu opositor Antônio, após a morte deste, cuidou diligentemente de seus filhos. Um deles, chamado Francisco, ele acolheu no Oratório, fez com que aprendesse o ofício de carpinteiro e formou nele um bom cristão. O outro, que ficou nos Becchi, recebeu ajuda de Dom Bosco em casos de necessidade.
Assim se vingam os santos.
Dom Bosco afirmou ter sonhado com Antônio entre 1831 e 1832 e novamente em 1876. Dessas passagens, conclui-se que ele não guardava rancor do meio-irmão. Infelizmente, Antônio é lembrado negativamente na tradição biográfica salesiana, embora em certo ponto nas Memórias Biográficas Lemoyne teça um “elogio” a ele.

José Bosco. O irmão amado
      Aparece como um menino tímido, gentil, às vezes teimoso. “José, de índole doce e tranquila, todo bondade, paciência e prudência, seguia de bom grado a condição paterna; mas tinha uma inteligência sutil para tirar proveito de tudo, mesmo das coisas que poderiam parecer pouco úteis: de modo que se teria tornado um negociante experiente, se não amasse a vida pacífica do campo”. Encontramo-lo ao lado de João no episódio da venda do peru. Os dois irmãos eram muito afeiçoados um ao outro.
José, por maiores que fossem às vezes suas dificuldades, nunca pediu nada a João, que, no entanto, lhe era muito grato. Para permitir que ele estudasse com o P. Calosso, José prometeu que o substituiria no trabalho no sítio. Quando a propriedade da família foi dividida, ele decidiu ficar com João e Mamãe Margarida. Nos anos em que João frequentava a escola de Chieri ou estava no seminário, ele acompanhava a mãe nas visitas ao irmão. Cedeu a João sua parte da herança para que ele pudesse demonstrar na Cúria que possuía o patrimônio necessário para entrar nas ordens maiores.
Dom Bosco tinha em seu irmão mais velho uma total e afetuosa confiança, compartilhava com ele tanto suas alegrias quanto suas tristezas, e formava com ele um só coração e uma só alma. José vinha várias vezes por ano a Turim para ficar no Oratório, por mais ou menos tempo, conforme lhe era possível. Seu objetivo era desfrutar de algumas horas na companhia de João e de Mamãe Margarida, que ficava felicíssima em ver seu primogênito. Tinha bons motivos a boa mãe para se orgulhar deste filho. Ele era profundamente religioso, um pai de família zeloso e afetuoso, de coração generoso e caridoso e, embora tivesse numerosos filhos, sentia como seus os jovens do Oratório.
Não contente em enviar todos os anos, de sua própria produção, provisões de alimentos, na época das colheitas, ia em busca de ajuda junto a parentes e amigos, e sabia convencê-los tão bem que conseguia carregar vários carros de nozes, trigo, batatas, uvas e mandá-los para o Oratório.
Um dia, a caminho do mercado de Moncalieri para comprar dois bezerros, passou por Valdocco para visitar o irmão. Mas, vendo a penúria em que se encontrava o Oratório, que justamente naquele dia precisava saldar dívidas pesadíssimas, tirou a carteira e disse a Dom Bosco: «Vim para gastar 300 liras na feira de Moncalieri, mas vejo que a tua necessidade é muito mais urgente que a minha. Por isso, de todo o coração, te dou este dinheiro». Dom Bosco ficou com os olhos marejados: «E tu?»
«Esperarei outra vez».
«Mas não seria melhor que tu apenas me emprestasses? Eu te devolverei assim que puder».
«Quando é que vais arranjar esse dinheiro, Gioanin [Joãozinho]? Estás sempre cheio de dívidas. Não, não! Eu te dou e pronto».
Quando ele aparecia no Oratório, todos os jovens iam ao seu encontro com afeto e confiança, como a um pai. Chamavam-no de “tio José”. Em suas feições, tinha muita semelhança com Dom Bosco e sua estatura era aproximadamente a mesma. Sua aparência manifestava a bondade de seu grande coração. Dom Bosco sempre o apresentava com orgulho, mesmo às personalidades mais distintas. Convidava-o frequentemente para dar a “boa-noite” aos jovens da cátedra que ele costumava usar. José, sendo um simples camponês, resistia um pouco, mas depois aceitava e, em dialeto piemontês, era ouvido com imenso prazer.
Em 18 de março de 1833, José casou-se com Maria Calosso (1813-1874). Tiveram dez filhos; dos homens, apenas dois atingiram a maioridade: Francisco foi o único a levar adiante o sobrenome Bosco; Luís nunca se casou e deu vários desgostos a Dom Bosco por seu modo de vida não muito exemplar.
Em 1839, José retornou aos Becchi, onde, com suas próprias economias e com empréstimos, construiu uma bela casa em frente à antiga casinha.
Durante a fase inicial do Oratório (1844-1846), Dom Bosco voltava de vez em quando aos Becchi para descansar. No verão-outono de 1846, para se recuperar da grave doença que o levara à beira da morte, passou mais de três meses com a família. Na casa de José, sempre houve um quarto à sua disposição, no extremo oeste do segundo andar, ao lado dos quartos da família.
Em 1848, foi aberta uma porta na parte oeste da casa e um dos quartos, com a aprovação do Vigário Geral de Turim, foi transformado em capela, abençoada em 12 de outubro pelo padre Pedro Antônio Cinzano, pároco de Castelnuovo. Dedicada a Nossa Senhora do Santo Rosário, a capela foi o primeiro “santuário” na história dos Becchi e tornou-se o centro devocional da aldeia e meta de peregrinação para os meninos do Oratório. Aqui, Miguel Rua recebeu a batina em 1852 e, dois anos depois, Domingos Sávio encontrou Dom Bosco pela primeira vez.
Em 1848, para a bênção da capela, Dom Bosco trouxera consigo dezesseis meninos de Turim. A viagem é considerada a primeira das «caminhadas de outono», que se repetiram todos os anos até 1864.
José era um excelente “assistente”. Vigiando os jovens para que não se dispersassem pelos campos e vinhedos alheios. Era obedecido; mas não faltaram algumas raras infrações às suas ordens. Numa manhã de domingo, viu um garotinho no pátio e, sem mais delongas, repreendeu-o por ter ido aos vinhedos. O menino negava, mas ele, com seu sorriso astuto, replicou: «Não percebes que tens o espião contigo? Não vês a grama que ficou presa nas tuas calças?»
José esteve ao lado do leito de Mamãe Margarida em 26 de novembro de 1856. Ouviu suas últimas palavras e conselhos e, após sua morte, informou Dom Bosco, que havia deixado o quarto a pedido da própria mãe. Pouco depois da morte da mãe, José também adoeceu com pneumonia durante uma visita ao Oratório. Dom Bosco rezou a Nossa Senhora por sua cura, e José se recuperou e pôde retornar aos Becchi.
Lemoyne conta que José teve uma premonição de sua própria morte quando foi ao Oratório para se confessar e falar com Dom Bosco sobre «um certo problema». Ao voltar para casa, arrumou as coisas como se tivesse certeza da morte iminente, embora se sentisse em perfeita forma. Uma semana depois, adoeceu. Dom Bosco correu para junto dele. No dia seguinte, 12 de dezembro de 1862, José morreu nos braços do irmão.

P. Arthur J. LENTI, sdb – Dom Bosco: história e carisma, volume 1, p. 208-210

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P. Bruno FERRERO

Salesiano de Dom Bosco, especialista em catequese, autor de vários livros. Ele foi diretor editorial da editora salesiana Elledici. Ele é o diretor do "Boletim Salesiano", impresso em italiano.