10 Fev 2026, Ter

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Em 1876, durante a terceira série de exercícios espirituais pregados em Lanzo, Dom Bosco contou um sonho que ganharia o título simbólico de “A Filoxera”. A visão, ambientada em um vasto salão do Borgo San Salvario, em Turim, e povoada por religiosos de diferentes ordens, apresenta a própria figura de Dom Bosco, enigmática e vendada, convidado a identificar o tema conclusivo para a pregação final. O sonho logo se transforma em uma advertência: a filoxera, parasita que devasta as vinhas, torna-se metáfora da murmuração e da desobediência capazes de corroer uma comunidade religiosa por dentro. Somente uma intervenção radical, comparada ao fogo purificador, pode salvar a Congregação e preservar sua missão.

A terceira série [de exercícios espirituais] de 1º a 7 de outubro, foi pregada pelo P. Bruno, filipino do Oratório de Turim, grande diretor de almas. Participaram somente os padres e clérigos mais idosos. Dom Bosco não se moveu de Lanzo, mesmo nos curtos intervalos entre um grupo e outro. As notícias sobre esta última turma são muito mais escassas do que as das turmas anteriores; se não fosse um sonho narrado no final, deveríamos dar um ponto final aqui. Precisamos coletar os dados, porque não nos foram transmitidos na forma falada usual. Nas memórias da época, o encontramos com o título “A filoxera”.
Parecia a Dom Bosco de encontrar-se numa vastíssima sala em Borgo São Salvario, em Turim. Religiosos e religiosas em grande número, pertencentes a diversas Ordens e Congregações, estavam ali reunidos: ao entrar Dom Bosco, todos os olhares se voltaram para ele, como se todos o aguardassem. No meio deles viu um homem de aspecto estranho, com a cabeça envolta numa bandagem branca e com a pessoa envolta em uma espécie de lençol como um manto. Dom Bosco quis saber quem era aquele homem estranho e foi dito que aquele era ele mesmo, Dom Bosco… Talvez representasse Dom Bosco sonhador.
Ele, então, avançou entre aquela multidão de pessoas religiosas, que fizeram uma grande coroa ao seu redor, sorrindo para ele; mas ninguém falou. Ele observava surpreso: mas todos continuaram a olhá-lo sorrindo sem dizer uma palavra. Finalmente, Dom Bosco rompeu o silêncio e disse:
– Por que estão rindo assim? Parece que querem zombar de mim!
– Zombar de você? Engana-se, nós rimos porque adivinhamos o motivo que o trouxe aqui.
– Como podem adivinhar, se eu mesmo não saberia dizer-lhes por que vim? Asseguro-lhes que a sua risada me surpreende.
– O motivo que o trouxe aqui, disseram os religiosos, é este. Você pregou os exercícios espirituais aos seus clérigos em Lanzo.
– E com isso?
– Agora vem procurar o que dizer na pregação de encerramento.
– Seja como vocês dizem. Então, sugiram-me o que devo dizer, alguns conselhos que ajudarão a fazer a Congregação de São Francisco de Sales florescer cada vez mais. Eu lhes agradeceria muito.
– Sugerimos apenas uma coisa: diga a seus filhos para tomarem cuidado com a filoxera.
– Filoxera?! Mas o que a filoxera tem a ver com isso?
– Se mantiver a filoxera longe de sua Congregação, ela terá uma vida longa e florescera e fará um grande bem às almas.
– Mas eu não entendo.
– Como não entende? A filoxera é o flagelo que trouxe a ruína a muitas ordens religiosas e foi a causa pela qual muitas, ainda hoje, não alcançaram seu ponto mais elevado.
– Este aviso é inútil, se vocês não explicam melhor. Eu não entendo nada.
– Então não valia a pena estudar tanta teologia.
– Tanto quanto me parece ter cumprido com meu dever; mas nos tratados teológicos nunca encontrei mencionada a filoxera.
– No entanto ainda se fala dela. Reduza esta palavra ao sentido moral e espiritual.
– Na etimologia da filoxera, não vejo nem remotamente um significado que possa ser reduzido a um sentido espiritual.
– Já que não é capaz de explicar o mistério, aí vem quem vai lhe dar a explicação.
Nisso Dom Bosco percebeu certo movimento na multidão como para deixar passo livre e viu um novo personagem avançando em sua direção. Ele o fixou bem; mas parecia-lhe que nunca o tinha visto, embora com seus modos familiares provasse ser um antigo conhecido seu. Assim que se aproximou dele, Dom Bosco lhe disse:
– Você veio justamente para me aliviar do constrangimento em que estes senhores me colocaram. Eles afirmam que a filoxera ameaça destruir as casas religiosas e querem que eu tome a filoxera como tema de conclusão de nossos exercícios espirituais.
– Dom Bosco, que se considera tão sábio, não sabe dessas coisas? É certo que, se você lutar contra essa filoxera com força total e ensinar seus filhos a combatê-la de maneira adequada, a sua Sociedade não deixará de florescer. Você sabe o que é a filoxera?
– Eu sei que é uma doença que gruda nas plantas e as mata, deixando-as dormentes.
– E de onde vem essa doença?
– Origina-se de uma infinidade de animaizinhos, que se apoderam de uma planta.
