28 Jan 2026, Qua

Don Bosco pubblicista, non giornalista

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Quando se fala de Dom Bosco e sua relação com a imprensa, pode surgir um equívoco: João Bosco escreveu muito, publicou mais de cem obras, fundou um periódico como o Boletim Salesiano e distribuiu milhões de cópias de livretos, biografias e manuais populares. Tudo isso faria pensar em um homem que encarnou plenamente a figura do “jornalista”. No entanto, não é assim. Dom Bosco não quis ser jornalista, pelo menos não no sentido em que o século XIX conhecia e praticava essa profissão.

A distinção não é pequena. Se por um lado ele reconheceu o poder educativo e social da imprensa, por outro evitou reduzir sua missão a uma profissão editorial. Dom Bosco pode ser considerado um grande publicista católico – ou seja, um homem capaz de comunicar ao grande público ideias, valores e conteúdos religiosos – mas não um jornalista no sentido profissional, político e militante que o termo tinha em sua época.

O contexto histórico da imprensa no século XIX
Para entender as escolhas de Dom Bosco, é preciso situá-las no contexto do século XIX. Na Itália, especialmente a partir das décadas de 1840 e 1850, a imprensa periódica assumiu um papel cada vez mais relevante. Os jornais eram instrumentos de debate político, construção de consenso e formação da opinião pública. A profissão jornalística, porém, ainda era pouco regulamentada e frequentemente ligada à propaganda: os jornais surgiam e desapareciam conforme os eventos políticos, estavam ligados a partidos, correntes ideológicas, batalhas anticlericais ou filo-católicas.

O jornalista da época, portanto, era mais um militante ou polemista do que um cronista imparcial. E esse mundo não atraía Dom Bosco. Ele não se identificava com uma profissão que o obrigaria a tomar posição em disputas políticas, a entrar na arena das polêmicas, a gastar energia em um terreno que não era o seu.

Dom Bosco também teve a experiência de jornalista, fundando o jornal Amigo da Juventude em outubro de 1848, como uma publicação de caráter religioso, moral e político, destinada aos jovens. Mas logo desistiu do jornalismo: seu jornal durou cerca de seis meses e ao final se fundiu com outro periódico chamado O Instrutor do Povo. Escreve o P. Lemoyne:

“Dom Bosco, formado pelas peripécias encontradas na direção desse jornal [Amigo da Juventude], tinha percebido depressa que a Divina Providência não destinara a ele estavelmente o ofício de jornalista. Percebeu como esse ofício ameaçava obstruir suas outras ocupações, pois devia dedicar muito tempo à leitura e ao estudo de matérias distintas, como economia política, direito público e apologia católica. Compreendeu que naqueles tempos era preciso que o jornalista católico, se não queria seguir as máximas dominantes do momento, devia estar pronto a ir ao encontro da eventualidade de ser levado perante os tribunais, condenado a pagar pesadas multas e também a ser trancafiado nas prisões da cidadela. Dom Bosco não queria absolutamente participar do erro, mas também não podia arriscar-se a um perigo que comprometeria sua missão primeira. De fato, o Desmascarador, que sucedeu ao Jornal dos Operários, defendendo com grande vigor e argúcia a causa católica, em abril de 1849 enfrentou o primeiro processo em termos de imprensa, do qual participaram os Jurados. Reconheceu não ser prudente criar inimigos desapiedados, pois as polêmicas com os jornalistas irreligiosos eram inevitáveis e a Gazeta do Povo, pelos seus secretos e evidentes contatos, dispunha de tal força a ponto de impor a sua vontade ao próprio parlamento e ao senado. Infelizmente, Dom Bosco previa que não lhe faltariam adversários a combater mediante uma luta que se pode dizer até o último sangue, que no início ele deveria sustentar praticamente sozinho; tratava-se dos protestantes. Deixando, porém, a carreira jornalística, tinha o conforto de ver descer de Superga, aluno daquela academia, o incomparável Teólogo Tiago Margotti, capaz de fazer frente vitoriosamente à revolução dominante.” (MBp III, 383)

A vocação de Dom Bosco: padre e educador
O primeiro motivo pelo qual Dom Bosco não quis ser jornalista reside em sua vocação sacerdotal. Desde o início de seu ministério, ele se percebeu como padre dos jovens, pastor e pai. Tudo o que empreendeu – desde escolas profissionais a oratórios, de missões populares a publicações – sempre teve esse objetivo: a salvação das almas, especialmente dos mais pobres e abandonados.

Ser jornalista teria significado assumir uma identidade diferente, mais laica e profissional, mais ligada às dinâmicas sociais do que às pastorais. Dom Bosco, por outro lado, considerava a imprensa apenas como uma das ferramentas a serviço de sua missão educativa e evangelizadora. Não queria substituir a pregação pela crônica, nem a direção espiritual pela polêmica jornalística.

Dom Bosco publicista: escritor prolífico e divulgador
Dito isso, é preciso reconhecer que Dom Bosco foi um publicista extraordinário. Desde os primeiros anos do sacerdócio, começou a publicar textos destinados ao povo cristão: folhetos de catequese, livretos de oração, vidas edificantes de santos e mártires, manuais de história sagrada. Seu objetivo era claro: fornecer ferramentas simples e acessíveis para a formação religiosa do povo.