– Como se pode salvar as plantas próximas da destruição?
– Disto eu não entendo nada.
– Ouça com atenção o que estou prestes a lhe dizer. A filoxera começa a aparecer sobre uma única planta e não demora muito para que todas as plantas mais próximas sejam infectadas por ela, mesmo que estejam a uma certa distância. Agora, quando a doença aparece em um vinhedo, em um pomar, em um jardim, a infecção se espalha rapidamente e a beleza e os frutos esperados vão à ruína. Você sabe como se estende o mal? Não por contato, porque a distância o impede; não porque os animaizinhos descem ao solo e cruzam o espaço que os separa das outras plantas. A experiência comprova: é o vento que levanta esta maldição e a espalha sobre os ramos das plantas ainda sadias. E esse grande infortúnio acontece muito rapidamente. Bem, saiba que o vento da murmuração leva longe a filoxera da desobediência. Entende?
– Estou começando a entender.
– Os danos causados por esta filoxera impulsionada pelo vento são incalculáveis. Nas casas mais prósperas, primeiro diminui a caridade mútua; depois, o zelo pela salvação das almas; então, gera ociosidade; depois tira todas as outras virtudes religiosas e, por fim, o escândalo as torna objeto de reprovação por parte de Deus e dos homens. Não é preciso que nenhum dos depravados passe de um colégio para outro: basta este vento que sopra de longe. Convença-se! Esta foi a causa que levou à destruição certas Ordens religiosas.
– Tem razão. Eu reconheço a verdade daquilo que me diz. Mas como remediar tal desgraça?
– Meias medidas não bastam, mas é preciso recorrer a meios extremos. Para enfrentar o mal que produz a filoxera material, foi feita uma tentativa de sulfetar as plantas infectadas, recorreu-se à água calcinada, e outros meios foram inventados; mas tudo foi inútil, porque de uma única planta a filoxera destrói em um instante todo o vinhedo. Então, de uma vinha se estende às mais próximas, e destas às outras, de modo que de uma região se estende a toda a província, desta a todo o reino e assim por diante. Quer saber, portanto, a única maneira de eliminar eficazmente o mal, em seu início? Assim que a filoxera aparecer sobre uma planta, cortá-la com cuidado, cortar as sebes em volta dela e jogar tudo nas chamas. E se todo o vinhedo estivesse infectado com ela, cortar todas as plantas e reduzi-las a cinzas para salvar as vinhas próximas. Só o fogo pode exterminar semelhante doença. Por isso, quando numa casa se manifesta a filoxera da oposição aos desejos dos superiores, o soberbo desrespeito às Regras, o desprezo pelas obrigações da vida comum, não demore: arranque aquela casa pelos alicerces; rejeite seus membros, sem se deixar dominar por uma perniciosa tolerância. Assim como acontece com a casa, também o fará com o indivíduo. Às vezes, pode parecer que um indivíduo isolado pode se curar e voltar novamente ao bom caminho; ou então terá pena de castigá-lo pelo amor que tem a ele ou mesmo por alguma especial habilidade que ele possui ou pela sua ciência que lhe parece prestigiar a Congregação. Não se deixe impressionar por semelhantes reflexões. Pessoas desta índole dificilmente irão mudar sua maneira de ser. Não digo que sua conversão seja impossível; afirmo, no entanto, que isso raramente acontece, e tão raramente, que esta probabilidade não é suficiente para induzir um Superior a se curvar a uma sentença mais benigna. Alguns, se dirá, serão capazes de fazer pior no mundo. Portanto, assim seja com eles; que carreguem todo o peso de sua conduta, mas que não seja a sua Congregação a sofrer.
– E se realmente, deixando-os na Sociedade, se poderia com tolerância atraí-los ao bem?
– Esta suposição não é válida. É melhor despedir um desses soberbos do que retê-lo com a dúvida de que pode continuar a semear discórdia na vinha do Senhor. Guarde bem na memória esta máxima; coloque-a resolutamente em prática, sempre que for necessário; faça-a objeto de conferência aos seus Diretores em suas conferências e seja este assunto o tema para o encerramento de seus exercícios.
– Sim, eu o farei. Obrigado por seus avisos. Mas agora me diga: quem é você?
– Não me conhece mais? Não se lembra de quantas vezes nos encontramos?
Enquanto o desconhecido disse isso, todos os presentes sorriam. Nesse momento soou o sinal para levantar e Dom Bosco acordou. Ele acrescentou que esse sonho durou três noites consecutivas; essa particularidade tira consistência à dúvida de que a história seja uma espécie de parábola que ele inventou para expressar de maneira fantástica o seu pensamento. O caso da “cabeça estranha” forneceu-lhe o exórdio, com o qual, como sempre, humilhar-se desde o início e tirar da mente dos ouvintes a impressão de que se tratasse de carismas extraordinários. Na maior parte de seus sonhos, Dom Bosco encontrava um personagem que atuava como guia e intérprete.

(MBp XII, 402-406)