O sucesso foi enorme. Suas obras foram reeditadas várias vezes, traduzidas em várias línguas, distribuídas amplamente em paróquias e escolas. Um exemplo emblemático é O Jovem Provido (1847), um pequeno manual de vida cristã que teve dezenas de edições e acompanhou gerações de jovens na oração e na devoção.

O estilo de Dom Bosco era simples, direto e popular. Não buscava erudição, mas clareza. Não mirava a discussão acadêmica, mas a formação prática. E, sobretudo, não tinha como objetivo informar sobre as notícias do dia, mas plasmar consciências.

A experiência do “Boletim Salesiano”
O auge da atividade publicística de Dom Bosco foi a fundação do Boletim Salesiano em 1877. Não se tratava de um jornal no sentido clássico, mas de um periódico de ligação e animação. O objetivo era duplo: informar os leitores sobre as obras salesianas espalhadas pelo mundo e alimentar um senso de pertença e solidariedade entre os benfeitores, amigos e os próprios salesianos.

O Boletim não trazia crônicas políticas ou polêmicas atuais, mas relatos edificantes, notícias missionárias, exemplos de jovens e educadores, apelos à caridade. Era, em essência, uma ferramenta de comunicação interna e externa ao mesmo tempo: criava uma rede de simpatizantes e apoiadores, oferecia conteúdos formativos, consolidava a identidade da Família Salesiana.

Nesse sentido, o Boletim representa bem a diferença entre jornalismo e publicística: Dom Bosco não pretendia fundar um diário ou um semanário de informação, mas uma “voz” capaz de transmitir o espírito salesiano e fazer circular o bem.

Desconfiança em relação ao jornalismo polêmico
Outro motivo pelo qual Dom Bosco evitou o jornalismo foi a desconfiança em relação à imprensa polêmica e anticlerical. Ele tinha plena consciência de quanto os jornais da época podiam ser agressivos contra a Igreja e o Papa. As polêmicas sobre a questão romana, as batalhas culturais do liberalismo, os ataques às congregações religiosas mostravam uma imprensa frequentemente usada como arma política.

Dom Bosco preferiu não se expor diretamente nesse campo. Não faltam, certamente, em suas obras, posições firmes em defesa da fé e da Igreja, mas nunca inseridas no registro típico do jornalismo polêmico. Ele escolheu uma comunicação positiva e construtiva, baseada no relato de exemplos, na difusão do bem, na educação da consciência.

Neste ponto, podemos esclarecer melhor a diferença entre Dom Bosco publicista e Dom Bosco jornalista (que ele não quis ser).
O jornalista informa sobre a atualidade, oferece notícias, comenta fatos, participa do debate público.
O publicista comunica ideias e valores ao grande público, difunde mensagens educativas, divulga conteúdos religiosos ou morais.

Um legado para a Família Salesiana
O legado de Dom Bosco publicista está vivo até hoje. O Boletim Salesiano, traduzido em dezenas de línguas e distribuído em mais de cem países, continua sua missão de ligação e animação. As obras de divulgação de Dom Bosco permanecem modelos de comunicação popular, capazes de unir clareza e profundidade espiritual.

Para a Família Salesiana, esse legado é um convite a considerar os meios de comunicação não como um fim em si mesmos, mas como ferramentas a serviço da missão educativa e evangelizadora. A fidelidade a Dom Bosco não consiste em se transformar em jornalistas profissionais, mas em continuar sendo comunicadores do bem, capazes de usar todos os meios para falar aos jovens e às famílias.

Dom Bosco não quis ser jornalista porque não era sua vocação. Ele era padre, educador, fundador. Mas usou com genialidade a imprensa para se tornar um grande publicista católico, um divulgador incansável, um comunicador popular.

Sua escolha não foi uma renúncia, mas um discernimento: não se deixar absorver pelas polêmicas da atualidade, mas permanecer fiel à missão educativa. Assim, a imprensa tornou-se para ele não uma profissão, mas um apostolado. E justamente por isso, mais de um século depois, sua voz continua a ressoar: não nas crônicas efêmeras, mas na formação duradoura das consciências.

E recordemos o que escrevia o P. Lemoyne:
“Por último, queremos observar como, dos acontecimentos descritos acima, Dom Bosco extraiu uma grande lição, que ele repetia com frequência aos seus discípulos, isto é, que o jornalismo, especialmente o que de algum modo se refere à política, não fazia parte do seu campo de ação. Sobre esse ponto, ele tinha escrito um artigo proibitivo nas Regras de sua Pia Sociedade, que depois foi tirado pela Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, não pelo fato de a Igreja se opor a essa prescrição, mas porque, sendo enunciada de maneira muito geral, seria necessário acrescentar diversas explicações que a prudência naquele momento desaconselhava. Todavia, Dom Bosco repetia continuamente ser sua firme decisão que os Salesianos se mantivessem sempre estranhos às lutas políticas, pois o Senhor não nos chamou para isso, mas para cuidar dos jovens pobres e abandonados.” (MB IT III, 487 / MB PT III, 386)

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